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Terceira bala do polícia que matou Rayshard Brooks atingiu carro onde estavam crianças

Terceira bala do polícia que matou Rayshard Brooks atingiu carro onde estavam crianças

Advogado da família do homem de 27 anos que foi baleado pelas costas em Atlanta revela que a polícia "quase provocou outra tragédia". A ação foi "imprudente, desnecessária, injustificada", diz. Polícias podem enfrentar acusação de homicídio até ao final da semana.

Rayshard Brooks morreu com dois tiros nas costas quando na sexta-feira, 12 de junho de 2020, ao princípio da noite, fugia de dois polícias que o queriam algemar por ter adormecido ao volante do seu carro enquanto aguardava pela comida na fila de um restaurante de hambúrgueres Wendy"s, em Atlanta, Estados Unidos da América.

Brooks foi mortalmente atingido por duas balas, confirmou o relato da autópsia, mas o polícia responsável pelos disparos fatais, Garrett Rolfe, branco, entretanto suspenso e despedido, disparou a sua arma por três vezes na direção do homem negro que fugia.

Sabe-se agora que a terceira bala, uma bala perdida, atingiu um carro de uma família com crianças, que estava parado naquele mesmo parque de estacionamento. A revelação foi feita pelo advogado da família do homem assassinado.

Chris Stewart, advogado que também representa o caso racial de George Floyd, o célebre cidadão norte-americano assassinado a 25 de maio pela polícia em Minneapolis, e que levou ao eclodir do movimento "Black Lives Matter", que continua assolar os EUA, revelou agora em conferência de imprensa que um dos tiros disparados pelo polícia Garrett Rolfe "esteve muito perto de provocar outra tragédia".

"Deixem-me contar-vos e mostrar-vos por que razão disparar uma arma num parque de estacionamento cheio de carros e de pessoas é tão imprudente e desnecessário tendo em conta o que Rayshard Brooks fez", disse o advogado, enquanto mostrava a foto de um buraco de uma bala que tinha perfurado a porta lateral de um carro.

"Uma testemunha desse incidente enviou-nos o seu veículo para peritagem, e esse veículo foi atingido por uma das balas do polícia Rolfe enquanto um pai de família e os seus filhos estavam dentro do carro", disse Chris Stewart. "Mais uns centímetros para cima e estaríamos agora a lamentar a perda de outras vidas. Portanto, tentem justificar a ação de disparar a matar sobre Brooks", continuou o advogado. "Não pode ser justificado. Não pode", repetiu Stewart. "Caso contrário, continuaremos a chorar vidas com balas perdidas que foram disparadas sobre alguém que nunca deveria ter sido baleado, até porque a polícia podia apanhá-lo facilmente mais tarde".

Tudo começou de forma tranquila

Brooks, 27 anos, pai de três filhos, foi morto após uma interação prolongada com dois policiais de Atlanta, na zona drive-thru do restaurante Wendy"s, pouco antes de comemorar o oitavo aniversário de uma das suas filhas. Os polícias foram inicialmente chamados porque Brooks tinha adormecido ao volante do carro enquanto esperava pela comida.

O encontro entre o cidadão negro e os dois polícias brancos - o nome do outro polícia é Devin Brosnan; ele participou na detenção mas não disparou a sua arma; entretanto foi suspenso e está de licença sem vencimento -- começou de forma tranquila e civilizada. Os três conversaram durante 20 minutos e Brooks fez tudo o que lhe pediram, incluindo estacionar o carro e ir a pé até à casa da irmã, que fica nas proximidades do restaurante de fast-food.

Mas os dois policiais insistiram em fazer um teste de alcoolemia, levantou-se discussão, quiseram algemá-lo e os três envolveram-se em luta, caindo no chão. Brooks conseguiu agarrar no taser de um dos polícia e, na posse do engenho atordoante que desfere cargas elétricas, fugiu da cena a pé, sendo logo perseguido pelos dois polícias.

Ato seguido, vê-se no vídeo viral gravado por uma testemunha dos factos, Brooks vai em fuga, vira-se por instantes, e dispara o taser para o ar. À distância em que estava, o taser não parece poder atingir nenhum dos polícias. Logo depois, vê-se que Garrett Rolfe puxa da sua arma e dispara três vezes na direção das costas de Rayshard Brooks.

Morte foi considerada "homicídio"

Segundo o relatório do médico legista, o cidadão negro teve "dois ferimentos mortais provocados por balas". O relatório sustenta que a sua morte foi "um homicídio".

O promotor do condado de Fulton, em Atlanta, considera agora a possibilidade de apresentar queixa contra o polícia Garrett Rolfe e o seu parceiro, Devin Brosnan, que não disparou. O procurador do distrito enunciou que poderá apresentar acusações de homicídio culposo até ao final desta semana.

O assassinato de Rayshard Brooks levantou imediatos protestos e na noite seguinte aos factos, o restaurante Wendy"s foi pichado, vandalizado e depois incendiado, reacendendo o clima de grande crispação racial que se vive nos Estados Unidos desde o homicídio de George Floyd por asfixia às mãos de quatro polícias brancos, há já três semanas.

Logo após a morte de Brooks, o polícia Rolfe foi demitido e Brosnan foi posto em licença administrativa sem direito a salário integral. A chefe da polícia de Atlanta, Erika Shields, demitiu-se no dia a seguir ao incidente.

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