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Testemunhas emocionam-se no julgamento do polícia que matou George Floyd

Testemunhas emocionam-se no julgamento do polícia que matou George Floyd

Namorada do afro-americano chorou ao falar da luta dele contra a dependência de opiáceos. Mulher que filmou o célebre vídeo de 9'29" diz que nunca mais dormiu bem. Irmão mais novo de Floyd não consegue ver as imagens. O julgamento continua.

Vários novos vídeos estão a ser exibidos no tribunal de Minneapolis, estado de Minnesota, EUA, que clarificam os momentos anteriores à detenção, agressão e morte de George Floyd, o afro-americano de 46 anos que a 25 de maio de 2020 morreu algemado e esparramado no asfalto devido ao potencial uso excessivo de força do polícia Derek Chauvin.

O agente em julgamento, entretanto despedido, é acusado de três crimes: homicídio não intencional de 2.º grau, homicídio de 3.º grau e homicídio culposo, que é mesmo que assassinato. A pena de prisão, se forem provados os factos da tese do procurador do Ministério Público Jerry Blackwell, pode ascender a 40 anos.

Três outros polícias que ajudaram à prisão de Floyd, e que também já foram demitidos - Thomas Lane, J. Alexander Kueng e Tou Thao - aguardam julgamento em agosto e serão acusados de cumplicidade, encorajamento e auxílio a Derek Chauvin, além de inação perante o desvio comportamental do agente.

O irmão mais novo desvia os olhos

O julgamento começou na segunda-feira, 29 de março de 2021 e o espaço reservado à família de Floyd tem tido uma única cadeira ocupada. É lá que se senta Rodney, o irmão mais novo de George Floyd.

Quem está seguir o julgamento - há várias transmissões ao vivo disponíveis online - não deixará de reparar na postura de Rodney, sempre muito atento e direito, grandes olhos abertos, envolto num ar de grande melancolia.

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Mas, assim que são apresentados novos vídeos, que são a parte fundamental da prova em tribunal e estão a ser mostrados às testemunhas e ao júri, Rodney inquieta-se, mexe-se muito e não consegue olhar.

Foi o que tornou a acontecer esta quinta-feira, quarto dia do julgamento em Minneapolis, quando passou o vídeo, inédito, do momento em que os polícias tentavam colocar George Floyd, já algemado, dentro da viatura. O vídeo, que foi filmado pela câmara corporal de serviço de Derek Chauvin, dura dois minutos e 46 segundos.

Ato imediato, Rodney Floyd, que tinha os olhos arregalados, baixa o olhar e fica com ele cravado no chão, abanando repetidamente a cabeça. Fez o mesmo quando se exibiu o vídeo mais célebre da agressão, o dos nove minutos e 29 segundos em que George Floyd chama repetidamente pela mãe morta e diz a famosa frase, repetida 27 vezes, "Eu não consigo respirar" - e que são os seus últimos minutos de vida.

Empregado da loja sente culpa

Christopher Martin também já completou o seu testemunho. Ele é o empregado da loja de conveniência Cup Foods, que fica junto ao local do crime, onde George Floyd entrou para comprar tabaco antes de ser preso pelos polícias.

Christopher, de 19 anos, parece estar a lidar com um irreparável sentimento de remorso. A determinada altura diz mesmo que sente "descrença e culpa". "Porquê?", foi-lhe perguntado. "Se eu simplesmente não tivesse aceitado a nota dele, talvez tudo isto pudesse ter sido evitado e George Floyd ainda estaria hoje vivo".

O empregado de balcão está a referir-se à nota de 20 dólares falsa com que Floyd comprou tabaco e que ele aceitou, apesar de ter desconfiado imediatamente tratar-se de uma nota contrafeita. Por várias vezes, Christopher teve dificuldades em falar, demonstrando que continua sob o efeito pesado do trauma.

Num outro vídeo, tirado de uma câmara de rua de uma loja que fica em frente à Cup Foods, vemos Christopher a dirigir-se por duas vezes ao carro de Floyd, estacionado ali perto, e vemos o empregado a andar pela rua de mãos na cabeça. Ele explicaria depois que não conseguiu convencer Floyd, que estaria sob efeito de estupefacientes, a voltar à loja para discutir com o gerente a situação da nota falsa. Foi depois disso que a polícia foi chamada e tudo se precipitou para a morte do afro-americano.

Charles McMillian torna a chorar

Outra testemunha já desfiou a sua versão da história. Charles McMillian, 61 anos, que foi a primeira pessoa a presenciar na rua a prisão de Floyd.

Inicialmente, McMillian encorajou Floyd a cooperar com a polícia, porque, disse ele, "depois de estares algemado já não podes vencê-los". A sua voz é audível no vídeo extraído da câmara corporal de Chauvin, e ele diz várias vezes "não resistas, não resistas, é pior".

O homem chorou quando descreveu o sentimento de "terrível desamparo" que sentiu depois de toda a cena, quando George Floyd já seguia na ambulância inanimado. E fez questão de repetir ao tribunal a frase que dirigiu então a Chauvin, que ele vira ali de perto, a manietar Floyd, asfixiando-o com o joelho imperial sobre o pescoço do afro-americano: "Você é um verme!". E depois chorou outra vez.

Darnella Frazier é a autora do famoso vídeo

Agora com 18 anos, Darnella Frazier, é a mulher que filmou o vídeo de 9'29" no dia 25 de maio de 2020, agora celebrizado em todo o mundo. Também já testemunhou em Minneapolis.

Ela começa por dizer: "Quando eu vejo na minha cabeça George Floyd, e continuo a vê-lo todos os dias, eu vejo o meu pai, vejo os meus irmãos, vejo os meus primos e os meus tios porque eles são todos negros", disse. "Eu tenho um pai negro, tenho irmãos negros, tenho amigos negros. E agora olho para eles e penso como esta terrível tragédia poderia ter acontecido a um deles", disse Darnella antes de parar uns segundos. Depois recompõe-se e continua, a voz a sumir: "Todas as noites eu peço desculpa a George Floyd por não ter feito mais, por não ter conseguido interagir melhor com os polícias, peço-lhe desculpa por não lhe ter conseguido salvar a vida". E, depois de admitir que nunca mais conseguiu dormir bem, para outra vez e depois arranca, agora em voz firme: "Mas depois penso que isto não é sobre o que eu poderia ter feito, mas é sobre o que ele [o polícia Derek Chauvin] não deveria ter feito".

Quando foi contra-interrogada pelos advogados de Chauvin, Darnella Frazier concordou que ela e as pessoas que ali se juntaram a ver a cena da detenção, na maioria afro-americanos, foram ficando "progressivamente mais barulhentos e zangados". Mas, acrescentou, "ninguém, em momento algum, ameaçou Chauvin ou pôs em risco a integridade física dos polícias. Eles nunca deixaram ninguém aproximar-se".

Uma menina de nove anos, Judeah Reynolds, prima de Darnella Frazier, também presenciou a cena ao vivo e viu Floyd a implorar pela vida.

No seu curto testemunho, Judeah disse: "Eu estava triste e meia zangada, sim. Parecia que ele [Floyd] não estava a respirar e o polícia o estava a magoar mesmo muito", disse a menina. O advogado de Chauvin não lhe fez qualquer pergunta.

Na ambulância, George Floyd já não respirava

Seth Bravinder é o paramédico de Minneapolis que tentou socorrer George Floyd quando chegou de ambulância ao local, cerca das 21 horas. Respondeu a perguntas sobre os tratamentos administrados a Floyd e as várias tentativas de ressuscitação.

Seth confirmou: George Floyd já não dava sinal de vida quando a ambulância chegou ao local. "Não tinha pulso, não lhe detetei sinais de respiração, não vi qualquer movimento", disse.

O paramédico descreveu depois os esforços contínuos para reanimar George Floyd na parte de trás da ambulância, já a caminho do hospital, através de medicamentos, compressões torácicas e outras intervenções. E deu este pormenor: mesmo morto, George Floyd continuava algemado - como paramédico, disse ele, tem sempre consigo uma chave-mestra e foi ele, não os polícias, quem tirou as algemas das mãos pisadas de Floyd.

Namorada de George Floyd entra em cena

Courteney Ross, que é branca e namorou com George Floyd durante quase três anos até à sua morte em maio, também já testemunhou. E também chorou. Foi quando abordou a luta dele, e dela, contra o vício em opiáceos.

Courteney, 45 anos, disse que ela e Floyd começaram a tomar opioides, que são analgésicos de alta potência, para mitigar dores crónicas. Mas que ambos continuaram a comprar e a tomar os comprimidos mesmo depois das prescrições acabarem. Confessou que tentaram parar de usar as drogas diversas vezes, que procuraram tratamentos, mas que tiveram várias recaídas juntos.

No depoimento, Courteney revelou que ela e George Floyd compravam as drogas diretamente a Morries Lester Hall, um alegado traficante que estava com Floyd no carro antes da detenção. Esse homem, que terá desaparecido do local assim que a polícia chegou, já fez saber que, se for arrolado como testemunha, vai invocar a 5.ª Emenda da Constituição norte-americana, que previne a hipótese de auto-incriminação.

O depoimento da namorada de George Floyd focou maioritariamente a dependência do casal perante as substâncias psico-ativas - os dois também consumiam anfetaminas, uma droga aceleradora a que os viciados em opioides recorrem para sair do estado de torpor -, mas também descreveu momentos de ternura do seu relacionamento. E comoveu o tribunal quando contou a noite em que se conheceram e se beijaram pela primeira vez, durante uma chuvada de agosto de 2017, os dois debaixo do paiol de um albergue para sem-abrigo onde George Floyd trabalhava como segurança, e disse que foi a noite mais cintilante da sua vida.

O julgamento continua.

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