"Faz pelo Planeta"

Apanhar lixo, um gesto de amor que foi premiado

Apanhar lixo, um gesto de amor que foi premiado

O percurso de Lídia Nascimento, que hoje se sagra vencedora da primeira edição do "Faz pelo Planeta" do Electrão, pelo seu esforço de limpeza das praias e consciencialização da comunidade para o problema do lixo marinho, é uma história de amor e perseverança.

A tradutora de Torres Vedras começou a apanhar lixo ainda criança e manteve o gesto ao longo da vida. Aos 50 anos, tem no currículo centenas de ações que permitiram a recolha de toneladas de resíduos, palestras, alertas nas redes sociais, obras de arte feitas com objetos que dão à costa e um livro, porque é preciso mudar de rumo, a bem do planeta.

Lídia lembra-se de, aos nove anos, já recolher lixo quando passeava na praia. Era pouco e geralmente surgia apenas "após tempestades e mar revolto". Mas nos últimos anos, conta, tem aparecido no areal "muito mais lixo, sobretudo restos de artes de pesca, feitos em plástico".

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A maioria do que a ambientalista recolhe está demasiado degradado para poder ser reciclado, acabando em aterros. Mas alguns objetos são reutilizados para criar obras de arte, que expõe. "Nas praias, as pessoas já não olham para o lixo. Mas quando é transformado numa peça que está exposta, reparam", explica, ao JN.

Outro lixo é aproveitado em projetos pessoais, como os cabos que se transformaram nas trelas com que passeia os cães.

Mar tornou-se um "caixote do lixo"

Alarmada pela dimensão do problema, Lídia criou páginas nas redes sociais para "mostrar a realidade a outras pessoas" e tentar sensibilizar a comunidade. Também tem promovido palestras em escolas, pois "os jovens vão levar com este problema" e não podem ficar indiferentes.

Durante um confinamento decorrente da pandemia de covid-19, encontrou mais uma forma de "passar a mensagem" e escreveu o livro infantojuvenil "Mar à Deriva". "Não é um livro técnico, mas tem factos científicos", inseridos numa "história de amor entre o som do mar e a luz da lua, que retrata o amor que devemos ter pela natureza".

Ao olhar para as praias, a sua "segunda casa", não duvida que "tem faltado amor". "Quando amamos não fazemos mal e temos feito muito mal ao planeta".

Em 2019, na centena e meia de ações de limpeza que fez na companhia do marido, Manuel, o "companheiro de todos os momentos", recolheu cerca de 11 toneladas de resíduos. No ano passado, foram 10,8 toneladas. O mar, lamenta, "parece que é um caixote do lixo gigante, onde se vaza tudo porque parece que desaparece". Mas, na realidade, "tem um efeito boomerang, vai voltar para nós e acabar por nos afetar, nem que seja quando ingerirmos um peixe que comeu microplásticos", diz, manifestando-se agradavelmente surpreendida por ser distinguida por realizar um gesto simples como "apanhar lixo".

Iniciativa recebeu 70 candidaturas

Lídia sobressaiu entre as 70 candidaturas propostas à iniciativa "Faz pelo Planeta" promovida pelo Eletrão, a entidade gestora de resíduos de equipamentos elétricos, pilhas e embalagens, não só pela quantidade de resíduos recolhidos ao longo de décadas de ações de limpeza, mas também pelo impacto das suas ações de sensibilização na comunidade.

A iniciativa pretendeu "identificar agentes de mudança e inspirar outras pessoas", explica Ana Matos, responsável de Educação, Sensibilização e Comunicação do Electrão. Para que a população perceba que "as nossas ações e impacto no ambiente podem ser mais do que a separação, podem ser pequenas mudanças no dia-a-dia para inverter a tendência atual" de destruição do planeta.

O prémio é uma viagem para duas pessoas ao maior parque florestal da Europa - Parque Nacional Białowieża, na Polónia. Para além da vencedora, hoje vão ser ainda entregues duas menções honrosas, a Carlos Dobreira e a Miguel Lacerda.

O Eletrão prevê a realização de uma segunda edição.

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