EUA

"Sintomas ligeiros" de covid-19 não ilustram gravidade da doença de Trump

"Sintomas ligeiros" de covid-19 não ilustram gravidade da doença de Trump

Donald Trump revelou, esta madrugada, que foi contagiado com o vírus da SARS-Cov-2. Horas depois, a agência de notícias Associated Press (AP) avançou que o presidente dos EUA tem "sintomas ligeiros" da doença covid-19.

Num comunicado emitido horas depois do anúncio da contaminação, o médico pessoal de Trump, Sean Conley, disse que "o Presidente e a primeira-dama estão bem, neste momento, e planeiam ficar na Casa Branca, durante a convalescença", acrescentando que as pessoas podem "ficar descansadas" porque acredita que "o Presidente vai poder continuar a desempenhar os seus deveres sem interrupção, enquanto recupera".

Conley prometeu continuar a dar mais informações sobre o estado de saúde do Presidente, assumindo que a condição pode mudar, sabendo-se que, aos 74 anos e com 120 quilogramas, Trump pertence a um grupo de risco para covid-19 e que poderia ganhar sintomas durante as próximas horas ou próximos dias.

"Vai demorar algum tempo para vermos o que vai acontecer com o presidente e a primeira-dama", disse um ex-delegado de Saúde de Baltimore, nos EUA, Leana Wen, em declarações à CNN. "Pode demorar uma semana ou mais a manifestarem sintomas", acrescentou.

Segundo a AP, os primeiros sintomas, ainda que ligeiros, começaram já a manifestar-se, menos de 24 horas após o teste positivo. Isto pode indiciar que Trump poderá estar infetado há mais tempo do que se pensa ou que a doença está num estádio mais avançado do que o suposto.

De uma semana para a outra pode passar de muito bem a muito mal

PUB

No entanto, os especialistas acreditam que, de momento, não é significativo. "Quando vemos alguém que acaba de se diagnosticado, que tenha acabado de testar positivo, é normal que tenha sintomas ligeiros, que pareça bem", disse Barry Dixon, médico da unidade de cuidados intensivos do hospital St Vincent, em Melbourne, na Austrália.

"Aconselhámos as pessoas a ficar em casa, isoladas, mas a procurar um hospital se sentirem falta de ar. Porque na segunda semana com o vírus as pessoas passam de bem ou muito bem para muito mal, em apenas 24 ou 48 horas", acrescentou, em declarações ao jornal britânico "The Guardian".

"Estamos habituados a ver pessoas com sintomas ligeiros na primeira semana, é normal, mas na segunda semana as pessoas melhoram ou desenvolvem pneumonia", que pode ser fatal, disse Barry Dixon.

"É uma deterioração rápida, como se viu com Boris Johnson", o primeiro-ministro britânico, uma das primeira figuras públicas a ficar infetada com o novo coronavírus. Após vários dias em convalescença na residência oficial do governo britânico, em Downing Street, mostrando que estava a trabalhar, Boris Jonhson piorou e teve de ser internado nos cuidados intensivos, a 6 de abril. Após três noites, em que recebeu cuidados de um enfermeiro português, deixou a UCI para continuar a recuperação.

Tal como Trump, o primeiro-ministro britânico aparentava ter excesso de peso, um dos fatores de risco associados à covid-19. Johnson, de 56 anos, é 18 anos mais novo que o presidente dos EUA, que por força da idade, 74 anos, tem um risco mais elevado de sofrer consequências graves da doença que tanto desvalorizou no início.

Dados os avanços da ciência e do estudo da covid-19, neste momento não é fácil perceber quais as consequências que poderão advir de um agravamento da doença no caso de Donald Trump.

"No início, a taxa de sobrevivência de pessoas com mais de 70 anos internadas em cuidados intensivos devido à covid-19 era de 40 a 50%", disse Christine Jenkins, diretora do serviço de doenças respiratórias do "George Institute for Global Health", em Sidney, na Austrália. "Atualmente esses números não são tão maus e temos estudos com resultados promissores e novas descobertas de tratamentos para pessoas que ficaram muito mal, como a dexametasona", acrescentou.

Peter Collignon, médico especialista em doenças infecciosas, sublinha as palavras de Christine Jenkins. "As pessoas estão a ser mais bem tratadas nas unidades de cuidados intensivos, agora que sabemos um pouco mais sobre o vírus", disse, citado pelo jornal britânico "The Guardian".

"Trump, cujas ideias sobre o uso profilático da hidroxicloroquina e tratamento com desinfetantes, foram classificadas como falsa notícias", pode, ironicamente, vir a ser beneficiado pelos avanços da ciência dos últimos meses no tratamento da covid-19.

"Trump é agora um beneficiário dos poderosos ensinamentos obtidos pela ciência com base em provas e métodos científicos", argumentou Jenkins.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG