Líbano

Uma bomba que foi sentida desde 2013

Uma bomba que foi sentida desde 2013

Série de eventos que conduziram à tragédia que varreu Beirute começa a encaixar, mas persistem dúvidas.

A linha do tempo que levou a um dos maiores desastres industriais de que há memória começa lentamente a desenhar-se. E mete um barco a caminho de Moçambique, substâncias explosivas, armadores de ética duvidosa e carteira esventrada, uma apreensão e o esquecimento, apesar de multiplicados apelos à atenção para aquilo que chegou a ser designado como uma "bomba flutuante". Debalde. A faúlha de uma soldadura - é a tese mais provável - comprovou que os lançadores de alerta estavam tristemente carregados de razão. Na terça-feira, 137 pessoas morreram, mais de 100 desapareceram e 5000 ficaram feridas em Beirute, sob um cogumelo que replica, à escala, o que ficou célebre com a bomba atómica de Hiroshima.

O Governo libanês ordenou respostas até segunda-feira, o que parece ser o melhor caminho para muita coisa se manter na sombra. E viu quatro ex-primeiros-ministros (incluindo o último, Saad Hariri, que sob pressão das ruas e das acusações contra uma elite política corrupta) apelarem à comunidade internacional a liderar a investigação para que o processo seja imparcial. Até porque há rumores de armas ali armazenadas.

Mas vamos então à linha do tempo. Nasce no dia 23 de setembro de 2013. O navio MV Rhosus, propriedade da Teto Shipping, do russo Igor Grechushkin, residente no Chipre, mas com bandeira moldava, larga amarras de Batumi, na Geórgia. Carrega 2750 toneladas de nitrato de amónio (usado em fertilizantes e material explosivo) encomendados pela Fábrica de Explosivos, empresa de explosivos industriais moçambicana (a autoridade portuária da Beira garante desconhecer a operação).

Paragem eterna em Beirute

Pára na Turquia e na Grécia, para abastecer. Segundo o ex-capitão, Boris Prokoshev, é aí que o proprietário avisa a tripulação de dificuldades financeiras que implicam aumentar a carga em Beirute para tornar a viagem mais rentável. Outras fontes apontam problemas técnicos.

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O Rhosus aporta em outubro de 2013 e os marinheiros revoltam-se devido a dívidas salariais. Do seu lado, as autoridades portuárias dizem agora que terão determinado que o navio não tinha condições. O ex-capitão assegura que se tratou de um problema de dívida de taxas portuárias em Beirute, o que a Federação de Trabalhadores do Transporte Internacional confirma. Em causa, 100 mil dólares. O barco é arrestado e a tripulação obrigada a ficar a bordo quase um ano.

Navio abandonado

Em 27 de junho de 2014, o diretor-geral das alfândegas, Shafik Merhi, endereça a um juiz um aviso do perigo que estava estacionado no porto de Beirute e pede um decisão judicial. Novas cartas em dezembro de 2014, junho de 2015 e maio de 2016. Pelo meio (julho de 2014), o navio é dado como abandonado, os marinheiros (russos e ucranianos) repatriados após 11 meses "encarcerados" e abandonados sem dinheiro pelo armador (venderam combustível para sobreviver e contratar um advogado) e a carga trasladada para o armazém 12 (ao lado de um que guarda fogo de artifício) do porto de Beirute em novembro de 2014.

Numa das cartas, Merhi alerta para o perigo do nitrato de amónio armazenado sem condições, mormente num país de clima quente, e sugere soluções: reexportar a mercadoria. Badri Daher sucedeu a Mehri e continua a luta, com mais cartas, logo em outubro de 2017, recordando o alerta e sugerindo até que se vendesse a carga ao exército libanês. Total: seis avisos. E zero respostas. A direção das alfândegas aponta o dedo à administração portuária, cujos responsáveis foram agora colocados em prisão domiciliária. O diretor-geral do porto, Hassan Koraytem, defende-se que o nitrato de amónio foi descarregado por ordem judicial, admite que ninguém resolveu o problema e lamenta este atirar de responsabilidades.

Soldadura fatal

O tempo vai passando até dezembro último, quando, segundo a imprensa libanesa, um relatório oficial é entregue na justiça, na presidência e nas direções de informações e alfândegas. Mais uma vez, alerta para o risco: há, até, um buraco aberto no entreposto que deixa uma substância explosiva à disposição de ladrões.

Segundo a Reuters, segue-se o aviso de que estava ali nitrato de amónio suficiente para "rebentar Beirute inteira". E o ministro das obras públicas é informado daquela bomba a retardamento no dia 24 de julho. Doze dias depois, o buraco terá sido soldado, segundo Koraytem. Há um incêndio. E meia Beirute foi varrida por um cogumelo.

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