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Tratamento ilegal com cloroquina mata mulher 27 dias depois de ser mãe

Tratamento ilegal com cloroquina mata mulher 27 dias depois de ser mãe

Uma mulher, de 33 anos, infetada com covid-19, foi tratada com nebulização de hidroxicloroquina, em Manaus, no Brasil. Médica não seguiu protocolos nem consultou o marido da paciente, que estava no hospital com o filho recém-nascido há apenas 27 dias. A mulher morreu.

Jucileia de Sousa Lima, técnica de radiologia, tinha covid-19 e estava internada na unidade de cuidados intensivos do Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu, em Manaus, depois de ter dado à luz. No mesmo hospital estava o marido, Kleison Oliveira da Silva, de 30 anos, preocupado com a saúde da mulher e a prestar cuidados ao filho recém-nascido.

Qual não foi o seu espanto quando Kleison recebeu uma mensagem da irmã, por WhatsApp, com um vídeo onde Jucileia aparecia sorridente durante um tratamento por nebulização de hidroxicloroquina, dias depois de um parto de emergência. Foi assim que ficou a saber que a mulher recebeu um tratamento experimental com um medicamento considerado ineficaz contra a covid-19 e que pode causar reações adversas, segundo a Organização Mundial de Saúde. (OMS).

A responsável pelo tratamento e divulgação do vídeo foi a médica ginecologista e obstetra Michelle Chechter, que atuou com o marido, também médico, Gustavo Dutra.

Kleison garante que nunca foi consultado pela médica sobre a realização do tratamento nem da gravação e divulgação do vídeo.

A mulher assinou uma declaração de autorização, datada de 9 de fevereiro, da qual o marido só teve conhecimento a 8 de abril quando foi informado pelo "Folha de São Paulo". São três parágrafos a autorizar que Michelle Chechter utilize a "técnica experimental nebuhcq líquido, desenvolvida pelo Dr. Zelenko", o depoimento gravado e a divulgação do caso numa revista da especialidade.

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O tratamento terá ocorrido nesse dia 9 de fevereiro e na gravação em vídeo a médica mostra o monitor da taxa de saturação de oxigénio a oscilar entre 87% e 95% e afirma: "vai respirando fundo".

Este tratamento contra a covid-19 foi desenvolvido pelo médico Vladimir Zelenko (de dupla nacionalidade ucraniana e norte-americana) e ganhou mediatismo quando foi promovido pelo então presidente dos EUA Donald Trump e depois pelo homónimo brasileiro Jair Bolsonaro.

A médica ginecologista e obstetra realizou este tratamento experimental sem seguir os protocolos médicos e legais exigidos, nomeadamente a aprovação prévia por um comité de ética em investigação. Por outro lado, na autorização apresentada à paciente não estão descritos os riscos inerentes à intervenção.

O jornal "Folha de São Paulo" refere que, depois da nebulização, o estado de saúde de Jucileia agravou-se, tendo falecido a 2 de março, 27 dias após ter sido mãe. O hospital justifica o óbito com a infeção generalizada causada pela covid-19.

Mais casos, mais quatro mortes

Outra mulher, também após o parto, recebeu o mesmo tratamento e teve alta quase dois meses depois, segundo o "Folha de São Paulo".

O jornal brasileiro revela que pelo menos mais três mulheres fizeram nebulização de hidroxicloroquina sem terem dado autorização e morreram. Uma delas, de 32 anos, estava grávida de cinco meses. Foi feita uma cesariana de emergência mas o bebé também morreu.

"Tratou-se de um ato médico, de livre iniciativa da profissional [Michelle Chechter], que não faz mais parte do quadro da maternidade, onde atuou por cinco dias", informou em comunicado o secretário de Estado da Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo.

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