Pandemia

Sputnik V: entre a dúvida e o desejo

Sputnik V: entre a dúvida e o desejo

A Agência Europeia de Medicamento (EMA) está a analisar a vacina russa, a Sputnik V, numa altura em que o fármaco começa a conquistar a confiança de vários países. O secretismo inicial envolto da primeira vacina registada contra a covid-19 minou a credibilidade dentro da comunidade científica.

Quando, em agosto de 2020, Vladimir Putin anunciou a primeira vacina contra o vírus SARS-CoV-2 não se sabia ainda qual o verdadeiro impacto que esta descoberta poderia ter no combate à pandemia. A Sputnik V foi o primeira demonstração de poder vinda da Rússia para se posicionar na linha da frente da luta contra o coronavírus. "Foi registada, pela primeira vez no mundo, uma vacina contra o novo coronavírus", afirmava o presidente russo. A declaração de Vladimir Putin marcou o início de uma longa batalha pela credibilidade da vacina russa.

A controvérsia e o secretismo da Sputnik V

Por ter sido registada antes da conclusão da última fase dos ensaios clínicos e por terem sido omitidos dados desses próprios ensaios, a Sputnik V gerou muita desconfiança. Aliás é durante a terceira fase, que por norma demora vários meses e envolve milhares de pessoas, que se consegue provar a viabilidade e a segurança de uma vacina experimental.

Por esse motivo, o anúncio russo pareceu prematuro a muitos cientistas. "É uma decisão irresponsável e imprudente. Uma vacinação em massa com uma vacina que não foi bem testada é antiética", comentou na altura François Balloux, da University College de Londres. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) pedia cautela, garantindo que seria preciso seguir todos os trâmites de pré-qualificação e revisão definidos para viabilizar o uso da vacina. O entusiasmo que chegava da Rússia bateu de frente com os céticos que desconfiavam da veracidade das informações divulgadas pelo país.

Em novembro do ano passado, a Rússia garantiu que a vacina produzida pelo Centro Nacional de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, em Moscovo, tinha uma eficácia de 95%, de acordo com resultados preliminares. Apesar de os resultados serem promissores, a Rússia continuava a limitar o acesso aos dados do estudo e por isso a comunidade científica continuava desconfiada.

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Já este ano, a Sputnik ganhou uma nova aura, quando a conceituada revista médica The Lancet confirmou os resultados anunciados pelos laboratórios russos, num trabalho validado por especialistas independentes.

"O desenvolvimento da Sputnik V tem sido criticado pela sua precipitação, por ter saltado etapas e pela falta de transparência, mas os resultados são claros e o princípio científico dessa vacinação está demonstrado", estimaram dois especialistas britânicos, Ian Jones e Polly Roy, num comentário anexado ao estudo. Isto "significa que uma vacina extra pode ser acrescentada à luta contra a covid-19", insistiram os dois investigadores, que não participaram no estudo.

O artigo publicado na revista britânica revelou que a Sputnik V reduz em 91,6% o risco de contrair uma forma sintomática da covid-19. Além disso, o estudo demonstrou também que não foram registados efeitos secundários graves nos participantes.

A Rússia felicitou-se pelo reconhecimento da sua vacina no estrangeiro, consolidado pela divulgação dos seus bons resultados pela The Lancet. "Esta é uma publicação muito importante, que é convincente sobre a fiabilidade e a eficácia da vacina russa", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, numa conferência de imprensa.

Da Rússia para os quatro cantos do mundo

Os dados divulgados pela revista científica colocam a Sputnik V entre as vacinas com melhor desempenho na proteção contra formas graves de doença provocadas pelo novo coronavírus. Mas ainda as dúvidas quanto à segurança da vacina pairavam no ar e a Bielorrússia já tinha chegado a acordo com a Rússia para dar início à campanha de vacinação com a Sputnik V, tornando-se assim no primeiro país estrangeiro a fazê-lo. Seguido depois pela Argentina, que foi o primeiro país na América Latina a validar o uso fármaco.

De acordo com o Fundo Russo de Investimentos Diretos - a agência fundada em 2011 para investir no capital social de empresas na Rússia - há já 46 países na Europa, América Latina, Médio Oriente, África e Ásia que registaram oficialmente a vacina Sputnik V.

Entre os países que recorrem à Sputnik V estão ex-repúblicas soviéticas como a Arménia e aliados como a Venezuela e o Irão, mas também a Argélia, a Tunísia ou o Paquistão. A esta lista juntou-se, recentemente, a Hungria e a Eslováquia, dois países europeus que usam o fármaco numa altura em que este ainda não foi aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA sigla em inglês).

Impacientes face àquilo que consideram "morosidade" e "hesitações" no processo de aprovação da vacina pela Agência Europeia de Medicamentos, alguns países europeus começaram a agir por conta própria.

"Se não há vacinas na União [Europeia], vamos buscá-la a outro sítio. Não é admissível que os húngaros morram por causa disso", disse primeiro-ministro húngaro Viktor Orban. A Hungria foi o primeiro país na Europa a vacinar cidadãos europeus com a Sputnik V. Já o primeiro-ministro eslovaco, Igor Matovic, manteve a compra em segredo e anunciou o acordo com a Rússia, após a aterragem de um avião com 200 mil doses da Sputnik V, num aeroporto do país.

Outros líderes europeus também se manifestaram contra a demora da EMA na aprovação da vacina. Foi o caso do Presidente checo, Milos Zeman, que defendeu o uso da vacina russa, enquanto a Croácia já admitiu estar a negociar a compra do medicamento. Também o primeiro-ministro austríaco, Sebastian Kurz, já manifestou vontade em negociar com a Rússia o uso da Sputnik V no país.

O próprio fundo soberano russo, proprietário da vacina, já veio criticar a agência europeia por ter "adiado durante meses" o processo de autorização da Sputnik V.

Face às pressões para que o regulador europeu avaliasse rapidamente o desempenho da Sputnik V, a EMA anunciou, na semana passada, uma "análise contínua" à vacina russa para determinar a sua viabilidade e conformidade com os requisitos da UE em matéria de eficácia, segurança e qualidade. A aprovação ainda não foi oficializada.

A produção aquém das expectativas da Sputnik V

A Sputnik V é uma vacina de vetor viral, ou seja, utiliza outros vírus tornados inofensivos para o organismo humano e adaptados para combater a covid-19. A vacina russa utiliza dois adenovírus humanos diferentes para cada uma das injeções. Segundo os seus criadores, a utilização de um adenovírus diferente em reforço da primeira injeção deverá causar uma melhor resposta imunológica.

Atualmente, o Kremlin lida com um problema de escassez de vacinas e admitiu não ter capacidade para responder aos pedidos internacionais da vacina para a covid-19.

"A procura da vacina russa no estrangeiro é realmente muito elevada. Tão elevada que excede consideravelmente a capacidade de produção", admitiu Dmitri Peskov, numa conferência de imprensa. O porta-voz sublinhou, ainda, que "a campanha nacional de vacinação é uma prioridade absoluta", detalhando que "todas as capacidades de produção foram mobilizadas e, em primeira instância, elas trabalham para o mercado interno".

Por isso, no início de fevereiro, o Kremlin revelou o desejo de produzir a sua vacina fora da Rússia. "Num futuro próximo, queremos iniciar a produção em países estrangeiros para responder à procura crescente em cada vez mais países", garantiu Dmitri Peskov, o porta-voz do Executivo russo.

Para o efeito, a Rússia tem procurado fechar acordos com países onde a indústria farmacêutica está mais desenvolvida. Esta terça-feira, a Câmara de Comércio Itália-Rússia anunciou que a Sputnik V vai ser produzida em Itália a partir de julho, apesar da vacina ainda não ter sido aprovada na Europa.

"A vacina será produzida a partir de julho de 2021 nas fábricas da (farmacêutica italiana e suíça) Adienne, na Lombardia, em Caponago, perto de Monza", no norte da Itália, disse o assessor do presidente da Câmara de Comércio, Stefano Maggi, à agência de notícias francesa AFP. "Serão produzidas dez milhões de doses entre 1 de julho e 1 de janeiro de 2022", adiantou, sublinhando que se trata do "primeiro acordo a nível europeu para a produção no território da União Europeia da vacina Sputnik".

As autoridades russas já vieram a público garantir que vão poder fornecer vacinas a 50 milhões de europeus a partir de junho. "A Sputnik V pode dar uma contribuição importante para salvar milhões de vidas na Europa", afirmou o presidente do fundo soberano russo, Kirill Dmitriev.

Neste momento, para além da Rússia, são quatro os países que produzem a Sputnik V: Cazaquistão, Índia, Coreia do Sul e Brasil.

Em janeiro a Rússia afirmou que a Sputnik V já tinha sido administrada a mais de 1,5 milhões de pessoas. No entanto, este é o último balanço oficial conhecido das autoridades do país no que diz respeito ao número de pessoas vacinadas.

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