China

Sem cabelo e sem tempo para o período: as enfermeiras no combate ao coronavírus

Sem cabelo e sem tempo para o período: as enfermeiras no combate ao coronavírus

A vida não tem sido fácil para os profissionais de saúde na linha da frente do combate ao Covid-19 na China, sobretudo nos principais focos de contágio. No caso das mulheres, os obstáculos multiplicam-se.

Zhang Wendan, 27 anos, enfermeira, comemorava com a família o Ano Novo Lunar, em Huanggang, Hubei, epicentro do surto, quando foi notificada pelo hospital onde trabalha: tinha de regressar ao serviço e ajudar nos trabalhos de contenção, que, agora terminados (no seu caso), foram sobretudo "angustiantes", relatou ao "The New York Times" (NYT). Como todos os colegas, Zhang enfrentou o excesso de trabalho e a exaustão, acostumou-se a usar roupas ensopadas de suor por baixo do pobre e improvisado fato de proteção (o Governo central ordenou que as fábricas têxteis se adaptassem para a produção dos fatos), ficou sem tempo para comer, beber e ir à casa de banho durante os turnos de longas horas, passou a usar fraldas para minimizar os intervalos e resignou-se ao facto de não haver equipamentos de proteção para todos, arriscando juntar-se aos milhares de profissionais de saúde diagnosticados com o Covid-19.

Como se não bastasse, por ser mulher, viu-se obrigada a lidar com questões que se tornaram barreiras no trabalho: rapou o cabelo, para higiene pessoal e conveniência (causava calor na touca), e enfrentou a falta de absorventes menstruais - face ao isolamento das cidades, a distribuição desses produtos não é prioritária, dificultando a vida das muitas profissionais de saúde nas principais áreas afetadas pelo surto.

E são realmente muitas: 100 mil só em Hubei, onderepresentam mais de metade do total de médicos e 90% dos enfermeiros que lutam contra a epidemia. Algumas delas apareceram em imagens da televisão estatal do país a cortar o cabelo curto ou mesmo a rapá-lo. A prática ajuda supostamente "a prevenir a propagação da doença", mas há quem lá veja coação e propaganda em vez de voluntarismo, como garantem os hospitais, que pagaram os cortes, escreve o NYT. Para a CCTV (oficial do Estado), são "as mais belas combatentes" do surto.

Além de "belas", são menstruadas. Mas, ainda assim, forçadas a renunciar aos produtos sanitários e, muitas vezes, a trabalhar com manchas de sangue nas calças. Para os superiores de Zhang, quase todos homens, as enfermeiras demonstraram pouco "espírito de devoção e disciplina" quando lhes foram pedir ajuda para conseguir pensos higiénicos e tampões - os pedidos foram todos rejeitados por não serem "uma prioridade".

"A urina e o sangue vão juntos para a fralda", potenciando infeções urinárias, explicou um médico ao "South China Moring Post", que desvenda a menstruação como tema tabu na China, onde diz faltar conhecimento sobre a saúde íntima (há semanas, a rede estatal motivou várias críticas depois de cortar esta frase dita por uma jovem enfermeira: "Estou com o período e tenho dores menstruais mas tenho três pacientes que precisam de ajuda"). Tomar pílulas contracetivas ininterruptamente para evitar a menstruação tem sido uma solução, dá conta o mesmo jornal.

Face aos apelos a uma maior consciencialização em torno das necessidades das mulheres, para o qual contribuiu o trabalho de voluntários e ativistas, autoridades e fabricantes começaram a enviar roupas íntimas descartáveis e pensos e tampões para os hospitais, prometendo continuar a fazê-lo. Uma solução a curto prazo que em pouco responde às vontades de transformar práticas e atitudes há muito impregnadas na sociedade.

Outras Notícias