Reportagem na Ucrânia

Serghiy, polícia ucraniano: "Morei sempre em Lisboa, mas gosto do Porto"

Serghiy, polícia ucraniano: "Morei sempre em Lisboa, mas gosto do Porto"

Serghiy é polícia e estudou uns anos em Portugal. No plano futebolístico, confessa-se azul e branco.

Três carros aproximaram-se de um posto de controlo ucraniano na estrada que liga Mykolaiv a Kherson e tentaram atacar a posição ucraniana. Os ocupantes eram militares russos que se faziam passar por refugiados ucranianos vindos de Kherson. Na troca de tiros, cinco soldados de Putin morreram, mas vários conseguiram escapar. A informação foi avançada pelo comando operacional da região Sul.

Não tiveram tempo de responder, mas se lhes tivessem pedido, muito provavelmente teriam sido descobertos. Palianytsia é um tipo de pão branco típico da Ucrânia, mas em tempos de guerra a palavra ganhou uma nova utilidade. Serve agora para identificar os russos que se tentam fazer passar por ucranianos. "É incrível, eles não a conseguem dizer, alguns dizem Plunytsya, que significa morango", conta entre gargalhadas Serghiy, um polícia de serviço no posto de controlo à entrada de Mykolaiv.

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A explicação surgiu em português. Serghiy foi estudar para Portugal quando tinha nove anos. A estadia em Camarate, às portas de Lisboa, durou apenas três anos. Quando regressou a Mykolaiv, continuou a estudar a língua que acabara de aprender. "Sonhava ser tradutor, mas acabei na Polícia". Morar em Mykolaiv dificultou atingir o objetivo.

As palavras nem sempre surgem facilmente, Serghiy acaba sempre por encontrá-las. "Nos últimos 15 anos quase não falei português". Mas o idioma já lhe foi útil no trabalho. "Uma vez uns turistas brasileiros beberam um bocadinho de mais e perderam-se. Chamaram-me do serviço, para os ajudar", conta a rir.

Serghiy guarda boas recordações de Portugal e há quatro anos fez questão de levar a noiva a conhecer o país: "Ela adorou. Achou um país fantástico"

Em 2016, fez questão de ir a Lisboa assistir à chegada da seleção campeã europeia de futebol. "Estive lá dois dias. Fui ao aeroporto, andei com o autocarro. Fui lá só para ver a equipa. Eles são bons." Quando pode, o polícia não perde uma oportunidade para ver as equipas portuguesas, "Sporting, F.C. Porto e Benfica. Vejo muitas vezes na internet. Mas o coração de Serghiy é azul e branco: "Não sei porquê. Morei sempre em Lisboa, mas gosto do Porto."

O futebol não é a única ligação que Serghiy mantém com Portugal. O irmão e o pai, Volodymyr, continuam a viver em Camarate, na Quinta do Grilo, já há 24 anos.

No último mês, o agente ganhou mais um motivo para ter saudades de Portugal. A mulher, Anastasia, e a sogra também passaram a morar às portas de Lisboa pouco depois de a guerra ter rebentado. Foram até à Polónia, meteram-se no avião e ficaram logo quase à porta de casa. Foi fácil", relata Serghiy.

Serghiy fala todos os dias com a mulher: "Ela está calma, porque há um céu tranquilo sobre a cabeça. Mas, ao mesmo tempo, o coração não está calmo. Ela está muito preocupada com todos os parentes que ficaram aqui. Nem toda a beleza do país a consegue ajudar", conta Serghiy. "Esta é uma viagem forçada. Ela quer muito voltar para casa".

Enquanto fala, o polícia vai brincando com uma cadela pastor belga malinois. É a companheira de trabalho. "Somos um binómio. Ela está treinada para encontrar explosivos. Nos postos de controlo ainda não encontrámos explosivos". No entanto, o polícia conta que noutro posto de controlo, com outro cão, descobriram vários quilos de droga escondida num carro. No último mês, revistaram várias casas suspeitas. "Ela já descobriu quatro terroristas, aqui em Mykolaiv."

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