Sondagem

Portugueses chumbam pacote de apoio às famílias

Rafael Barbosa

Foto Leonardo Negrão / Global Imagens

Quase 70% dos que estão nas duas faixas etárias mais velhas criticam Governo. Dois terços dos inquiridos trocavam a entrega de dinheiro por redução no IRS.

A avaliação dos portugueses ao pacote "Famílias Primeiro" é profundamente negativa. A medida que gera mais críticas, de acordo com uma sondagem da Aximage para o JN, DN e TSF, é a dos pensionistas: 61% chumbam a solução do Governo, uma vez que penalizará as pensões no futuro. No que diz respeito aos apoios monetários aos trabalhadores (125 euros) e aos seus filhos (50 euros), também não há dúvidas: dois terços dos portugueses (67%) trocavam esse subsídio único por uma redução das taxas de IRS.

O Governo promoveu o adiantamento de "meia pensão" como um apoio excecional. É o que ainda hoje está escrito na sua página oficial. A Oposição em peso argumentou que não se tratava de um apoio, mas de um "truque", através do qual se impedia uma atualização definitiva das pensões de acordo com o valor da inflação deste ano, como prevê a lei, aliás desenhada pelos socialistas. Venceu esta última tese. Apenas uma pequena minoria (23%) classifica a medida como positiva.

O sentimento é marcadamente negativo em todos os segmentos em que se divide a amostra, incluindo entre quem votou no PS nas eleições de janeiro (52%). Mas é quando se analisam os resultados por faixa etária que se percebe onde há maior preocupação: os dois escalões mais velhos (55 a 64 anos, que estão a chegar à idade da reforma; e 65 ou mais anos, que já lá estão) são os mais insatisfeitos: a avaliação negativa aproxima-se dos 70 pontos percentuais. Acresce que, numa segunda pergunta, uma maioria dos inquiridos (45%) acrescenta que o apoio do Governo é inferior ao esperado.

Socialistas insatisfeitos

É já a 20 de outubro que o Estado começa a entregar duas das parcelas incluídas no seu pacote de resposta ao aumento de preços: os 125 euros a trabalhadores com rendimentos até 2700 euros mensais, e os 50 euros por cada criança e jovem dependente até aos 24 anos. No caso de um casal com dois filhos, isso significará um cheque de 350 euros. Mas são muito poucos os que revelam alguma satisfação com qualquer destas medidas.

No caso dos 125 euros, 55% dizem ser inferior ao que esperavam (com destaque para quem tem 50 a 64 anos); no caso dos 50 euros para os filhos, 54% também se mostram descontentes (em particular quem tem 35 a 49 anos). Também nestas questões concretas a insatisfação cruza todos os segmentos partidários, incluindo quem votou no PS (ainda que em menor grau do que outros).

Redução nos impostos

Apenas num caso os eleitores do PS mostram uma tendência diferente dos restantes segmentos partidários: quando se pergunta se o Governo foi ao limite de capacidade do Estado com o pacote "Famílias Primeiro", há uma maioria de socialistas que concorda (42%). No que diz respeito aos restantes, sucede exatamente o contrário. E quando se pesa a opinião do conjunto de inquiridos, os que discordam são exatamente o dobro (48%) dos que concordam (24%).

Com tanta insatisfação com o pacote do Governo, não surpreende que uma enorme maioria de portugueses preferisse uma redução das taxas de IRS (67%), fosse ela grande ou pequena, ao apoio extraordinário que vão receber (26%). Neste caso, nem os eleitores socialistas se afastam do sentimento geral: 64% queriam uma baixa do IRS.

Sim aos impostos sobre lucros excessivos

António Costa e os seus ministros têm hesitado sobre a necessidade de aplicar impostos sobre lucros excessivos às empresas de energia, argumentando que estas já pagam uma contribuição extraordinária. A Comissão Europeia, no entanto, voltou a colocar recentemente essa questão na agenda política, defendendo que esse imposto seja cobrado em todos os países da UE, apontando baterias em concreto aos lucros das que produzem energias renováveis e às petrolíferas. Os portugueses também não hesitam: 66% concordam, pelo menos parcialmente, com esse imposto, com destaque para os socialistas (81%) e os que fazem parte da classe social com maiores rendimentos (79%). Contra estão uns escassos 12%.

Não a aumentos de apenas 2% no Estado

A discussão sobre aumentos salariais ganhou força nos últimos dias. E o Governo até propõe um aumento maior do que o previsto no salário mínimo, de modo a compensar o efeito da inflação: de 705 para 759 euros. No que diz respeito à Função Pública, António Costa foi mais contido e apontou, como referência para as negociações, para um aumento de 2% (quando a inflação vai, nesta altura, nos 9%). Há uma maioria de portugueses (46%) que discordam desse patamar (26% concordam), em particular os inquiridos com 65 ou mais anos (61%). Quando se analisam as respostas dos diferentes segmentos partidários, os únicos que fogem à regra são os socialistas: 42% concordam que se use 2% como referência; 37% discordam.

99%: O número é esmagador: 99% dos portugueses com 65 ou mais anos sentem que o custo de vida é hoje maior do que há um ano (mais dez pontos do que a população em geral).

94%: É nas compras do supermercado que os portugueses mais sentem os efeitos da inflação (89%). E são de novo os mais velhos os que mais se queixam (94%).

36%: Os habitantes do Norte são os mais preocupados com os efeitos do custo de vida na fatura da energia (luz e gás), 11 pontos mais que a média do país (25%).

20% É entre os mais novos (18 a 34 anos) que há maior preocupação com o aumento do custo da habitação (crédito ou renda), mais oito pontos que para a população em geral (12%).

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