Covid-19

Alerta esvazia cidades mas há quem recuse ficar em casa

Alerta esvazia cidades mas há quem recuse ficar em casa

Um dia depois de o Governo ter decretado estado de alerta em todo o país, pouco a pouco as cidades vão ficando desertas, com a população a respeitar as recomendações das autoridades. Centros comerciais, restaurantes e cafés estão praticamente vazios. Mas há também quem considere as medidas exageradas e continue a tentar fazer uma vida normal.

O JN encontrou idosos que mantêm as rotinas e continuam a encontrar-se na Praça do Marquês, no Porto, para jogar uma partida de sueca, como sempre fizeram, e os que não abdicam de ir apanhar sol para o jardim. Em Lisboa, apesar de menos carros a circular, os locais turísticos continuam cheios de gente que quer aproveitar até à última os momentos da viagem argumentando que a presença de portugueses nas ruas é sinal de que a situação não é grave.

Porto, Gaia e Matosinhos quase adormecidas

À exceção dos turistas que aproveitaram dia de sol, maioria da população seguiu à risca recomendações e refugiou-se em casa

Ruas vazias, alguns estabelecimentos fechados, outros a meio gás, restaurantes em plena hora de almoço sem clientes, farmácias com novos horários afixados - como uma na Rua da Formosa que à semana vai passar a estar aberta apenas das 9 às 17 horas - e muitos lugares de estacionamento vagos na Baixa. Uma situação rara que fez ontem do Porto uma cidade quase adormecida.

Situação idêntica em Gaia e Matosinhos, com as praias desertas e os centros comerciais, como o Mar Shopping, em Leça da Palmeira, com quase ninguém.

Aliás, nos corredores deste shopping ainda pairava o receio de quem, na sexta-feira, soube do caso de uma colaboradora que, com sintomas gripais, teve várias horas numa sala de isolamento, tendo acabado por ir embora pelo seu próprio pé depois de ter assinado um termo de responsabilidade.

Aguarda resultados

Contactada pelo JN, Cláudia Domingues, responsável pela Comunicação do IKEA e do Mar Shopping, confirmou o episódio e referiu que o caso aconteceu "com uma colaboradora externa, de 21 anos, que tinha estado em Espanha". Do mesmo modo explicou que a jovem, ainda na sexta-feira, dirigiu-se ao Hospital de S. João, no Porto, onde realizou o teste de despistagem do Covid-19. "Está em casa a aguardar os resultados. Só tomaremos uma medida [de encerrar ou não o centro comercial] mediante uma decisão da Direção-Geral da Saúde", concluiu Cláudia.

Indiferentes às recomendações, estava ontem um grupo que jogava às cartas na Praça do Marquês de Pombal, no Porto. "Só andam para aí a assustar o povo", desabafou Joaquim Pinto, 79 anos.

Alheios ao Plano de Contingência estiveram também os turistas que aproveitavam o dia soalheiro no Jardim do Morro, em Gaia, e na Ribeira, no Porto.

Denilda chegou do Brasil e encontrou a cidade deserta

Em Aveiro, grande parte do comércio está fechado e há mais estrangeiros do que portugueses nas esplanadas que ainda estão abertas

Denilda Amim, de 46 anos, chegou ontem a Portugal com o sobrinho, vinda do Rio de Janeiro, no Brasil, e rumou a Aveiro, onde o filho mora. Encontrou uma cidade totalmente diferente daquela que encontraria há uma semana, com grande parte dos cafés e restaurantes encerrados e com um terço das pessoas que habitualmente andam na rua. Até uma parte das empresas marítimo-turísticas suspenderam os passeios de moliceiro na ria.

"É a primeira vez que venho e estou a amar a cidade, mas a estranhar estar vazia, porque segundo me dizem costuma ter muita gente", explicou Denilda. Nos aeroportos, em Portugal e no Brasil, também encontrou escassez de pessoas. "A única diferença que notei, realmente, é que estavam quase vazios. De resto, nada de diferente. Não fui sujeita a qualquer rastreio. Viajei sem medo e vou fazer a minha vida normal", adiantou.

Na realidade, ontem à tarde, havia mais estrangeiros nos locais públicos da cidade do que portugueses. No Fórum Aveiro, o movimento era diminuto. Na zona do Rossio, alguns turistas ainda se aventuravam em passeios de moliceiro. Mas poucos. Até porque, apesar de a Câmara, ontem, ter recomendado que as empresas marítimo-turísticas, a partir de hoje, cessem os passeios, uma parte delas já não se encontrava a laborar.

Na praça do Peixe, habitualmente repleta de esplanadas, os cafés estavam fechados, tal como uma parte dos restaurantes. Tal como na Praça 14 de julho. Ali, só dois estabelecimentos se encontravam abertos, mas, aparentemente, por pouco tempo. "Vai fechar tudo. Eu só fiquei aberto porque tínhamos encomendas até amanhã [hoje] ao almoço. Vamos fechar pelo menos 15 dias. Em primeiro lugar está a saúde dos nossos funcionários e clientes", sublinhou Raul Neves, proprietário da Tasquinha do Bacalhau.

Ruas de Braga mais vazias mas ainda muita gente sem medo

Alguns idosos continuam a manter rotina de dar passeios ou apanhar sol no jardim. Estabelecimentos com menos gente.

As esplanadas vazias no Centro Histórico de Braga e os funcionários à porta dos restaurantes à espera dos clientes denunciavam, ontem, os efeitos da Covid-19 na cidade. Há muito menos gente a sair à rua, poucas pessoas a entrar nas lojas de roupa, mas, contudo, ainda eram visíveis muitos cidadãos mais velhos, de grupos de risco, a passear ou nos bancos junto aos jardins, simplesmente, a aproveitar o sol.

O filho de Maria Silva, com 77 anos, liga-lhe "vezes sem conta", a partir da Bélgica, para sensibilizar a mãe a ficar em casa. Mas, Maria, diz que "não consegue". Todos os dias sai de casa, de manhã, para o centro histórico, e só regressa pelas 18 horas. "Sou do grupo de risco e sou hipertensa, mas não consigo ficar em casa. As minhas amigas dizem que sou inconsciente", confessa a septuagenária, denunciando alguma tristeza por alguns dos seus cafés de eleição estarem a fechar.

Cláudia Esteves, com 46 anos, também não está "preocupada". Ontem, foi à manicure com a filha, de 12 anos, e pretende manter "a vida normal". "Cheguei do Brasil domingo, mas sinto-me bem", conta, antes de acrescentar que tem mantido "alguns cuidados", como evitar beijos e abraços.

Por outro lado, há quem vá à rua, sempre a pensar no pior. "Fui à farmácia, porque precisava de medicamento para a minha irmã, com tensão alta. Mas não tenho vergonha de dizer que tenho medo do vírus. Não ando a passear ou a frequentar cafés", garante Maria Pimenta, com 84 anos, lamentando a falta de máscaras e desinfetante nas farmácias. "Ando a lavar as mãos com sabão", confidencia.

Os maiores centros comerciais, também, não estiveram desertos, ontem, mas a maioria das pessoas concentrou-se na zona dos hipermercados, atestando carrinhos.

Baixa de Lisboa cheia de turistas um dia depois do "estado de alerta"

Um dia depois de ter sido decretado o "estado de alerta" em todo o país por causa da pandemia do novo coronavírus, há menos carros a circular nas ruas, mas a baixa lisboeta continua à pinha.

Há aglomerados de turistas por todo o lado, grupos de adolescentes e famílias a passearem, esplanadas cheias e filas para o elevador da Santa Justa. São essencialmente turistas, mas também muitos lisboetas, que dizem não ver motivos para tanto alarme.

A propagação do novo coronavírus não impediu centenas de pessoas de saírem à rua, em Lisboa, na tarde de sábado. O café A Brasileira, no Chiado, estava, como habitualmente, cheio de turistas. "Não estamos a sentir quebras no negócio, as pessoas ainda não estão preocupadas", diz Carla Silva, responsável por um dos cafés mais emblemáticos da capital.

A normalidade com que muitos receberam a declaração do "estado de alerta" não levou, porém, o estabelecimento de restauração a não tomar medidas. "Já afastamos as mesas, para as pessoas não estarem tão juntas, e temos tido o cuidado de limpar e desinfetar o espaço, assim como de lavar as mãos. Temos tido todos os cuidados", garante Carla Silva.

Na Rua Garrett, também há uma farmácia que já só se atende os clientes através de uma janela. Mas nem esta medida de prevenção parece assustar os clientes. "Vim aqui porque a minha namorada tem uma alergia, mas vamos continuar a fazer a nossa vida normalmente. Estamos de férias e temos de aproveitar, diz Henrique Sousa, 25 anos, natural de São Tomé e Príncipe. Já Mariana, 23 anos, também na fila para a farmácia, está mais apreensiva. "Estou mais preocupada com a minha mãe, que teve um cancro, e o meu avô, que faz parte de um grupo de maior risco. Por causa deles já não venho trabalhar na segunda", conta.

"Preocupação exagerada"

Na frente ribeirinha, junto ao Cais das Colunas, muitos também passeiam despreocupados. "Tem havido uma grande pressão para se ficar em casa, que me parece exagerada. Temos de ter algum cuidado, mas o pânico não ajuda", desvaloriza Diocleciano Pereira, 75 anos, que está a aproveitar a tarde de sol para celebrar meio século de casamento. "Isto não me assusta, tenho várias doenças e temos de morrer de alguma coisa", desvaloriza.

Sara Almeida, 47 anos, também natural de Lisboa, considera que "é importante arejar". "Esta situação do coronavírus até veio acalmar algumas zonas da cidade e estamos a aproveitar haver menos gente nas ruas para passearmos mais à vontade", admite.

Despreocupados seguem o passeio em direção ao Terreiro do Paço, onde se concentram vários turistas. Rafael Cardoso, 31 anos, planeou durante um ano as férias com a família para Portugal. "Ainda tentamos antecipar o regresso ao Brasil, mas não conseguimos. E depois de prepararmos a viagem também custava não aproveitarmos", confessa. Como medidas preventivas, cancelou apenas uma outra viagem, para Madrid, onde a evolução do coronavírus o preocupa mais.

Henrique Pereira, 32 anos, também natural do Brasil, sente o mesmo. "Temos visto gel desinfetante nos restaurantes e cafés, o que nos tranquiliza. Ainda pensamos voltar, mas vimos tanta gente nas ruas, que ficamos menos preocupados", admite. Elaine Araújo, 40 anos, partilha a mesma opinião. "Não vemos ainda muitos motivos para preocupação, Portugal ainda não está como Itália. Parece-nos tudo ainda muito controlado", diz. Protege-se evitando os transportes "em horários de pico".

Michael Barraca, 28 anos, canadiano, lava as mãos como medida preventiva, mas já não evita os aglomerados. Espera a sua vez para andar no elevador da Santa Justa, numa fila com dezenas de pessoas. "Se vejo gente doente afasto-me. Estou saudável e não tenho medo", diz.

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