Alemanha

Tiroteios em Hanau. O "veneno do ódio" voltou a matar

Tiroteios em Hanau. O "veneno do ódio" voltou a matar

Ataque xenófobo contra bares de cachimbos de água fez nove mortos perto de Frankfurt, na quarta-feira. Atirador matou a própria mãe e suicidou-se.

Porque "não basta expulsar" os diferentes, importa "eliminá-los", Tobias Rathjen agarrou em armas, meteu-se no carro, parou à porta de um bar de kebabs e cachimbos de água e atirou a matar e depois à porta de outro, a dois quilómetros dali, e atirou a matar. O desígnio da exterminação figura no manifesto que a Polícia encontrou na casa de Tobias, depois de ter detetado o seu carro. Ali jazia o atacante e a mãe de 72 anos, morta a tiro como ele. No manifesto, uma carta de 24 páginas, elenca 24 países de África, Médio Oriente e Ásia cujos povos devem ser aniquilados. Negros, muçulmanos, judeus, diferentes. Na sua senda mortífera por Hanau, cidade pequena do Hesse, a 20 Km de Frankfurt, deixou nove mortos. Cinco deles são curdos turcos.

"O racismo é veneno. O ódio é um veneno que existe na nossa sociedade e que é culpado de muitos crimes". A chanceler alemã, Angela Merkel, dirigiu-se à nação pela televisão. O veneno, provou-o pessoalmente, com a crise que viu instalada na sua União Democrata Cristã (CDU) depois de a delegação da Turíngia se ter aliado à Alternativa para a Alemanha (AfD) para eleger um presidente regional liberal. A mesma AfD que foi elevada a partido parlamentar à força do seu discurso xenófobo. A CDU perdeu a face e Merkel perdeu a líder do partido, Annegret Kramp-Karrenbauer, numa altura crítica de popularidade e depois de anos em que a chanceler foi cilindrada pela sua política de abertura durante a crise de refugiados.

Memória de Christchurch

O drama traz à memória aquele que mortificou a Nova Zelândia há menos de um ano. Um supremacista branco ligado à extrema-direita - a descrição é do próprio - matou 51 pessoas em duas mesquitas de Christchurch, pondo em prática a luta contra a invasão islâmica que descreveu num manifesto intitulado "A grande substituição". Era inspirado na teoria da conspiração que define o "genocídio branco".

Tobias vai longe também nas teorias da conspiração. Nas suas 24 páginas, conta que era vigiado por agentes dos serviços secretos capazes de ler a mente. Num vídeo associado, alerta os americanos e os ingleses, controlados por sociedades secretas invisíveis com "métodos diabólicos" em busca de "um sistema de escravatura moderna", e avisa que há crianças torturadas e mortas em bases militares subterrâneas nos EUA.

"Teorias absurdas", resumiria quinta-feira de manhã, horas depois do drama, o procurador feral Peter Frank, retendo as motivações xenófobas. Já para o vice-chanceler, Olaf Scholz, o ataque prova que "os debates políticos não podem ignorar o facto de que há terrorismo de utltradireita na Alemanha, 75 anos depois da ditadura nazi".

Os passos, tímidos, têm sido dados, com o reforço da luta contra o ódio online e a mobilização de mais meios. Porque o crime de Tobias não é inédito: em outubro, o ataque a uma sinagoga de Halle fez dois mortos. Meses antes, Walter Lubcke, autarca conservador de Cassel defensor do acolhimento a imigrantes, era morto por um ativista de extrema-direita. E ainda há dias foi detido um grupo que preparava atentados inspirados em Christchurch.

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