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Análise

Um desastre imparável: 79% da Venezuela em pobreza extrema

Um desastre imparável: 79% da Venezuela em pobreza extrema

País tem um salário mínimo de 4,33 euros e já aumentou 77% neste ano. Estudo diz que 96% da população é pobre. Queda do preço do petróleo e instabilidade política preponderantes.

A Venezuela deixou de ser um país com os parâmetros de vida da América Latina: os seus graves indicadores económicos estão a atirar a nação presidida por Nicolás Maduro para a periferia do Mundo, com condições mais típicas de África em termos de pobreza e desnutrição - e é já o país mais pobre da região.

É o que diz o Inquérito às Condições de Vida da Venezuela, estudo realizado por três universidades de alta reputação, incluindo a Universidade Simón Bolívar, que destaca a extrema vulnerabilidade dos habitantes de um país que, paradoxalmente, detém as maiores reservas de petróleo do Mundo. Os dados mostram o avanço galopante do colapso económico e o reajuste demográfico e social que a migração forçada de cinco milhões de venezuelanos está a provocar no país. Segundo aquele Inquérito, citado pelo diário "El País", 96% da população venezuelana é pobre e 79% vive em situação de pobreza extrema, isto é: o salário é insuficiente para cobrir o cabaz básico de alimentos - fator a que a hiperinflação, resultado da queda de 70% no PIB entre 2013 e 2019, não ajuda: quase 100% de agravamento só no primeiro trimestre de 2020.

Crise institucional

Como se chegou aqui? Numa "tempestade perfeita" de fatores, mormente a queda dos preços do petróleo - o país perdeu também, sobretudo após a morte de Hugo Chavéz, em 2013, a essencial capacidade de refinação e agora importa petróleo do Irão - e as severas sanções internacionais, sobretudo as dos EUA de Trump, que deixam a economia da Venezuela de joelhos e impedem o país de importar medicamentos e bens alimentares.

A Venezuela também sofre uma crise institucional desenfreada. O regime de Maduro culpa constantemente as sanções dos EUA e da União Europeia pela deterioração do país, mas interiormente não há qualquer autocrítica. Longe de se abrir à democracia e de procurar negociações com a oposição, Maduro aprofunda todos os dias a deriva autoritária com o objetivo claro de se manter no poder - que exerce já há sete anos.

Visto de forma multidimensional, agregando variáveis ?do emprego, educação, condições de habitação e serviços públicos, o Inquérito às Condições de Vida da Venezuela sublinha que a pobreza atinge 65% dos domicílios, com um aumento de 13,8% entre 2018 e 2019.

O estudo inclui um novo indicador chamado "pobreza no consumo", em que coloca 68% da população - uma imensa maioria que consome menos de duas mil calorias de alimentos por dia. A insegurança alimentar e a precariedade dos serviços tornaram-se fatores de equalização no país; não havendo aqui diferenças notórias entre as classes mais pobres e as mais ricas.

Este panorama sombrio, muito evidente nas ruas da Venezuela, ainda piorou durante a pandemia do coronavírus. Em abril, quando o país estava em quarentena já há um mês, 43% dos venezuelanos não podiam trabalhar ou tinham perdido os seus salários.

Os dados gerais da pandemia estarão muito aquém da realidade: com 28 milhões de habitantes, o país regista 9 178 infetados e tem 85 mortos declarados; o rácio de testes é de 48 mil por 1 milhão - muito abaixo do de Portugal, que testa 129 mil por cada milhão.

Acabar com este défice de pobreza extrema na Venezuela exigiria um programa arrojado de ajudas internacionais da ordem dos cinco mil milhões de dólares por ano. Esse valor é astronómico, mas só na aparência: permitiria dar um subsídio mínimo de dois dólares por dia a 6,5 milhões de famílias.

País vai a votos, mas liberdade está limitada

Nicolás Maduro é presidente desde a morte de Chávez (2013). A 6 de dezembro, há eleições parlamentares. Mas a Oposição recusa participar, com Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino em 2019, cada vez mais enfraquecido e a perder apoios no exterior. Os quatro partidos da oposição (G-4) estão seriamente limitados pelo Supremo Tribunal, que desqualificou as suas direções: Voluntad Popular, Primero Justicia, Accion Democrática e A New Time.

70% da nação sem dose mínima de proteínas

Quem ganha acima do salário mínimo come cinco vezes mais carne do que os outros - ou seja: a maioria da população consome abaixo do nível de proteína recomendado (51g/dia). Apenas 30% da população lá chega. Os dados antropométricos (medição do corpo humano) dão o retrato negro da desnutrição infantil: 30% das crianças com menos de cinco anos (639 mil crianças) têm desnutrição crónica ou baixa estatura para a sua idade.

Inflação de 97% em três meses

A Venezuela registou este ano 97,3% de inflação no seu primeiro trimestre. A inflação de janeiro subiu aos 62,2%, em fevereiro foi de mais 21,8% e em março somaram-se mais 13,3% de inflação. Tudo somando, em três meses, o preço do cabaz básico duplicou.

+ 77% de salário mínimo

A medida foi decretada em abril: o salário mínimo subiu de 450 mil Bolívares Soberanos (2,43 euros), para 800 mil BsS (4,33 euros).

3,46 euros por uma dúzia de ovos

O que equivale a 640 mil Bolívares Soberanos. Um pão custa 80 mil BsS (0,43 euros) e 1 kg de farinha milha 145 mil BsS (0,78 euros).

0,43 cêntimos é o preço de um café

Por sua vez, um pacote de arroz, dos mais baratos, custa 130 mil BsS (0,70 euros) e um quilo de carne de bife 600 mil BsS (3,25 euros).

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