Desaparecimento

Sem corpo e sem respostas. A morte do missionário às mãos dos Sentinela foi há um ano

Sem corpo e sem respostas. A morte do missionário às mãos dos Sentinela foi há um ano

Foi há um ano que John Allen Chau, de 26 anos, entrou numa aventura e não mais regressou. Queria converter ao cristianismo uma tribo indígena, os Sentinela, que o terão morto. O corpo nunca foi resgatado e o mistério continua por resolver.

No diário em que relatava as suas tentativas de contactar os habitantes da Ilha Sentinela do Norte, John revela que no dia antes de ter desaparecido foi recibo com grande hostilidade. As flechas lançadas pelos indígenas, uma comunidade de cerca de 200 pessoas totalmente intocadas pela civilização, atingiram a bíblia que o missionário levava. "O meu nome é John, eu amo-vos e Jesus também vos ama", disse-lhes, enquanto recuava.

Apesar do risco, voltou a tentar chegar à ilha no dia seguinte e nunca mais foi visto. Mais tarde, os pescadores, a quem John tinha pago para o levarem à ilha, viram membros da tribo a arrastarem um corpo, que seria o de John. Esta foi, aliás, uma das provas de que o missionário tinha morrido.

Um ano depois de ter sido dado como desaparecido, o debate em torno da envagelização e a proteção das comunidades indígenas continua a marcar a opinião pública. O caso de John está ainda em aberto e até ao momento não há qualquer sinal sobre o seu paradeiro.

Pescadores presos e indígenas protegidos

John era natural do Estado de Washington, onde estudou numa escola cristã em Vancouver. Em 2014, entrou na Roberts University, uma instituição cristã de Oklahoma, que lhe permitiu estreitar relações com a comunidade religiosa dedicada às missões. Terá sido com o propósito de evangelizar os Sentinelas, que vivem isolados na Ilha de Sentinela, no Golfo de Bengala, que John entrou numa aventura que se revelou fatal, tentando visitar aquela tribo, considerada por especialistas como sendo a "mais isolada do Mundo".

Pouco depois da confirmação do desaparecimento, as autoridades detiveram o grupo de pescadores, entretanto libertados, a quem a vítima pagou para o levarem à ilha. "O caso de tentativa de assassinato envolve os pescadores e dois cidadãos norte-americanos que entraram em contacto com a vítima antes do incidente", disse, citado pelo jornal "El País", Dependra Pathak, da polícia de Andamão e Nicobar. Os dois cidadãos norte-americanos, uma mulher e um homem, estiveram com John no dia 12 de novembro. Apesar de não se saber ao certo qual o envolvimento no desaparecimento do missionário, as autoridades locais explicam que as acusações exigem "a colaboração de autoridades dos EUA e do Ministério das Relações Exteriores".

A possibilidade de condenar os elementos da tribo é outro dos pontos que um ano depois ainda gera controvérsia. Académicos locais, como é o caso de M Sasikuma, diretor do Instituto Maulana Abdul Kalam, em Calcutá, é contra essa hipótese, e defende que a tribo deve ser protegida pelo governo, evitando contacto com externos, apontando o dedo às autoridades locais por em agosto de 2018 ter tornado mais fácil o contacto com a ilha.

Sophie Grig, porta-voz do grupo "Survival", uma ONG que cuida dos direitos dos indíos, garantiu que os habitantes da ilha não serão ouvidos pela polícia. Primeiro, porque seria difícil estabelecer o diálogo com os elementos da tribo e depois pelo risco de contaminação dos indígenas, por uma doença externa, com a chegada dos polícias. "Ninguém pode entrar na ilha, nem mesmo a polícia. Ninguém sabe quem matou John", garante a responsável.

Um dos norte-americanos ouvidos pela polícia apontou a possibilidade de John ainda estar vivo. "John treinou durante vários meses para viver naquela ilha. Foi preparado para viver com eles. Até encontrarmos o corpo dele, há a possibilidade remota de ainda estar vivo", disse, ao "Hindustan Times", um dos polícias envolvidos no proceso.

Nas semanas que se seguiram ao desaparecimento de John, o jornal "The Guardian" noticiou, ainda, que o missionário tinha recebido 13 tipos diferentes de vacinas, como prevenção para qualquer doença que pudesse contrair junto dos elementos da ilha.

Pam Arlund, um dos responsáveis pelo grupo de missionários a que John pertencia, alertou, em declarações à Fox News, que a morte de John pode fazer com que outros elementos se sintam inspirados e o tentem imitar.

"Um ano depois da morte, questionamos qual a melhor forma de honrar o seu sacrifício. Decidimos que a melhor forma é continuar a espalhar o amor de Jesus", disse.

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