Ciência

Andam há 38 anos no mar a dar "Voz aos Oceanos"

Andam há 38 anos no mar a dar "Voz aos Oceanos"

Com 38 anos de experiência de navegação do mar, a família brasileira Schurmann impulsiona o projeto "Voz dos Oceanos", que disponibiliza dados à ciência, alerta para os perigos da poluição nos oceanos e procura motivar mudanças nos hábitos das pessoas. A iniciativa vai marcar presença na Conferência dos Oceanos da ONU, que começa em Lisboa no dia 27 de junho.

O projeto nasceu de uma das várias viagens que a família fez pelo mundo, quando descobriram plástico nos locais mais remotos do planeta. "Tudo começou em 1998, na Ilha Henderson (localizada no Oceano Pacífico). Essa ilha fica próxima do famoso Ponto Nemo do planeta, que é o local mais distante de qualquer outro território, seja continente ou ilha, habitada ou não. Notamos nessa ilha, que é de difícil acesso para o ser humano, um grande volume de plástico na praia de 10km", explica ao JN David Schurmann, CEO da "Voz dos Oceanos".

Depois dessa descoberta, as viagens subsequentes da família pelos oceanos continuaram a encontrar várias ilhas de plástico no meio do mar. "Foi assim que em 2021, mesmo com a pandemia, criamos o projeto "Voz dos Oceanos", uma iniciativa que junta pessoas de várias áreas científicas, advogados e outros agentes públicos", elabora.

PUB

Foi por essa razão que a família Schurmann e a equipa da Voz dos Oceanos embarcaram no veleiro Kat, com a intenção de navegar por cerca de 65 destinos internacionais, com o objetivo de mobilizar a população mundial para o combate à poluição dos oceanos. Durante mais de dois anos, entre 29 de agosto de 2021 e até dezembro de 2023, contarão com o apoio do Programa da ONU para o meio ambiente.

Alertar para "ilhas de plástico"

O âmbito do projeto, que vai passar por Lisboa para a Conferência dos Oceanos da ONU, é consciencializar os europeus para a presença do plástico nos oceanos. A sua equipa inclui 15 pessoas em terra (cientistas, profissionais de comunicação e jurídicos) e sete tripulantes a bordo do veleiro Kat, com recurso a energia limpa (eólica, hídrica e solar) e que conta ainda com geradores de baixo consumo e sistema de tratamento de águas residuais.

O funcionamento do projeto "Voz dos Oceanos" baseia-se em três grandes pilares de atuação. O primeiro, com uma vertente empreendedora, procura incentivar empresas e startups a encontrarem soluções na diminuição ou eliminação do uso do plástico no âmbito industrial.

Envolvem empresas

"Temos tido resultados tangíveis. Um exemplo é o caso da Tramontina - que fabrica utensílios de cozinha - que aliou-se a uma outra empresa que lhe indicou onde podiam reduzir a pegada plástica, não só no produto final, mas também no transporte", afirma David Schurmann. O projeto também tem como principais aliados empresas como a cervejeira Corona, a cosmética Natura e a produtora de material de escritório Faber-Castell.

Outro pilar da atuação do "Voz dos Oceanos" centra-se na investigação do impacto do plástico nos oceanos, em que entra Alexander Turra, professor na Universidade de São Paulo (USP). "O nosso trabalho, aqui na USP, é a identificação e avaliação da segurança alimentar, com base nos organismos consumidos nos locais onde a expedição passa, e a análise dos microplásticos recolhidos na superfície dos oceanos, através de uma 'rede manta'. Estas duas serão feitas pela equipa no veleiro e nós analisaremos mais tarde", explica Alexander Turra ao JN.

O último pilar de atuação é o diálogo com a sociedade. É aqui que entra o "Ciência Cidadã", que é uma "forma de os cidadãos contribuírem com dados ou imagens que recolhem e, a partir desses dados recolhidos, partilhar informação com eles, de modo a informá-los melhor", afirma. Essencial para este ponto tem sido uma aplicação, ainda em desenvolvimento, que vai ser compartilhada nos locais por onde a expedição passa, para que os cidadãos possam enviar informações diretamente à equipa.

"Portugal pode ter papel fulcral"

Sendo um dos projetos que vai marcar presença na Conferência dos Oceanos da ONU, que começa no dia 27 de junho e vai decorrer até 1 de julho em Lisboa, David Schurmann revela ter grandes expectativas e afirma que Portugal vai ter um papel fulcral.

"Portugal pode ser protagonista da abertura do mundo aos oceanos. Tal como nos Descobrimentos teve a importância de descobrir o mundo, Portugal pode ter a importância de salvar o planeta", sublinha. Schurmann reitera também que o contacto que esta Conferência vai proporcionar será essencial para o "Voz dos Oceanos" alinhar a sua meta e saber o que outras entidades e países estão a fazer.

Já Alexander Turra explica que este evento deve ambicionar colocar os Oceanos na agenda mundial e que seja um compromisso a longo prazo. "A Conferência tem uma mensagem subliminar: o que vamos fazer depois de 2030? Ou seja, como vamos ter um evento que tem as ações que deveriam ser para ontem e para sempre."

O investigador entende que este compromisso deve ser pautado pelo discurso e pela ação. "É necessário semear movimentos que sejam mais estruturantes e com maior longevidade, dando assim a entender o valor do oceano. "Caso isso seja compreendido, percebemos de forma coerente como podemos agir localmente", conclui.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG