Grécia

Tinha quatro anos e morreu vítima do jogo diplomático

Tinha quatro anos e morreu vítima do jogo diplomático

Desta criança não haverá imagem, como houve do minúsculo corpo de Alan Kurdi, calções azuis e camisola vermelha, debruçado sobre si mesmo numa praia turca.

Esta criança, de quatro anos, afogou-se a escassos metros da costa da ilha grega de Lesbos, quando - diz-se que é prática corrente - alguém tratou de afundar o bote pneumático para que o grupo de fugidos da Síria que tentava chegar à Europa, vindo de uma Turquia agora escancarada, fosse resgatado e conduzido a terra. E morreu, perante a incapacidade dos médicos em salvar a pequena vida.

Mais do que mártir, esta criança sem rosto passará a ser a imagem da incongruência humana. Fizeram-na fugir de uma Síria em guerra para a vizinha Turquia, que entretanto decidiu intervir diretamente nessa Síria para proteger grupos rebeldes, à sombra dos quais se escondem alguns jiadistas e reagiu a baixas nas suas fileiras retaliando, internacionalizando a guerra civil de Damasco. A mesma Turquia que ameaçou devolver refugiados - alberga mais de três milhões - a Bashar al-Assad se os ataques entre ambos continuassem. E a mesma Turquia que em 2016 assinou com Bruxelas um acordo comprometendo-se a travar os refugiados de avançar para a Europa em troca de seis mil milhões de euros. Alega que ainda aguarda por fundos. Mas quer, sobretudo, apoio ocidental na sua intervenção na Síria.

Aquela criança ilustra, ainda, a reação de uma Grécia que está a deixar o Mundo perplexo. Depois de militarizar as fronteiras, suspendeu os pedidos de asilo por um mês. "Nem a Convenção de Genebra de 1951 relativa ao Estatuto de Refugiado nem a legislação da União Europeia em matéria de refugiados fornecem uma base legal para a suspensão da receção de pedidos de asilo", reagiu o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados.

Mas a Grécia alega alerta máximo. E aponta o dedo a Ancara: "Em vez de restringir redes de tráfico de migrantes e refugiados, a Turquia tornou-se ela própria numa traficante", disse, sem apelo nem agravo, Stelios Petsas, porta-voz do Governo de Atenas. Os migrantes são "peões" no jogo diplomático, garante.

Perante o aumento da chegada de "peões", a Grécia recorreu a um artigo europeu que determina apoio a um membro confrontado com um fluxo repentino de cidadãos de países terceiros. E terá hoje nas suas fronteiras a presença dos líderes da Comissão, Conselho e Parlamento europeus, numa mostra de "total apoio" a Atenas e para avaliar como melhorar a ajuda aos migrantes.

Num ponto da margem turca do rio Ervos são já uma dezena de milhares. "Pensávamos que a fronteira estava aberta. Deixámos tudo, o nosso trabalho, a nossa casa e viemos para aqui. Mas a fronteira está fechada". Masud Haydari, afegão, desabafava com o "El País". Foi travado na margem grega, espoliado de tudo pela Polícia e devolvido à procedência. É só mais uma vítima deste jogo diplomático em que a região se voltou a perder...

Guerra de números

Segundo Ancara, mais de 76 mil pessoas atravessaram a fronteira de Edirne para a Grécia desde sexta-feira. Atenas garante que é falso, fala em 139 detidos e admite a passagem despercebida de algumas dezenas ao longo do Evros, que acompanha 200 km de fronteira. Inflacionar números aumenta a pressão turca sobre a União Europeia (UE).

Aviso europeu

"Ninguém pode chantagear nem intimidar a UE", avisou o comissário europeu com a pasta das migrações, Margaritis Schinas. "É inaceitável que o presidente Erdogan e o seu Governo exprimam o descontentamento não junto de nós, enquanto UE, mas sobre as costas dos refugiados", anuiu a chanceler alemã, Angela Merkel.

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