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A pandemia por quem a estuda: o que deve saber e fazer, por si e pelos outros

A pandemia por quem a estuda: o que deve saber e fazer, por si e pelos outros

Se está com medo de estar infetado, avalie se tem sintomas e se é comum tê-los, pense se esteve com alguém potencialmente doente e mantenha a calma, sabendo que, regra geral, não é problemático esperar algumas horas até falar com um profissional de saúde. Em caso de doença, ficar por casa é a única coisa a fazer.

Se nos últimos dias tem andado de transportes públicos, ter-se-á apercebido de um padrão nas conversas entre passageiros. Os diálogos sobre o ramerrame dos dias deram lugar a debates sobre a doença do momento: há quem a desvalorize, reduzindo-a a uma constipação, e quem veja nela uma catástrofe. Como em tudo, a variação de posições depende da forma individual de ver a mesma realidade, sendo normal que se amplifique quando a realidade é nova. Mas, ainda que recente, a Covid-19 não chegou ontem.

"Quando dizemos que é uma doença emergente ou um agente novo com o qual contactamos pela primeira vez, não quer dizer que não saibamos do que estamos a falar ou a forma de lidar com o problema. Quer dizer que, ao contrário do que conhecemos e para o qual temos respostas já muito tipificadas, há neste caso um espaço de adaptação a coisas que vão acontecendo, a características que só vamos conhecer à medida que o tempo passa", diz ao JN Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e membro do Conselho Nacional de Saúde, imputando aos portugueses o dever de "responder melhor ao problema", uma vez que assistiram a uma evolução de dois meses antes de o vírus bater à porta.

​​​​​Responsabilidade social na contenção da pandemia

Assim, e sabendo-se que "a infeção se transmite de pessoa para pessoa e por intermédio de superfícies onde o vírus esteja", se mantivermos distância social e lavarmos as mãos, reduzimos a probabilidade de transmissão. "Este conjunto de medidas simples - que às vezes até parecem estranhas por vivermos num mundo tão tecnológico, onde para nos protegermos basta lavar as mãos - funciona!", assegura o especialista em Epidemiologia. E se o aliarmos a um cuidado reforçado da limpeza das casas e locais de trabalho, "fazemos quase tudo".

Embora tenha havido casos de transmissão de pessoas aparentemente assintomáticas, "sabemos que a esmagadora maioria se transmite a partir de pessoas sintomáticas, particularmente das mais sintomáticas". "Ora, se as pessoas tiverem a decência e o bom senso de ficar em casa, na imensa maioria dos casos nem sequer vão ser precisos cuidados de saúde especiais", sublinha Henrique Barros, investigador em áreas como a epidemiologia clínica e doenças infeciosas.

"O conselho é 'se está doente, não saia de casa'. O mundo corre sem nós num momento particular, não corre é connosco todos doentes." Se não está doente nem esteve em contacto com um caso de infeçãoconfirmado deve também reforçar as medidas de higiene e distanciamento social. E caso tenha estado numa zona onde se registaram vários casos de infeção, saiba que "não há zonas de infetados" nem "áreas onde não se pode entrar". "Não há zonas proibidas, não há áreas de risco em Portugal. O risco é o meu vizinho, num sítio qualquer, estar doente, a tossir, e ter vindo de um sítio onde eventualmente a infeção exista, e em vez de estar em casa, anda de um lado para o outro a espalhar potencialmente a infeção", sublinha o professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

O especialista aponta que a probabilidade de acontecer um desfecho fatal - "a mortalidade pode chegar aos 15% em idosos com mais de 70 anos e sobretudo mais de 80" - pode ser muito reduzida "se não deixarmos que os serviços de saúde entrem em rutura." E como garantimos que isso não acontece? Colaborando com as autoridades de saúde e percebendo que "se eu começar com tosse hoje, posso esperar 3 ou 4 horas por uma resposta de uma linha de atendimento, não tem problema nenhum. As pessoas não estão em perigo de vida imediato."

"É que a doença permite isso: não estamos a falar de uma doença em que, entre o início dos sintomas (sobretudo febre, tosse e dificuldade respiratória) e uma situação gravíssima, se passem minutos ou horas. Estamos a falar de uma doença que nos dá tempo para planear a resposta. E se nós formos capazes de ter essa disciplina, estaremos a ajudar os serviços de saúde", aponta Henrique Barros, que, não inviabilizando críticas a eventuais situações em que não haja resposta, lembra que "somos nós que gerimos o sistema" e "temos de contribuir para que não entupa".

Outra forma de ajudar o sistema é evitando a corrida às máscaras de proteção, que contribui para "a especulação brutal com preços, o aproveitamento do medo, da preocupação e até da necessidade das pessoas". "É uma maldade que estamos a fazer a nós todos", atira Henrique Barros, lembrando que "as máscaras são necessárias nos serviços de saúde" e que são "para proteger algumas pessoas com patologias muito graves" e "para os doentes que têm sintomas não transmitirem a infeção aos outros".

"Se as pessoas [as] açambarcarem em casa, quando forem a um serviço de saúde e precisarem, o serviço pode não ter, porque ninguém pode acreditar que a disponibilidade é ilimitada. A gestão do problema está nas nossas mãos, na forma como somos capazes de compreender e ser solidários com os outros, ou seja, ajudar os outros para sermos ajudados pelos outros."

Diferente da gripe sazonal

Questionado sobre semelhanças e diferenças entre o Covid-19 e a gripe, o especialista deixa claro que é um "erro" fazer essa comparação. "Este vírus não é como o vírus da gripe (...) Ambas são infeções respiratórias, ambas são providas por um vírus, ambas se transmitem de pessoa a pessoa, ambas têm a possibilidade de resultar em quadros graves. Mas o agente é diferente, a incubação é diferente, o papel das intensidades da transmissão do doente é diferente, a gravidade é diferente. E há uma diferença fundamental: a gripe vive connosco, humanos, há centenas de anos. Este coronavírus, connosco, há uns meses", lembra, destacando que algumas das medidas são as mesmas: "contenção social, não andar fora de casa quando se está sintomático, autoavaliar a intensidade dos sintomas e pedir ajuda por via telefónica, não ir ao médico, à urgência ou a uma farmácia."

Na quarta-feira passada, quando manifestou preocupação "tanto pelos níveis alarmantes de propagação e gravidade como pelos níveis alarmantes de inação", a Organização Mundial da Saúde declarou a Covid-19 como uma pandemia. A mudança de conceito "dá mais poder às autoridade de saúde para tomarem decisões", diminuindo o "espaço para cada um fazer o que lhe apetece", por forma a "agirmos todos da mesma maneira".

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