Gana

Vivem acorrentados para fugir à doença mental

Vivem acorrentados para fugir à doença mental

Em algumas regiões do Gana, os doentes mentais são acorrentados a árvores ou postes de pedra. Assim ficam durante meses ou anos, o tempo que for preciso até se curarem, mas não se curam.

Baba Agunga, 20 a 30 anos, está há três preso a uma árvore, na aldeia de Zorko, no norte do Gana. Uma corrente enferrujada, em torno de uma raiz de árvore grossa, amarra-lhe os tornozelos. Baba quase não fala. Está nu, sentado sobre um tapete, à vista da cabana onde já quase não tem família. O pai morreu, as irmãs casaram-se e mudaram-se, resta-lhe a mãe e o círculo de terra em que se pode mover, feito cão amarrado, como outros milhares em países da África Ocidental.

"Era um bom menino. Viajou para o sul e estava bem, estava a fazer pulseiras e a vendê-las", conta a mãe ao jornal britânico "The Guardian", que relata a história de vários jovens com vidas amarradas [veja aqui a fotogaleria]. Mas depois Baba voltou para casa diferente, com amigos que fumavam canábis. "Não sei se foi a erva que o pôs doente, mas ele tornou-se muito agressivo. Começou por tomar medicamentos e melhorou, mas depois deixou de haver remédios" e Baba tentou atacar a mãe com uma espada. Foi quando o pai foi a um dos vários fabricantes de correntes - a prática abriu um mercado -, onde comprou as correntes que o mantém preso há quase 1100 dias.

"Mãe, traz-me comida", diz-lhe o filho sempre. Às vezes tem sorte, outras não, depende do que há. Os olhos dela lacrimejam quando o filho olha para o céu e sorri. Como mãe e cuidadora, teme um futuro em que Baba fique sozinho: "Preocupo-me com o que acontecerá com ele quando eu morrer".

Não há disponíveis, na região, tratamentos médicos para a saúde mental ou condições neurológicas como demência. Em todo o Gana, só um punhado de enfermeiros comunitários, três hospitais e 13 psiquiatras - a maioria na capital, Accra - atendem a uma população de 30 milhões de pessoas, numa altura em que as doenças psicóticas e depressivas parecem estar a aumentar, devido ao aumento do consumo de drogas e álcool e ao impacto da pobreza, exacerbado pelas alterações climáticas.

"A canábis cultivada no Gana é das mais fortes do mundo e o abuso entre jovens que a fumam todo o dia, ou tomam tramadol ou cocaína, é muito mau", diz Stephen Asante, jovem enfermeiro psiquiátrico em Tamale, no norte de Gana, onde fundou a "Mental Health Advocacy Foundation", instituição de caridade que se propõe a reduzir o estigma e o desconhecimento em torno de doenças mentais.

"Desde que ficámos sem medicamentos, a única coisa a oferecer é a prisão", diz Stephen Asante, jovem enfermeiro psiquiátrico em Tamale, no norte de Gana, onde fundou a "Mental Health Advocacy Foundation", instituição de caridade que se propõe a reduzir o estigma e o desconhecimento em torno de doenças mentais.

"Muita gente não sabe o que fazer e, na maioria dos casos, abandonam a pessoa [doente] ou levam-na para campos de oração. Talvez alguém com mais conhecimentos aconselhe a levá-la ao hospital. Mas mesmo lá não há remédio". Em todo o ano de 2019, não chegou àquela zona qualquer medicamento para tratar doenças mentais. "Zero. Nada".

Apesar dos esforços do governo no combate à falta de habilitações profissionais médicas, persistem curandeiros, herbalistas e até burlões, sobretudo naquela zona, onde reinam medos sobre espíritos malignos e tradições de curas espirituais e à base de ervas. Além disso, como em boa parte do mundo, a saúde mental está envolvida em estigma e dispõe de poucos recursos. As prisões estão cheias de pessoas doentes e os hospitais e centros de saúde vazios de conhecimentos psiquiátrico.

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