Legislativas

Costa fala pela primeira vez em maioria absoluta, Rio quer negociar com PS

João Vasconcelos e Sousa

Debate

Foto Pedro Pina/rtp/lusa

O líder do PS, António Costa, admitiu pela primeira vez, no debate com todos os líderes partidários, que deseja uma maioria absoluta nas eleições de dia 30. Já o presidente do PSD, Rui Rio, desafiou os socialistas a mostrarem "disponibilidade para negociar" caso vençam com maioria relativa.

"O país precisa de estabilidade para quatro anos", afirmou Costa, na RTP. Questionado sobre se isso se consegue com uma maioria absoluta, respondeu: "Sim, uma maioria absoluta. É o que garante estabilidade durante quatro anos".

Ainda assim, o líder socialista evitou falar de uma eventual aproximação pós-eleitoral ao PSD: "Governarei com as ferramentas que os portugueses puserem à minha disposição", referiu.

Para Rui Rio, a escolha do primeiro-ministro é "o que de mais importante se vai decidir" na ida às urnas. E, de modo a assegurar a governabilidade, admitiu ter "disponibilidade para negociar", desafiando o PS a dizer o mesmo. "O que não quero é que o país ande em sucessivas eleições. Para isso, tenho de ter espírito democrático", insistiu.

À Esquerda, os antigos integrantes da geringonça procuraram frustrar as intenções do PS. Catarina Martins, coordenadora do BE, afirmou: "As pessoas na rua pedem-me: entendam-se. Ninguém vem pedir uma maioria absoluta", afirmou.

João Oliveira, da CDU, esclareceu que também a coligação está "disponível para convergir" para uma solução à Esquerda. E atirou: "Não há Governos mais estáveis do que os de maioria absoluta, mas as vidas das pessoas ficam mais instáveis".

Francisco Rodrigues dos Santos, do CDS, alertou que um voto no PSD "pode ir parar ao bolso de António Costa". Questionado sobre se admite contribuir para uma geringonça de Direita, respondeu que as suas linhas vermelhas são os "arranjinhos" à Esquerda.

Inês Sousa Real, do PAN, recusou esclarecer se o partido está mais próximo do PS ou do PSD, preferindo afirmar que o "constrói pontes e não muros".

André Ventura, do Chega, referiu que o seu partido só exigirá entrar no Governo se tiver, pelo menos, 7% nas eleições. Já João Cotrim Figueiredo, da IL, considerou "de extrema gravidade" que Costa peça o voto aos portugueses "mas não explique para quê".

"A História explica": a frase de Costa que irritou a Direita

Catarina Martins foi a primeira a falar de temas económicos. A bloquista argumentou que, ao contrário do que a Direita defende, "não tem sido verdade" que baixar os impostos às empresas permita, depois, uma maior redistribuição da riqueza. O BE quer rever o IRS, descer o IVA da eletricidade e pôr fim ao recurso a 'offshores'.

A receita de Rui Rio é diferente: "Só podemos baixar o que o orçamento permite", afirmou. Se se começar por diminuir o IRS, o país distribuirá "aquilo que não tem", aumentando a inflação e prejudicando a balança de pagamentos. O social-democrata rejeita cortar pensões e defende que a Função Pública tenha aumentos "pelo menos" iguais aos da inflação.

António Costa comprometeu-se a "acelerar" o crescimento económico, lembrando que o país dispõe agora de duas vantagens: os fundos europeus e uma capacidade científica "mais robusta". O líder do PS afirmou que, desde que é primeiro-ministro, Portugal cresce acima da média europeia.

Questionado sobre o motivo de alguns países do Leste estarem a ultrapassar Portugal, deu uma resposta que irritou os partidos à Direita, nomeadamente CDS, Chega e IL: "A História explica". Cotrim Figueiredo aproveitou para argumentar que a razão para essa diferença reside no facto de vários países do Leste terem uma taxa única de IRS, tal como o partido propõe.

Rui Tavares, do Livre, contrariou o argumento dos liberais, referindo que os grandes beneficiados serão os cidadãos com maiores rendimentos. Tal como a IL, também André Ventura e Rodrigues dos Santos repudiaram a frase de Costa, denunciando ainda a "maior carga fiscal de sempre". O líder do PS pediu a palavra, queixando-se de ter levado "pancada de todos".

Rio acusa Costa de "inventar narrativa" sobre SNS

No entanto, o debate partiu para o tema do SNS. Rio reforçou que o PSD quer manter um sistema "tendencialmente gratuito", afirmando que Costa "inventou a narrativa" de que os sociais-democratas querem pôr a classe média a pagar pela saúde.

Contudo, argumentou que se deve "negociar" com os privados de modo a que haja serviços "mais baratos e melhores", de modo a mitigar questões como a falta de médicos de família ou as longas listas de espera.

Na resposta, Costa referiu que Rui Rio "pode jogar o que quiser com as palavras", insistindo que o líder laranja apresentou uma proposta de revisão constitucional para abrir a porta a que a classe média pague o SNS. Acusando Rio de ter a "habilidade de disfarçar o que propõe no seu programa", afirmou que é isso que dá ao PSD a "facilidade" de fazer acordos com o Chega, como nos Açores.

João Oliveira, da CDU, sustentou que o SNS está a ser alvo de um "desmantelamento". "Não há liberdade de escolha se não houver resposta do SNS", referiu, advogando mais contratações e uma maior valorização das carreiras, de modo a evitar que os profissionais de saúde sejam "disputados" pelos grupos de saúde privados, em prejuízo da rede pública.

Para Catarina Martins não há falta de médicos; o problema é que estes "não ficam no SNS". Dessa forma, a solução é "concretizar a dedicação exclusiva" dos profissionais de saúde: "Não podemos ter diretores de serviço de hospitais públicos que vão a correr trabalhar para o privado do outro lado da rua", defendeu.