Itália em quarentena

"Senti um arrepio na espinha quando vi uma foto de portugueses na praia"

"Senti um arrepio na espinha quando vi uma foto de portugueses na praia"

Giacomo Visentin, 28 anos, vive em Este, perto de Pádua, na região de Veneto. Arianna Maselli, 27 anos, vive em Turim, capital e maior cidade da região do Piemonte. Falam-nos do Norte de Itália, fortemente afetado pelo novo coronavírus. Estão em quarentena, como o resto do país, onde mais de 15 mil pessoas foram infetadas e mais de mil já morreram com a doença Covid-19. Contam-nos como é viver em estado de "guerra", deixam alguns conselhos e um aviso: "Não o subestimem".

O vírus surgiu em Wuhan, na China, em dezembro, mas rapidamente se alastrou ao Mundo, sendo considerado uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde. Depois do país de origem, Itália é a mais afetada pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus que provoca a doença Covid-19. Milhares de pessoas foram infetadas, centenas morreram, milhões ficaram em quarentena.

O país parou. Foram proibidos todos os eventos públicos, encerrados os cinemas, teatros, discotecas, bares e escolas, suspensos os jogos de futebol e canceladas viagens. E assim vai continuar pelo menos até 3 de abril. Uma situação "séria", especialmente no Norte, onde o vírus "se espalhou mais cedo do que em outras regiões", recorda Giacomo Visentin, que vive em Este, na região de Veneto.

"Já se passaram quase três semanas desde as primeiras infeções autóctones na nossa região. O clima é surreal: não é possível sair de casa, exceto por trabalho, saúde ou para comprar comida, no máximo de uma pessoa por família. Estamos a travar uma guerra civil contra um inimigo que não vemos", afirma o italiano de 28 anos, concluindo que não há outra opção a não ser "limitar ao máximo o contacto" entre pessoas.

"#Euficoemcasa"

Este é uma vila com cerca de 16 mil habitantes e fica a aproximadamente 35 quilómetros de Pádua, uma das cidades na "zona vermelha" (risco de contágio máximo). A população vai seguindo as informações que são fornecidas diariamente pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte, e está a avançar-se "progressivamente para o encerramento total de todas as atividades". Desde domingo e até 3 de abril, os italianos devem ficar o máximo de tempo possível em casa e até já foi criada uma "hashtag" para o efeito: #iorestoacasa, em português "eu fico em casa". "Caso contrário, serão aplicadas multas até 206 euros ou três meses de prisão", lembra Giacomo.

Desde a noite de quarta-feira, "as atividades comerciais foram suspensas, exceto para alimentos e necessidades básicas, como supermercados e farmácias", enquanto "as atividades de produção, sobretudo fábricas, permanecem abertas, mas apenas nos departamentos indispensáveis". Seja em Este, seja em Turim. Na cidade onde vive Arianna Maselli - e também o português Cristiano Ronaldo, que joga no maior clube da região do Piemonte, a Juventus, mas que por enquanto permanece na Madeira - a situação é "pesada". "As pessoas estão com muito medo, as ruas estão desertas. Todas as pessoas que saem de casa devem ter um documento de certificação indicando o motivo da saída, caso a polícia decida verificar", explica a italiana de 27 anos.

E agora que as pessoas devem permanecer em casa, como ocupam o tempo? "Eu trabalho numa mercearia e posso continuar a trabalhar lá, mas a maioria das pessoas está a trabalhar em casa através do 'teletrabalho'. Podemos ver filmes, séries de televisão, cozinhar ou fazer chamadas de vídeo pelo telemóvel para falar com os amigos à noite", conta Arianna. Mas para alguns a distância pode ser mais difícil. A namorada de Giacomo mora a apenas 15 minutos da casa dele, mas as "limitações impostas" não permitem que ele a veja pessoalmente durante "pelo menos mais três semanas". "Este sábado é o meu aniversário, mas paciência, o importante agora é superar esta emergência. Unidos vamos fazer isso", garante Giacomo.

O jovem de Este trabalha numa multinacional de grande distribuição e faz as oito horas de trabalho em casa, através do "smart working". Depois, passa o resto do dia a assistir "filmes e séries na Netflix", a ler "livros e e-books", a "jogar consola", a participar em "alguns cursos de formação online", a "arrumar a casa" - agora que "finalmente há tempo para isso" - e a "ligar para a namorada".

Há "medo" porque não se sabe quando vai acabar

Sobre o sentimento que se vive em Itália, as respostas são idênticas: há medo e preocupação porque não se sabe quando vai acabar o pesadelo. "O número de casos cresce exponencialmente dia após dia, tanto em Itália como noutros países, e isso sugere que vai demorar muito, pelo menos até ao verão", acredita Giacomo, afirmando que "ninguém poderia imaginar isso há umas semanas". "Tudo parece tão surreal. O medo não é apenas de ser infetado e acabar no hospital, mas também de agir como um veículo para o vírus em relação aos nossos entes queridos, especialmente aos idosos".

O sentimento é o mesmo em Turim, onde há "muito medo". "Não sabemos como vai terminar nem quanto tempo vai durar, mas a tensão é alta", diz Arianna. A jovem não tem nenhum conhecido infetado com o vírus, mas conhece "médicos e enfermeiros que dizem que a situação nos hospitais está em colapso". "Dada a disponibilidade limitada nas unidades e se a situação piorar, os médicos serão forçados a decidir quem salvar e quem não salvar, porque não há máquinas [ventiladores] para todos".

E não são só as pessoas mais idosas que devem ter cuidado: "Também há jovens infetados que não tinham problemas de saúde. O vírus é muito agressivo", alerta.

Giacomo teve conhecimento de um caso mais próximo do "tio de um amigo querido", que mora na aldeia de Vò, "um dos epicentros da infeção". Felizmente, "ele está bem e experienciou isso como uma gripe banal". Mas nem todos "são tão sortudos". "Os idosos e as pessoas com patologias anteriores correm mais riscos. Algumas unidades de cuidados intensivos estão cheias e em algumas regiões, como a da Lombardia, a mais afetada, estão em risco de colapso". Tal como disse Arianna, em alguns casos os "médicos têm de escolher quem internar nos cuidados intensivos". "Quem tentam curar e quem deixam morrer", lamenta Giacomo.

Por isso, todas as pessoas, mais velhas ou mais jovens, devem ter cuidados. "Os jovens também correm o risco de contrair o vírus. Podem ser assintomáticos, mas atuam como um veículo para o vírus e, portanto, podem ameaçar a vida das pessoas mais fracas. Não sou médico, mas, pelo que observo, o comportamento do vírus é realmente instável, varia de pessoa para pessoa. Em alguns casos, são necessárias semanas de hospitalização. E as camas, como disse, são escassas", refere o italiano.

Uma mensagem para os outros países: "Não subestimem o vírus"

Nem Giacomo nem Arianna têm dúvidas de que Itália cometeu erros e que podia ter sido feito mais (e mais cedo) para evitar a propagação do novo coronavírus. Outros países da Europa, como Portugal, estão já a tomar medidas para prevenir novos casos de infeção, mas os italianos aconselham que o façam o mais rápido possível para que não seja tarde demais. "Não cometam o nosso erro. Em Itália subestimamos este vírus e agora a situação é grave. Devemos tentar evitar a propagação porque é um vírus 'novo' e nenhum de nós tem defesas para combatê-lo. A única maneira de limitar a infeção é evitar o contacto humano, portanto, fiquem dentro de casa", apela Arianna.

Um conselho que partilha com o Giacomo: "Acho que devem [os outros países] tomar as mesmas precauções que Itália o mais rápido possível. Em vez disso, vejo jogos de futebol com estádios cheios, restaurantes abertos, voos sem cancelamentos", aponta, não se poupando a críticas aos países, incluindo Portugal. "Um amigo português enviou-me uma foto da praia de Carcavelos cheia de gente. Senti um arrepio na espinha quando a vi", afirmou Giacomo, referindo-se à enchente nas praias de Cascais na quarta-feira.

Portugal tem até ao momento 112 casos de Covid-19 diagnosticados e aguardam resultado laboratorial 172 pessoas. A partir da próxima segunda-feira, todas as escolas vão ser encerradas temporariamente, assim como outros espaços serão condicionados, como discotecas, restaurantes e centros comerciais. Giacomo diz que é tempo de agir. "Enquanto os governos não estiverem nesta situação, não vão entender. Quanto mais cedo agirmos, mais cedo resolveremos a situação. Como se costuma dizer em Itália hoje em dia: 'estamos distantes hoje, para nos abraçarmos mais fortes amanhã'".

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