Análise

Wuhan é ou não a Chernobyl de Xi Jinping?

Wuhan é ou não a Chernobyl de Xi Jinping?

A comparação é tentadora. E ganhou raízes na própria China, na caixa de comentários da página da mini-série da HBO sobre o desastre soviético num site chinês de cinematografia, entretanto devidamente limitado. Tentadora e permitida, na forma, no cenário e nas vítimas inocentes (médicos agora, bombeiros então).

1986. Um teste a um reator nuclear de Chernobyl, na Ucrânia que ainda era União Soviética, faz derreter a instalação, mal feita, explodindo a central, símbolo - mais um - do portentado económico, militar e científicio de uma potência que começa a desmoronar-se e cujo líder recente vai ensaiando termos como glasnost e perestroika, do alto da hierarquia, ainda que longe das chefias intermédias de um regime fechado e autocrático. Não fosse a Suécia dar conta de níveis de radioatividade alarmantes e o silêncio prolongar-se-ia. Mikhail Gorbatchov, o dito líder, diria anos mais tarde de Chernobyl: "talvez tenha sido a verdadeira causa do desmoronamento da União Soviética cinco anos mais tarde, muito mais do que a minha política de perestroika".

2020. Um médico faz um exercício simples de epidemiologia num hospital de Wuhan, no centro da China. Sete pessoas com sintomas condicentes com os de uma pneumonia atípica e um ponto em comum - um mercado de peixe e animais selvagens - não podia ser apenas coincidência. Li Wenliang avisou colegas, que difundiram o alerta. Foram detidos e admoestados. Três semanas depois, Wuhan e toda a província de Hubei eram postas numa quarentena inédita. Tarde. Já cinco milhões de pessoas tinham saído dali. Li ficou. Contaminado, morreu. E espoletou uma onda de apelos à liberdade de expressão - e o consequente raide silenciador nas vigiadas redes sociais - tendo como mote uma das suas últimas frases: "Penso que deveria haver mais do que uma voz numa sociedade sã". Transportes e escolas fechados, fábricas suspensas, férias forçadas e o crescente descontentamento abalam o regime do líder, Xi Jinping, e a economia chinesa, ainda mal saída de dois anos de guerra comercial com os EUA.

A comparação é tentadora. E ganhou raízes na própria China, na caixa de comentários da página da mini-série da HBO sobre o desastre soviético num site chinês de cinematografia, entretanto devidamente limitado. Tentadora e permitida, na forma, no cenário e nas vítimas inocentes (médicos agora, bombeiros então). Muitos analistas querem ver no surto de coronavírus um prelúdio do desmoronamento da autocracia comunista no Império do Meio. Outros admitem os paralelos, mas recusam a profecia.

Entre as semelhanças, conta-se a decapitação das hierarquias de Wuhan e do Hubei, mas não os seus propósitos. Xi substituiu-as por próximos e ficou convenientemente na retranca enquanto enviava para o olho do furacão o primeiro-ministro Li Keqiang, entretanto erguido à condição de líder da task force que gere a epidemia. Quem caiu com os mortos de Chernobyl foram também os dirigentes incómodos, porque porque, mais papistas do que o papa, assumiram as dores do regime e geriram o silenciamento, como fizeram, agora, os polícias de Wuhan, já chamados à razão, na testada estratégia de culpabilizar quem está em baixo, analisa Peter Frankopan, professor de história global na Universidade de Oxford.

Mas Xi tem em mãos trunfos que Moscovo não tinha em 1986: uma economia forte (ainda que em recuo), ao contrário das débeis finanças soviéticas no ocaso do regime, e o facto de não estar apaixonado pela transparência (glasnost) e pela reforma político-económica (perestroika). E percebe os riscos, como escreve a colunista Clara Ferreira Marques, na Bloomberg, deixando passar críticas às ditas chefias, numa falsa abertura. Além de saber que tem o próprio vírus a seu favor, porque fecha as pessoas em casa e trava-as de descer à rua em protesto, adianta ao "The Washington Post" Zhang Lifan, historiador independente em Pequim. Mais, soma Clara Ferreira Marques, não esperou que um país estrangeiro desse o alerta, como fizera Moscovo, e construiu a sua narrativa - a que ponto próxima da realidade é algo a confirmar. "Se o triunfalismo da era Xi Jinping está abalado, o monopólio do poder continua intacto", resume François Godement, conselheiro para a Ásia no Instituto Montaigne, Think Tank em Paris.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG