Nacional

Trabalhadores saem à rua para protestar contra o aumento do custo de vida

Enzo Santos

Manifestantes saíram à rua em Lisboa|

 foto LUSA

Manifestantes saíram à rua em Lisboa|

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Manifestantes saíram à rua em Lisboa|

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Milhares de pessoas de todo o país saíram à rua, esta sexta-feira, em Lisboa, para protestar contra o aumento do custo de vida, que sentem sobretudo no preço dos bens essenciais e combustíveis, contaram alguns trabalhadores ao JN. Do Marquês de Pombal à Assembleia da República, em passo lento, de bandeira na mão ou cachecol ao peito, professores, enfermeiros, auxiliares, combatentes e polícias eram aos milhares para reclamar aumentos salariais e medidas para combater a inflação.

Cláudia Faria tem 57 anos, é mãe de quatro filhos, três universitários e um no secundário, e descreve como "muito difícil" a vida de um professor em Portugal. É professora há 32 anos, está no sexto escalão e diz que, com os cerca de 1400 euros que recebe, é difícil fazer face à subida generalizada dos preços.

Quando vai ao supermercado, é nos cereais que Cláudia sente o maior aumento: comparando a compra que fez esta sexta-feira com aquela que fez há duas semanas, "nota-se muito a subida", disse. "E não falemos da gasolina... que eu desloco-me para trabalhar e não tenho ajudas", contou.

Além do aumento de salários, que diz ser necessário para tornar a carreira mais apelativa, Cláudia defende que é preciso dar apoio aos professores, principalmente aos que se deslocam para dar aulas: "tenho colegas que são do Norte e são colocados longe de casa, e não têm qualquer tipo de ajuda", contou.

Enfermeiros pedem reforma na carreira

Enfermeiro há mais de três décadas, Rui Marroni, 62 anos, marcou presença na manifestação para reclamar o aumento dos salários e valorização da carreira. Ao JN, conta que "o que mudou, foi para pior": as expectativas na reforma das carreiras dos enfermeiros não têm sido cumpridas e os salários não aumentam com o passar dos anos. "Mais de metade dos 42 mil enfermeiros que trabalham na administração pública estão a receber exatamente o mesmo que o primeiro mês de salário de um recém-licenciado", contou.

Com os salários estagnados e a inflação a aumentar, diz que "são os trabalhadores da administração púbica que acabam seriamente penalizados". "Já antes era difícil. Com essa perda do poder de compra cada vez se torna mais difícil fazer frente às despesas do dia-a-dia". Quando vai ao supermercado, conta que se apercebe que os produtos "aumentaram de preço duas ou três vezes desde o início do ano", como o queijo, a fruta, o leite e as batatas.

Sobre o setor, Rui lamenta a falta de enfermeiros nos hospitais e centros de saúde, o que faz com que muitos tenham de recorrer ao trabalho extraordinário para suprimir a falta de profissionais. "Há séria carência de enfermeiros nos serviços", concluiu.

Trabalhadores vieram de todo o país

Susana tem 42 anos, trabalha na limpeza urbana, e, como muitos dos que aderiram à greve e manifestação da Frente Comum, deslocou-se de longe. Susana veio de Serpa, com a filha menor, para reclamar mais salário e melhores condições no trabalho. O ordenado é baixo e os produtos estão cada vez mais caros, lamentou. Desde os bens essenciais para as crianças, ao peixe e à carne, "está tudo muito caro, aumentou tudo", contou.

Como Susana, milhares de trabalhadores de todos os cantos do país deslocaram-se a Lisboa para fazer ouvir as suas revindicações. Crianças, adultos, jovens e idosos gritavam em coro e a plenos pulmões as palavras de ordem que se ouviam nos megafones: "Costa, escuta, o povo está na rua", ouvia-se ao longo da manifestação que terminou em frente ao Parlamento e contou com a presença do líder do PCP Jerónimo de Sousa.

Sebastião Santana, coordenador da Frente Comum, insistiu na necessidade de aumentar os salários da Função Pública em 90 euros e no controlo de preços para evitar a escalada do custo de vida.

A expectativa dos trabalhadores é conseguir incluir na versão final do Orçamento do Estado mais medidas que ajudem a combater a inflação. A votação final do OE está marcada para dia 27 de maio.