Estudo

Há mais estudantes no Superior mas desigualdades mantêm-se

Estudo sobre a realidade socioeconómica do Ensino Superior é apresentado esta segunda-feira na cidade do Porto

Foto Pedro Granadeiro / Global Imagens

Estudo conclui que quanto menos favorecido o contexto socioeconómico, maior a taxa de abandono escolar e o risco de desemprego. Proposto alargamento das bolsas de estudo.

É um raio-x ao determinismo. Quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico de um estudante, menor a possibilidade de entrar num curso de excelência, maior a taxa de abandono e, mesmo completando o seu ciclo académico, maior o risco de desemprego. Aumentar a base do Superior não é sinónimo de igualdade. O caminho passa por alargar a base de elegíveis para bolsas.

As conclusões e recomendações são de um estudo levado a cabo pelo EDULOG no âmbito do projeto de investigação do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior. Durante 19 meses, 11 investigadores escalpelizaram estatísticas. Para apontarem caminhos por uma maior igualdade. Num processo de transformação "geracional", diz ao JN Alberto Amaral, membro do Conselho Consultivo do EDULOG.

As diferenças no acesso ao Ensino Superior entre classes são conhecidas. Uns têm acesso a escolas privadas, explicações, pais com formação superior, outros estão no extremo oposto, com mais dificuldades em suportar tanto o privado como os custos de estudante deslocado, lembra o professor emérito da Universidade do Porto.

Com reflexos nas taxas de abandono: "Quanto menos favorecido é o contexto socioeconómico, maior é a taxa". Com proporções mais elevadas nos cursos de curta duração, nos 18%, do que nos mestrados integrados (maioritariamente, Medicina), nos 3,5%, apuraram os investigadores.

No mercado de trabalho o cenário repete-se. "Em média, os estudantes que terminam a sua formação académica em universidades públicas tendem a ter uma menor propensão ao desemprego do que os dos politécnicos públicos". Não por "falha do ensino politécnico no cumprimento da sua missão", mas pelo facto de receberem estudantes de contextos socioeconómicos mais diversos", explicam.

Alargar as bolsas

A distribuição das bolsas de estudo são o espelho da análise apresentada esta segunda-feira no Porto. "A percentagem de bolseiros é maior em Enfermagem do que em Medicina; em Farmácia (politécnico) do que em Ciências Farmacêuticas (universitário). Globalmente, há mais bolseiros nos politécnicos do que nas universidades", diz Alberto Amaral. E mais no Interior do que no Litoral.

Vincando não ser um exclusivo nacional. "Em termos técnicos, o Ensino Superior é considerado um bem posicional", logo escasso. Tendendo a ser adquirido "por famílias com maiores recursos".

Uma das recomendações do EDULOG passa pela "alteração das condições de atribuição das bolsas de ação social e do seu valor". Atualmente, explica o antigo presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Superior, "o nível de rendimentos para se ter acesso a bolsa é muito baixo, um filho da classe média inferior não é elegível, e depois não tem recursos para poder estudar longe de casa". Razão pela qual defende que "o nível de bolsas devia subir substancialmente", tanto mais que, recorda, as famílias portuguesas são, entre as europeias, das que mais contribuem para o Superior. Mas os "seus recursos são mais baixos do que a média europeia".

Um "problema complicado", reconhece, que "demora muito tempo" a inverter. "Poderá esbater-se de geração para geração", conclui Alberto Amaral.

Visto estudante e mais oferta na língua inglesa

Os investigadores analisaram também os estudantes internacionais, que mais do que duplicaram numa década. Contudo, "muito ficou por resolver". Nomeadamente a Via Verde para a obtenção de vistos, que nunca foi implementada, num processo burocrático. Defendendo, por isso, a criação de "um visto de estudante, com base numa burocracia simplificada, como já acontece na Alemanha, Polónia e Suécia". Acresce, ainda, a falta de oferta formativa em Inglês. O que explica que quase 73% daqueles estudantes venham da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Porto/Lisboa

Dos 9300 estudantes que não conseguiram colocação no ano passado, 39,6% são provenientes de Lisboa e 22,6% do Porto. Um problema já identificado pelo EDULOG num outro estudo, que alerta para o dilema: "Escolher entre o aumento do número de vagas em Lisboa e Porto, ou conter as vagas em Lisboa e Porto". Escassez esta no público que explica "a concentração da oferta privada" naqueles distritos.

Integração

Os investigadores defendem "a intensificação do trabalho de complementaridade entre as instituições e o mercado de trabalho, para se conseguir uma melhor integração dos alunos no emprego".

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