Crise

Venezuelanos no Panamá apreensivos mas com fé de que país vai mudar

Venezuelanos no Panamá apreensivos mas com fé de que país vai mudar

Entre arepas e empanadas num quiosque de bebidas e comidas, o venezuelano Tayron Hernández desfia preocupações sobre o país onde nasceu, esperançado de que este vai mudar, depois de Juan Guaidó se ter autoproclamado Presidente interino da Venezuela.

"Estou preocupado, triste, nostálgico, mas muito otimista", diz o comerciante de 59 anos que na Cidade do Panamá vê o negócio "correr bem, muito bem".

De chapéu da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) na cabeça, evento que a cidade acolhe até domingo, com a presença do papa Francisco, Tayron Hernandez não esconde a "muita, muita preocupação" com os recentes acontecimentos na Venezuela e com outros com que se viu confrontado ao longo da vida, incluindo a insegurança.

"Era político, engenheiro, empresário. Fui vítima de tentativa de sequestro por três vezes", conta o venezuelano, que ainda tentou uma incursão em Portugal, em Aveiro, nove meses no ano de 2014, mas compromissos na Venezuela levaram-no a regressar ao país natal.

Por pouco tempo, é certo, porque volvido cerca de um ano fez as malas e instalou-se na Cidade do Panamá, onde há três anos vive com esperança numa Venezuela diferente.

"Estou muito otimista, esse Governo, esse tirano, esse ditador, vai cair", diz Tayron Hernandez numa convicção inabalável, referindo-se ao executivo do Presidente Nicolás Maduro.

As preocupações e esperanças são partilhadas por Jennifer Navarro, de 24 anos, mãe de uma menina de quatro anos que deixou na Venezuela para tentar encontrar no Panamá uma vida melhor para ambas.

"É uma angústia, uma dor, uma tristeza, por estar longe da família", lamenta-se, mas insiste na permanência no Panamá, onde chegou há um ano e quatro meses, embora ainda sem trabalho, para ter "um futuro melhor".

Revelando estar "bastante preocupada" com a situação na Venezuela, a jovem atira de imediato: "Mas tenho fé de que alguma coisa vai mudar e falta pouco, tenho fé e esperança".

Há um ano e meio, a venezuelana Julianne Segóvia, de 24 anos, como milhares de seus compatriotas nos últimos tempos, também se fez ao caminho para o Panamá.

"Foi a situação do país que me obrigou, vim à procura de um futuro melhor e para dar bem-estar à família", relata a jovem, acreditando que o Panamá tem muitas oportunidades.

Sobre a Venezuela, a estilista afirma que "também tem muitas oportunidades, mas a riqueza é mal administrada".

"A Venezuela, com toda a sua riqueza, deveria ser um bom país", destaca, referindo que enquanto tal não suceder "fica por cá para poder ajudar a família".

Na Cidade do Panamá e um pouco por todo o país, onde dizem ser incontáveis os venezuelanos que se têm por aqui instalado para fugir das dificuldades do país, Hugo Mora, de 61 anos, teme uma guerra civil.

Em declarações à Lusa, no seu pequeno quiosque de comidas e bebidas, nas imediações da Praça da Concórdia, avisa que "todos têm de estar preocupados com a situação na Venezuela".

"É um problema mundial. O problema é que o conflito se internacionalizou", considera o venezuelano que há nove anos encontrou nova vida na Cidade do Panamá.

O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, autoproclamou-se na quarta-feira presidente interino da Venezuela, perante milhares de pessoas concentradas em Caracas.

O engenheiro mecânico de 35 anos tornou-se rapidamente o rosto da oposição venezuelana ao assumir, em 3 de janeiro, a presidência da Assembleia Nacional, única instituição à margem do regime vigente no país.

Nicolás Maduro iniciou em 10 de janeiro o seu segundo mandato de seis anos como presidente da Venezuela, após uma vitória eleitoral cuja legitimidade não foi reconhecida nem pela oposição, nem pela maior parte da comunidade internacional.

Os Estados Unidos, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e quase toda a América Latina, já reconheceram Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela.

A Venezuela, país onde residem cerca de 300 mil portugueses ou lusodescendentes, enfrenta uma grave crise política e económica que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir do país desde 2015, segundo dados da ONU

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o maior evento organizado pela Igreja Católica, decorre até domingo na Cidade do Panamá.