Pandemia

UE pressiona AstraZeneca e quer controlar exportação de vacinas para evitar desvios

UE pressiona AstraZeneca e quer controlar exportação de vacinas para evitar desvios

Foi ainda em agosto que a União Europeia (UE) fechou com a AstraZeneca o primeiro acordo para a aquisição de vacinas contra a covid-19, em nome dos Estados-membros. Na semana em que se espera que a Agência Europeia de Medicamentos autorize o seu uso na UE, a Comissão Europeia subiu o tom com a farmacêutica britânico-sueca, levantando a suspeita sobre se o atraso de 49 milhões de doses para a UE na primeira fase não se deve a um desvio para outros países.

Ainda esta terça-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou os fabricantes de vacinas contra a covid-19, que receberam investimentos massivos da UE para o desenvolvimento daquelas, que "têm de cumprir as suas promessas e honrar as suas obrigações", numa intervenção por videoconferência, no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Na reunião desta segunda-feira entre os representantes dos 27 Estados-membros e o executivo comunitário, foi discutido um mecanismo para garantir a transparência nas exportações das vacinas desde o território da UE, a ser implementado o mais rapidamente possível.

A Comissão Europeia quer que todas as farmacêuticas com contratos com a UE passem a notificar previamente as exportações de vacinas produzidas neste território (com exceção para as entregas humanitárias), anunciou em conferência de imprensa a comissária europeia para a Saúde, Stella Kyriakides, e confirmou esta terça-feira a presidente da Comissão, Ursula Von der Leyen.

"Queremos clareza nas transações e total transparência no que diz respeito à exportação de vacinas da UE", dizia Stella Kyriakides, uma medida de controlo que visa evitar mais derrapagens na distribuição de vacinas.

A comissária europeia manteve uma série de videoconferências com os responsáveis da AstraZeneca, esta segunda-feira, manifestando publicamente que as explicações recebidas para o atraso das doses eram "pouco claras e insuficientes".

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O bloco comunitário considera inaceitável a redução das 80 milhões de doses da AstraZeneca previstas chegar aos países da UE até ao final de março para apenas 31 milhões e quer que a farmacêutica revele quantas doses já produziu, onde e a que países foram distribuídas.

A Comissão exige saber o que aconteceu às doses contratualizadas e pré-financiadas que a empresa diz não conseguir entregar este trimestre, lançando a suspeita sobre se estarão a ser entregues a outros países. "A União Europeia tomará as medidas necessárias para proteger os cidadãos e os seus direitos", sublinhou Stella Kyriakides.

Britânicos à frente

O Reino Unido aprovou o uso de emergência da vacina da AstraZeneca ainda no final do ano passado, tendo começado a inoculação no início deste ano. Segundo o governo britânico, o "grosso" da vacina da AstraZeneca usada no Reino Unido foi feito em Oxfordshire e Staffordshire, território inglês. Contudo, a AstraZeneca também possui instalações de produção na Europa, que já foram usadas no passado para abastecer o Reino Unido.

No total, os britânicos já administraram mais de 6,5 milhões de doses de vacinas contra a covid-19, tendo coberto 78,7 % da população com mais de 80 anos. Agora, temem que o mecanismo de transparência nas exportações venha a atrasar com burocracias a entrega da vacina da norte-americana Pfizer e da alemã BioNTech, de que estão dependentes. O Reino Unido encomendou 40 milhões de doses deste imunizante, das quais 30 milhões deveriam chegar até ao final de maio.

A taxa de vacinação europeia, abaixo da do Reino Unido, e o reduzido número de doses disponível atualmente, perante o escalar da pandemia, aumentou a pressão sobre Bruxelas.

A AstraZeneca justificou o atraso relativo à UE com os "problemas de produção" provocados pelos trabalhos para aumentar a capacidade produtiva a longo prazo, numa das suas fábricas no espaço comunitário. A presidente da Comissão Europeia exigiu num telefonema à diretora executiva da farmacêutica que o contrato fosse totalmente honrado. A UE tem acordada a compra de 300 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, com opção de adquirir mais 100 milhões.

São já oito as vacinas negociadas por Bruxelas para os 27, para as quais já disponibilizou 2,7 mil milhões de euros, para assegurar mais de dois mil milhões de doses. A da AstraZeneca, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, foi a primeira a ser contratualizada e deverá ter luz verde do regulador europeu esta sexta-feira. Será a terceira a receber autorização para poder ser administrada na UE, depois das da Pfizer (que também anunciou atrasos na distribuição) e da Moderna.

Esta terça-feira, a presidente da Comissão destacou ainda que a Europa está a ajudar à vacinação à escala global. "Devido às cadeias produtivas planetárias, a saúde dos nossos cidadãos e a recuperação económica global andam de mãos dadas. Na aliança Covax, a EU, em conjunto com 186 Estados, garante milhões de doses para países de baixos rendimentos", disse.

Nos EUA só a partir do segundo trimestre

A vacina da AstraZeneca e Universidade de Oxford tem como grandes vantagens opreço baixo e poder ser conservada em condições normais de refrigeração, entre 2ºC e 8ºC. Também já está a ser usada na Índia, na Argentina e no México.

o deverá, contudo, chegar tão cedo aos EUA. O regulador norte-americano aguarda que a farmacêutica submeta o pedido de autorização de uso emergente da vacina, mas os papéis poderão não estar prontos antes de abril, segundo o "Bussiness Insider". A AstraZeneca vai esperar pelos resultados de um ensaio mais abrangente, com 30 mil participantes, levado a cabo nos EUA, para depois apresentar a candidatura.

Os resultados preliminares desta vacina tinham mostrado uma eficácia média de 70% - proteção de 90% na dosagem menor (meia dose mais uma dose) e de 62% na dosagem maior (duas doses completas). A diferença foi obtida por um mero erro durante os testes da última fase, em que foi administrada meia dose inicial em vez de uma dose completa a um grupo com idades inferiores a 55 anos, o que deixou os especialistas intrigados. Mais tarde foi anunciada uma proteção de 100% contra as formas graves de covid-19.

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