Ucrânia

Um mar de flores para os mártires da Independência

Um mar de flores para os mártires da Independência

A cada dia que passa na Maidan, o cartaz empunhado por Olga Ivanets ganha mais sentido. "Eu sou ucraniana e não consigo manter a calma" é bem mais do que um slogan batido para ser fotografado e postado no Facebook.

Dia após dia, a indefinição sobre o futuro político da Ucrânia não está apenas a desafiar a tranquilidade do povo. Ela está a frustrar as suas expectativas numa mudança por que lutou com suor, sangue e, agora, muitas lágrimas.

O negro das cinzas que manchou brutalmente a Praça da Independência começou ontem a ser pintado de todas as cores. Milhares de ucranianos rumaram ao epicentro da contestação carregados de flores nos braços. Por toda a praça e acessos há uma centena de memoriais improvisados. Um tapete florido, debruado a lamparinas, une agora o centro da Maidan à zona alta da carnificina da semana passada. Não há políticos no palanque. Só religiosos para honrarem os mortos.

Ontem foi o caixão de Igor Pehenko a desfilar destapado na praça. Tem sido assim todos os dias, como se se pretendesse prolongar o tempo da dor e espicaçar a memória coletiva. As rezas multiplicaram-se, os choros também. E a esperança: "Espero que a morte do meu filho, e de todos os que foram assassinados por (Vitor) Ianukovich (o ex-presidente ucraniano), não tenha sido em vão", disse a mãe de Pehenko aos jornalistas.

A multiplicação de homenagens aos heróis mortos a tiro pelo poder deposto em Kiev vai continuar. O ritual transformou a praça da Independência num gigantesco velório coletivo. Ali, enquanto ganha força o sentimento de vingança, o anúncio da ordem de busca e captura de Vitor Ianukovich, para ser julgado pela mortandade desde que eclodiu a contestação há três meses, foi recebido naturalmente com satisfação. "Vamos acreditar que ele será apanhado e condenado. Nós que combatemos aqui dentro da Maidan merecemos isso e os nossos mártires merecem ainda mais", disse Grigoriy Matiash, um dos cossacos que se juntou cedo à rebelião e que agora, como os seus tambores a rufarem cadenciados, é uma das atrações para os visitantes que afluem aos milhares à praça.

Revolução ao piano

Há muitas semanas que o passeio à frente da câmara municipal de Kiev é enigmático. Na rua junto ao edifício ocupado pelos revolucionários da praça da Independência há um piano de cores invulgarmente berrantes. O habitual negro do instrumento foi substituído pelo azul e amarelo da bandeira ucraniana.

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O piano da Maidan tem uma história. Foi retirado do prédio da autarquia e colocado na rua por um manifestante encapuzado que regularmente tocava para os manifestantes sem revelar a sua identidade. "A música ajuda as pessoas e fortalece a sua moral", explica dono da ideia do chamado "piano extremista", designação que pretendeu ironizar com a forma como o presidente deposto da Ucrânia classificou os autores dos protestos.

Agora, o piano é do povo e o povo não se faz rogado. Os que passam tocam e há sempre quem assista.

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