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Um carrinho de bebé entre "extremistas" na praça da Independência, em Kiev

Um carrinho de bebé entre "extremistas" na praça da Independência, em Kiev

Para revolucionários convictos multiplicam-se as novas atrações em Kiev. A casa do presidente deposto é a principal, mas não a única. A "cabana" na reserva de caça de Sukholuchchya, do também fugitivo Procurador-Geral da República, Vitor Pshonka, é de uma opulência inimaginável para os ucranianos pobres que agora a visitam.

E são cada vez mais os que querem fotografar para a posteridade tamanho exemplar barroco de inspiração corrupta. Apesar da imbatível concentração de dourados por metro quadrado, a casa de Pshonka tem menos capacidade de atração do que a moradia de outro Vitor também fugitivo.

A mansão de Ianukovich é o destino de que todos falam, mas Olga Datsiuk preferiu o mais simbólico dos lugares do protesto, a praça da Independência, para passear o pequeno Petrenko.

Teria sido mais fácil levá-lo até à opulenta casa de Ianukovich, onde a criança de 18 meses teria fortes possibilidades de ver alguns dos animais do zoo privado do ex-presidente ucraniano. Só que Olga tinha outra ideia.

"Vim à praça porque não podia ficar em casa", disse, enquanto empurrava para a frente e para trás o carrinho de bebé onde tentava adormecer Petrenko. Para a analista financeira, casada com um inglês e com casa de férias em Marbella, no sul de Espanha, "é muito duro ver o que se está a passar no nosso país".

A Maidan, praça da Independência, não é o melhor lugar para passear de carro de bebé e não é por causa dos revoltosos "extremistas", como lhes chamou Ianukovich e apelidam agora os dirigentes russos.

A falta de paralelos no piso e a lama enegrecida pelas cinzas de madeira e pneus queimados torna a viagem de Petrenko numa sequência de solavancos que o despertam. Olga ajusta o gorro da criança e dispara: "Agora esperamos tempos melhores, um novo parlamento, com gente nova e mais próximo da Europa".

A sua convicção tem uma razão de ser. "Se o novo parlamento tentar fazer o que Ianukovich fez, eles agora vão ter medo". E explica: "Já viram o que o nosso povo é capaz de fazer. Somos capazes de lutar até ao fim, até à morte".

E tão assim é que nem a deposição do presidente demoveu os contestatários da praça da Independência. No centro de Kiev desconfia-se de tudo e de todos e ninguém arreda pé das barricadas, não se sabe muito bem até quando.