Tiro ao general

Ucrânia mira altas-patentes russas

Ucrânia mira altas-patentes russas

Sete generais russos foram assassinados em apenas um mês de guerra. Os analistas explicam que as baixas recordes se devem a tática ucraniana e ao demérito russo.

Desde o início da invasão da Ucrânia já foram mortos sete generais russos, mais de um terço dos 20 generais que estarão a participar na guerra. Os ucranianos confirmam que estão ativamente a visar altas patentes do inimigo para perturbar avanços e moral russa.

Através de "snipers", combate direto ou bombardeamento a ordem é eliminar quem está no comando. O estilo militar russo e as dificuldades operativas também explicam a elevada taxa de mortalidade dos generais.

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Disparar sobre oficiais de cabelo grisalho

Os atiradores especiais ucranianos receberam ordens diretas para disparar sobre oficiais de cabelo grisalho que estejam perto de torres de comunicação. Quantas mais medalhas tiverem, mais apetecíveis os alvos são.

Um dos objetivos prioritários do combate na guerra moderna é neutralizar a liderança e as comunicações. "Somos sempre ensinados a procurar o veículo de comando e controlo e atingi-lo primeiro porque esse é elo que liga tudo o resto", explica John Barranco, coronel dos Marines norte-americanos, ao Wall Street Journal.

"Decapitar" o comando

Um conselheiro militar do presidente Zelensky confirmou ao Washington Post que o exército ucraniano concentrou os seus esforços em "abrandar" a invasão russa. Grande parte dessa tática passa por "decapitar" os postos de comando avançados, ou seja, matar generais. E até criaram uma equipa de forças especiais cuja única missão é localizar e neutralizar altas-patentes.

Segundo Oleksiy Arestovych, a morte de uma alta-patente pode atrasar o avanço em "três, quatro ou cinco dias", o tempo que demora até que as novas estruturas de comando assumam o posto. Além disso, a morte de um general mina a moral inimiga e dá alento à determinação ucraniana. "Ao contrário da morte de um soldado comum, a morte destes comandantes rapidamente se torna pública e é muito difícil de esconder", afirma.

Para Arestovytch o sucesso na morte dos generais deve-se à "excelência" dos serviços de informações ucranianos mas também às "inúmeras fragilidades russas".

Interceção de comunicações

O conselheiro militar ucraniano explica que a equipa especial usa várias táticas para localizar os postos de comando russos, incluindo a interceção de comunicações. Desde o início da invasão que os russos têm enfrentado grandes dificuldades nas transmissões. As comunicações entre as forças russas estão dependente, em grande parte, de vulgares chamadas telefónicas e comunicações rádio não encriptadas.

A interceção das comunicações russas está a ser feita com o apoio de vários meios da NATO. Porém, após a invasão da Crimeia, em 2014, as forças ucranianas têm-se dedicado a estudar e a aprender como intercetar e localizar as comunicações inimigas. O trabalho está agora a dar frutos.

Americanos apenas perderam um general em batalha desde 1975

O número elevado de generais mortos em tão pouco tempo tem causado grande surpresa nos meios castrenses. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos da América apenas viram um general ser morto em batalha desde 1975, o fim da guerra do Vietname. Foi o major-general Harold Greene, morto em 2014, no Afeganistão, quando um soldado afegão abriu fogo durante uma visita a uma base militar.

Vários analistas militares e fontes do Pentágono lembram que o tradicional estilo de combate russo implica ter generais mais perto das tropas e da linha da frente, o que os deixa mais expostos. Por isso têm mais altas-patentes que os países da NATO.

Por outro lado, já desde o tempo da União Soviética que os quadros militares intermédios russos têm fama de serem malpreparados e com pouca capacidade de iniciativa, recorda o coronel John Barranco.

"Os russos dependem em demasia do alto-comando a gerir na frente porque não têm a mesma qualidade de oficiais intermédios que nós para assumir a iniciativa", explica o marine que também é membro do Conselho Atlântico, um "think tank" baseado em Washington.

Na frente para "empurrar" militares e dar moral

Várias fontes acreditam ainda que os generais russos estão mais expostos porque as suas tropas estão a encontrar mais dificuldades do que as esperadas e a moral parece estar a ficar afetada. São fatores que exigem uma presença mais próxima por parte dos superiores para ter a certeza que as ordens estão a ser bem cumpridas e para "empurrar" os soldados.

Um analista britânica avança ainda que a ausência de comunicação rádio eficaz também tem contribuído para que os generais se tenham de aproximar da frente da batalha. "Precisam de estar num local onde possam perceber o que se está a passar, mesmo que isso signifique ficar ao alcance das armas ucranianos", afirmou Sam Cranny-Evans, do Royal United Services Institute, em Londres.

Por incompetência própria, contratempos militares ou mérito do adversário, a verdade é que a Rússia já perdeu mais de um terço dos cerca de 20 generais que inicialmente tinha destacado para a "Operação Militar Especial na Ucrânia". Um balanço mortal que já tem lugar reservado na história. Principalmente, porque foi atingido em apenas um mês de guerra.

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