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A viver na rua, só aos 60 anos João conseguiu ter o cartão de cidadão

A viver na rua, só aos 60 anos João conseguiu ter o cartão de cidadão

Sem residência, os sem-abrigo não podem renovar documento e Comunidade Vida e Paz permite que usem a sua morada.

João Cipriano, 60 anos, está a tirar o cartão de cidadão pela primeira vez. Já teve bilhete de identidade, mas perdeu-o, não se recorda bem quando. De olhar cabisbaixo, vai acenando afirmativamente às perguntas de Luís Pinto, funcionário do Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), que atende há dez anos, por esta altura, pessoas em situação de sem-abrigo.

A iniciativa da Comunidade Vida e Paz - uma das várias realizadas no fim de semana passado, no âmbito da festa de natal desta organização, que, este ano, decorreu noutro formato devido à pandemia - permitiu que 30 pessoas a viverem na rua renovassem ou emitissem este documento.

Luís Pinto tenta baralhar João Cipriano durante o atendimento, pedindo-lhe que confirme uma data de nascimento errada, "só para perceber se ele está atento". Com convicção na voz, João não se deixa enganar e corrige o funcionário.

Viver na rua "tira-nos muito, mas não as capacidades", declara ao JN, dentro das instalações do instituto. Caiu nas ruas de Lisboa há dois anos, depois do senhorio o despejar. "Vendeu a minha casa, onde vivia desde criança, a um dinamarquês", recorda.

Morte desorientou-o

Cá fora, no Campus da Justiça, vários sem-abrigo esperavam pela sua vez para emitirem ou renovarem o Cartão de Cidadão.

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Pedro Fernandes, 43 anos, já estava pela segunda vez na fila. De manhã, teve de voltar para trás, porque "não tinha uma morada para usar no cartão de cidadão". Depois de tentar, sem sucesso, que algum amigo com casa o deixasse usar a sua morada, acabou por, à semelhança de mais 10 sem-abrigo, utilizar como morada o Espaço Aberto ao Diálogo da Comunidade Vida e Paz - que tenta, desta forma, atenuar o problema da não renovação do cartão por falta de residência.

Viveu com os pais em Loures até há dois meses, quando os dois faleceram. Sozinho e angustiado, acabou por cair na rua. "O meu pai morreu de cirrose e a minha mãe morreu dois dias depois, com covid-19", lamenta Pedro, a dormir num armazém perto da Gare do Oriente. Júlio Correia trabalhou durante muitos anos na construção civil e gaba-se dessa altura, "quando ganhava 1100 euros e pagava a renda e as contas". O falecimento dos pais também o deixou desorientado.

Há três anos deixou o emprego e apanhou o comboio para Santa Apolónia, onde ficou a viver na rua com a ajuda de uma moradora daquela zona, que lhe dava refeições e cobertores. Recentemente, foi para a Pousada da Juventude do Parque das Nações, um dos quatro centros de acolhimento temporários para sem-abrigo, criados pela Câmara de Lisboa por causa da pandemia covid-19.

Convívio difícil

João Perrulas, 36 anos, e Maria Bruno, 41 anos, há seis anos a viver na rua junto à Fundação Gulbenkian, fugiram das "tradições da etnia cigana", com as quais não se identificavam. Chegaram a morar em quartos partilhados da Segurança Social, mas preferem a rua.

"O convívio lá era difícil, desapareciam coisas. Somos sossegados e só queremos paz, uma casa, um emprego, rotinas e não viver em modo sobrevivência", diz João, enquanto aguarda pela vez para renovar o cartão de cidadão, roubado há mais de um ano.

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