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"Xi Jinping, fora!". Chineses unem-se contra política restritiva de "covid zero"

"Xi Jinping, fora!". Chineses unem-se contra política restritiva de "covid zero"

População manifesta-se pelo fim da doutrina "covid zero". Incêndio que provocou 10 óbitos motivou protestos que colocam em causa o poder do líder de Pequim, algo inédito na China.

Pequim, Xangai e Wuhan são algumas das cidades chinesas onde milhares de pessoas se juntam nas ruas e universidades para contestar o prolongamento das rígidas restrições que o regime tem adotado desde 2020 para controlar a covid-19. O incêndio, que matou pelo menos 10 pessoas num prédio residencial em Urumqi, na região de Xinjiang, na noite de quinta-feira, serviu de gatilho para os protestos, nos quais os manifestantes exigem a saída de Xi Jinping da presidência do país - cargo que ocupa há quase dez anos e que foi reforçado no passado mês de outubro, durante o Congresso do Partido Comunista chinês.

"Partido Comunista, fora! Xi Jinping, fora!", pediram esta manhã os manifestantes em Xangai, uma das principais metrópoles financeiras da China, num protesto na maior avenida da cidade, que teve mesmo de ser cortada pelas autoridades devido à intensidade das manifestações.

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As imagens que começaram a circular nas redes sociais chinesas, e que rapidamente foram banidas por constituírem atos de oposição ao Governo, mostravam uma multidão a usar máscaras de proteção facial e a erguer folhas brancas - o que já é considerado um símbolo dos protestos contra a estratégia restritiva que a China tem adotado para combater a pandemia - por considerarem que as vítimas do incêndio que deflagrou no dia 24 de novembro não conseguiram fugir do edifício em chamas porque as portas das casas estariam trancadas por fora, alegações que foram negadas pelas autoridades.

Já em Wuhan, cidade da China central onde o SARS-CoV-2 foi identificado pela primeira vez, os manifestantes juntaram-se nas barricadas que impediam a circulação dos cidadãos para fora da cidade chinesa e conseguiram derrubá-las.

Apesar do regime de Xi Jinping ter excluído um confinamento a nível nacional, as autoridades locais foram instadas a fazê-lo sempre que é detetado um surto de covid-19, o que acontece frequentemente em grandes cidades como é o caso de Pequim. Na capital, o efeito dominó começou na sexta-feira, à medida que foram surgindo vídeos de moradores a sair para as ruas.

"A liberdade prevalecerá"

Na Universidade de Tsinghua, os estudantes fizeram-se ouvir com gritos que ecoaram por todo o país: "A liberdade prevalecerá"; "Isso não é uma vida normal. As nossas vidas não eram assim antes", reclamaram, em oposição aos constantes bloqueios de mobilidade, o que consideram ser censura.

Os recentes protestos, que constituem um acontecimento inédito no país, já que as exibições públicas contra o regime são alvo de censura, levaram a que a polícia detivesse vários manifestantes. Há ainda relatos relatos de espancamentos por parte das autoridades, que estarão também a fazer uso de gás pimenta para dispersar as multidões.

Ainda assim, a população deu continuidade à onda de descontentamento que se iniciou na sexta-feira em Urumqi, embora o Governo regional de Xinjiang tivesse anunciado, algumas horas após o início dos protestos, que estava disponível para aliviar algumas medidas.

A revolta antigovernamental que se instaurou em poucos dias, mas que é o reflexo de uma acumulação de quase três anos de confinamentos, já começou a ser vista como um teste à liderança de Xi Jinping, porém, dificilmente colocará em causa a posição do líder.

Chung Kim-wah, sociólogo da Universidade Politécnica de Hong Kong, disse ao "The Guardian" que os protestos desorganizados não são uma força suficiente para enfrentar o Governo. "As mudanças de baixo para cima são muito difíceis, se não impossíveis", assinalou.

Já Dan Mattingly, professor assistente de ciência política na Universidade de Yale, alerta que os protestos podem estimular uma resposta que impulsione "mais repressão", cita a agência Reuters.

A Amnistia Internacional, por sua vez, destacou que a revolta demonstrada pela população é "um ato de bravura".

Shaun Xiao, manifestante.

Manifestante anónimo.

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