Crime

Tudo era falso nesta burla entre Espanha e os EUA, menos os milhões roubados

Tudo era falso nesta burla entre Espanha e os EUA, menos os milhões roubados

Uma rede criminosa defraudou mais de 50 bancos com sede nos Estados Unidos através de empresas de fachada criadas naquele país. Os criminosos operavam a partir de um hotel, também fictício, em Espanha, e estenderam a operação a vários países europeus, entre eles, Portugal.

Parece uma história digna de um filme de Hollywood, mas é bem real. Uma rede internacional de crime, composta maioritariamente por cidadãos gregos, criou durante o ano da pandemia um esquema de lavagem de dinheiro e fraude de larga escala. A operação ocorria sobretudo a partir de Espanha, espalhou-se por 14 províncias deste país, e chegou a pelo menos outros 15 países. O crime terá lesado mais de 50 instituições bancárias norte-americanas no valor de 12 milhões de euros.

Desde outubro do ano passado foram detidas 105 pessoas, apreendidos 406 mil euros e 14 veículos de luxo e congeladas 87 contas bancárias (no valor de 1,3 milhões de euros), soube-se esta quarta-feira. A investigação de oito meses coordenada pela Europol e liderada pelos Serviços Secretos dos EUA e a Polícia Nacional de Espanha realizou ainda 88 buscas domiciliárias e executou 19 mandados de prisão europeus. As autoridades da Grécia, Áustria e Dinamarca, assim como o Departamento de Justiça dos EUA e a Rede de Execução de Crimes Financeiros dos EUA (FinCEN), também participaram no desmantelamento da rede criminosa.

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Para que a mentira não tivesse perna curta, a rede começou por preparar o terreno onde assentaria o crime, sem que houvesse pontas soltas. Os criminosos criaram empresas de fachada nos Estados Unidos e abriram contas bancárias no país. Para dar a imagem de estabilidade financeira e ganhar a confiança dos bancos, a rede fez transferências de dinheiro avultadas a partir da União Europeia para as tais contas. Uma estratégia que se revelou bem sucedida, já que os bancos norte-americanos autorizaram a emissão de cartões de débito e crédito para as empresas de fachada.

Os golpistas começaram então a operar sobretudo a partir de Espanha: os cartões eram utilizados em estabelecimentos cúmplices "através do sistema de pré-autorização, aproveitando a diferença de aceitação de pagamento entre bancos americanos e espanhóis", detalha o comunicado da Polícia Nacional de Espanha.

As instituições bancárias norte-americanas detetaram que o pagamento não tinha sido autorizado e, por isso, devolviam o dinheiro à conta do cliente, membro da rede criminosa. Após a devolução do dinheiro, o cartão voltava a ser novamente usado nos tais estabelecimentos cúmplices para libertar o valor inicialmente retido. A técnica fez que com os bancos norte-americanos gerassem um valor a descoberto (banco autoriza cliente a ter saldo negativo se precisar de mais dinheiro) associado a determinada conta.

O dinheiro era depois desviado dos estabelecimentos cúmplices (recebiam 15% de comissão) para contas de várias empresas, criado por membros da rede criminosa, em diversos países. Para justificar valores tão avultados, os criminosos emitiram faturas falsas. A Polícia Nacional de Espanha detalha que chegou a ser passada uma fatura de 80 mil euros numa farmácia em menos de uma hora e de 300 mil euros num clube taurino. Durante o estado de emergência em Espanha foram passadas faturas milionárias de hotéis que estavam fechados.

E como entra Portugal nesta história? Não é claro se o nosso país foi ou não um destino do dinheiro, mas criar a ideia que eram empresas rentáveis e de confiança levou a que os criminosos abrissem contas bancárias em vários países europeus. "Além disso, constatou-se que as atividades ilegais da organização se espalharam pelo mundo, tanto na Espanha (...) bem como internacionalmente - EUA, Grécia, Áustria, Dinamarca, Reino Unido, Ucrânia, Roménia, Polónia, Bélgica, Turquia, Portugal, França, Holanda, Letónia e Alemanha", esclarece o comunicado da Polícia Nacional espanhola.

A pormenorização e o cenário quase "hollywoodesco" do crime não ficam por aqui. Os membros desta rede, apesar de maioritariamente gregos, falavam várias línguas. Eram venezuelanos, norte-americanos, albaneses, búlgaros, colombianos e espanhóis. O centro de operações era um hotel, na cidade de Miajadas, na comunidade da Estremadura, em Espanha. Mas não era um alojamento turístico usual. "Este estabelecimento manteve a cafetaria aberta ao público para não suscitar suspeitas de inatividade, mas aí se refugiaram os principais membros da organização, bem como outros parceiros gregos que se deslocaram temporariamente a Espanha para efetuar alguma gestão relacionada com a fraude", explica a autoridade espanhola.

Pela investigação internacional é possível dizer que os criminosos fingiam quase tudo: ser empresários, criar empresas, mentir sobre ter negócios de sucesso e estar alojados num hotel. O resultado concretizou-se numa das maiores investigações internacionais feitas com cartões bancários, de onde resultaram mais 100 detenções e 14 pessoas acusadas.

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