Bielorrússia

"Vocês levam uma bomba a bordo": disse o controlador ao piloto da Ryanair

"Vocês levam uma bomba a bordo": disse o controlador ao piloto da Ryanair

A decisão de desviar o voo da Ryanair para a Bielorrússia não foi iniciativa do piloto mas da torre de controlo. É o que prova a transcrição de comunicações. Antes de declarar "mayday", o piloto perguntou várias vezes de onde vinha a informação.

O piloto da Ryanair que no domingo fazia o voo 4978, de Atenas, na Grécia, para Vilnius, na Lituânia, e foi obrigado a aterrar de emergência em Minsk, na Bielorrússia, questionou repetidamente a torre de controlo sobre a suposta ameaça de bomba. E perguntou várias vezes de onde vinha a informação. Só quando lhe disseram que "o código de alerta é vermelho" é que acedeu alterar a rota.

Nesse momento, já um avião de guerra Mig estava a escoltar o Boeing 737-8AS da Ryanair, um voo comercial que levava 171 passageiros a bordo, incluindo o jornalista de 26 anos Roman Protasevich.

Alegadamente, quatro agentes de segurança russos, também seguiam a bordo com a função de vigiar o jornalista. Quando o aparelho pousou em Minsk, as autoridades bielorrussas do KGB prenderam Roman, assim como a sua namorada russa Sofia Sapega, de 23 anos. Esta seria a verdadeira razão para o desvio do voo.

Mundo condena desvio

O grave incidente foi genericamente condenado no mundo ocidental, com os 27 países da União Europeia a decidirem sanções económicas, interdição de aviões bielorrussos no espaço europeu e de voos europeus na Bielorrússia. O ato foi mesmo considerado um "sequestro de Estado" e uma "ação de pirataria" que terá por detrás uma ordem direta do ditador Alexandre Lukashenko, de quem Roman Protasevich é um crítico ativo.

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A transcrição divulgada pela Reuters difere de trechos anteriormente difundidos pela TV estatal da Bielorrússia, que atribuía alguns dos comentários do piloto ao controlador. O canal de televisão argumentou então que tinha sido o piloto a pedir para aterrar de emergência em Minsk, o que não se revelou ser verdade.

Leia a seguir excertos da transcrição das comunicações entre o controlador do voo e o piloto do avião Ryanair 4978.

"Vocês levam uma bomba a bordo"

Controlador: Minsk

Piloto: Sim, diga.

Controlador: Para seu conhecimento, temos informações de serviços especiais de que vocês levam uma bomba a bordo e pode ser ativada em Vilnius.

Piloto: Aguarde.

Piloto: OK. Pode repetir a mensagem?

Controlador: Repito, para seu conhecimento, temos informações de serviços especiais de que vocês levam uma bomba a bordo e pode ser ativada em Vilnius.

Piloto: Entendido. Aguarde.

Controlador: Por motivos de segurança, recomendamos que aterre no UMMS [código do aeroporto de Minsk].

Piloto: OK. Compreendido, dê-nos uma alternativa, por favor.

Piloto quer saber mais detalhes da bomba

Piloto: A bomba... a mensagem direta da bomba... de onde veio? De onde obtiveram essa informação?

Controlador: Aguarde, por favor.

Piloto: Diga.

Controlador: O pessoal da segurança do aeroporto informa que recebeu um e-mail.

Piloto: Entendido. Foi a equipa de segurança do aeroporto de Vilnius ou da Grécia?

Controlador: Este e-mail foi partilhado com vários aeroportos.

Piloto: Entendido. Aguarde.

Piloto: Mais uma vez, essa recomendação de desviar o voo para Minsk de onde veio? De onde veio? Da companhia? Das autoridades do aeroporto de partida ou das autoridades do aeroporto de chegada?

Controlador: Estas são as nossas recomendações.

Piloto: Pode repetir?

Controlador: Estas são as nossas recomendações.

Piloto: [impercetível].

Piloto: Disse que essa é a vossa recomendação?

Piloto concorda finalmente e aterra em Minsk

Controlador: Comunique a sua decisão, por favor.

Piloto: Preciso de resposta à pergunta. Qual é o código de alerta: [impercetível] verde, amarelo, âmbar ou vermelho?

Controlador: Aguarde.

Controlador: Eles dizem que o código de alerta é vermelho.

Piloto: Entendido, nesse caso solicitamos manutenção da posição atual.

Controlador: Entendido, mantenha a sua posição.

Piloto: OK, mantenho posição atual.

Piloto: Estamos a declarar uma emergência. MAYDAY, MAYDAY, MAYDAY RYR 1TZ. É nossa intenção desviar o voo para o aeroporto de Minsk.

Controlador: RYR 1TZ MAYDAY. Entendido. Aguarde instruções.

Jornalista continua detido

Após aterrar de emergência em Minsk, capital da Bielorrússia, o jornalista Roman Protasevich e a namorada Sofia Sapega saíram escoltados por quatro alegados agentes de segurança russos. Todos os outros passageiros e tripulantes foram evacuados, as bagagens retiradas e vistoriadas por polícias e cães. Só oito horas depois o voo Ryanair 4978 pôde seguir viagem em direção a Vilnius, na Lituânia.

Roman Protasevich continua detido em Minsk e poderá ser acusado de "crimes contra o Estado, terrorismo e organização de tumultos massivos". As penas pelos alegados crimes podem variar entre os 15 anos de prisão e a condenação à morte.

Na terça-feira, as autoridades bielorrussas divulgaram um vídeo em que Roman Protasevich admitirá ter participado em manifestações. O jornalista surge com ar deprimido, tem hematomas na cara e faltar-lhe-ão alguns dentes - disse o seu pai, Dmitri Protasevich, que sublinha que o filho "falou sob coação" e que "está a ser torturado".

Sofia Sapega, namorada de Roman, também continua detida e é acusada de "crimes contra o Estado cometidos entre agosto e setembro de 2020", justamente quando eclodiram manifestações por toda a Bielorrússia, mas sobretudo na capital Minsk, contra Alexandre Lukashenko.

O presidente bielorrusso, que está no poder desde 1995 e é considerado, à luz dos países democráticos do ocidente, um ditador, terá cometido fraude nas eleições presidenciais, que diz ter vencido por mais de 80% dos votos.

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