Reportagem

As dúvidas da vida real do novo ensino à distância

As dúvidas da vida real do novo ensino à distância

O ensino não massacra como a doença mas é uma dor de cabeça sem fim para famílias em dificuldades financeiras. Se nem há dinheiro para comer como é que pode haver um computador ou Internet? O edifício escola disfarçava as dificuldades, dando aquilo que muitas casas não têm, mas numa altura de ensino à distância, veremos se a telescola é suficiente e se os professores conseguem, com os seus meios e capacidade de adaptação, atenuar as diferenças. O JN dá voz às dúvidas de docentes, alunos e famílias.

Há uma nova rotina na vida da professora Manuela Laranjeira, de 55 anos. Em vez de ir para uma sala na Escola Professor Artur Nunes Vidal, em Fermentelos, Águeda, vai a partir da sua casa, na Malaposta, Anadia, usando o computador pessoal, a internet e telemóvel próprios, coordenar com os restantes professores, com os encarregados de educação e alunos do 2º ciclo como ensinar português e inglês à distância.

Uma vez por semana, os alunos e professor de cada disciplina irão reunir para esclarecer a matéria que está a ser transmitida através da televisão. Também uma vez por semana, o diretor de turma irá reunir virtualmente com os estudantes para recolher opiniões e perceber como poderá "limar arestas" do que está menos bem. Para essas aulas, os professores irão recorrer a plataformas informáticas como a "Google classroom". Depois, irão criar "grupos no WhatsApp, redes sociais, usar o email ou telefone para dar apoio e fazer um acompanhamento mais informal" do trabalho escolar, explica a professora. Quem não tiver acesso a computadores ou internet, "poderá receber as fichas e outro material de apoio por correio ou através das juntas e instituições sociais" da área, acrescenta.

Os professores fizeram o levantamento das diferentes situações das famílias para informar a Câmara e juntas de freguesia, de forma a tentar suprir carências e dificuldades.

Manuela sabe, por isso, que tem em mãos realidades muito distintas: alunos com portátil próprio e outros sem qualquer computador ou Internet, vários estudantes na mesma casa para usar um só equipamento, alguns que estão condicionados nos horários porque usam os computadores dos irmãos ou pais, famílias com limitações de tráfego de internet. Daí que seja essencial o esforço de todos. "Temos que nos unir para que este sistema funcione e os alunos sintam que estamos aqui", defende.

Jaime Pinho vai retomar as aulas de História aos cerca de 80 alunos de três turmas do 8.0º e 9.0 ano na Escola D. João II, em Setúbal, e confessa que a primeira preocupação não é a sua inabilidade com as plataformas de comunicação, mas se há alunos sem computadores. "Vou começar por perceber se os alunos e as suas famílias estão bem de saúde, transmitir confiança e depois se têm computadores em casa". No caso da turma que supervisiona como diretor, se identificar algum caso, admite junto da escola e município corrigir a situação.

No arranque desta nova fase de ensino, o docente de 64 anos considera ser preciso calma. "Não pode haver uma overdose de matéria, percebo que há programas para cumprir, mas não pode haver atropelos, afinal há que perceber que um aluno tem irmãos em casa e se todos tiverem uma grande dose de trabalhos de casa, não será bom para a família".

Jaime Pinho adquiriu uma webcam, utensílio que nunca precisou ao longo dos mais de 30 anos de experiência. "Alguns colegas já se disponibilizaram para me ajudar a aderir a plataformas onde me posso conectar em vídeo com os alunos, mas penso que este ano letivo não vou precisar, talvez no próximo, se assim for necessário". Por agora, o contacto será através de e-mail. Sem exames globais no fim do ano escolar, Jaime Pinho quer adequar a matéria dada ao estado atual do país e do mundo. "Escolhi para esta semana temas como a gripe espanhola de 1919 ou o Plano Marshall após a Segunda Guerra Mundial para que os alunos percebam que o que está a acontecer hoje já sucedeu no passado".

Os temas, disponíveis nos livros escolares, serão acompanhados de vídeos temáticos disponíveis na RTP Ensina que o professor vai pedir que os pais também vejam, mas a carga de trabalho não deve ser extensa. No final, vai pedir que lhe enviem comentários ou dúvidas.

Ana Margarida Lima, 14 anos, nunca teve computador nem telemóvel, mas não se queixa muito. A mãe, Alice Lima, 48, tem cancro da mama há oito anos e as principais preocupações de Ana Margarida e do avô, com quem também vive, são outras. "Infelizmente não dá para tudo, passamos fome para a Margarida não ter dificuldades", confessa o avô Orlando Lima, 68 anos. Apesar das adversidades, conseguiram instalar internet em casa. "Fiz este esforço, por conselho da escola, para ver se ela fazia a escola. Agora, só falta o computador", diz.

Quando as escolas encerraram em todo o país, por causa da Covid-19, Ana Margarida, aluna do 6.0 ano da Escola Básica de São Vicente, em Lisboa, concordou. "Se houvesse um caso de Covid-19 eu podia transmitir rapidamente à minha família, que faz parte dos grupos de risco", temeu. Já não ficou tão animada quando soube que não podia acompanhar as aulas em regime de ensino à distância por não ter computador. "O meu avô já instalou Internet. Gostava muito de ter o computador porque quero continuar os estudos", garante.

Ana Margarida vive com o avô, diabético e hipertenso, e a mãe, doente oncológica, no bairro da Horta Nova, em Carnide. Há vários anos que grande parte da sua vida passa por acompanhar a mãe ao Instituto de Oncologia e ajudá-la nas tarefas domésticas. A família junta pouco mais de 600 euros por mês para as despesas fixas, alimentação e "a enorme quantidade de medicamentos" que já precisam. "Estamos a ver se a Junta de Freguesia de Carnide nos ajuda, oxalá que sim", diz esperançoso Orlando Lima.

Ana Margarida também aguarda ansiosamente pelo aparelho eletrónico. O único contacto que teve até hoje com computadores foi nas aulas de Tecnologias de Informação e gostava de aprender mais. "Se não conseguir ter o computador, gostava que fosse possível assistir às aulas só pela televisão", diz.

A cabeça de Isabel Seabra, 51 anos, mãe de duas crianças, com sete e 13 anos, que agora começam a ter aulas e apoio à distância, está repleta de dúvidas e medos quanto ao novo modelo de ensino e o futuro. Não tem computador nem Internet na humilde casa, no concelho de Águeda, e o "receio" que os filhos "fiquem para trás" na aprendizagem aumenta a cada dia. Tem "medo" de os deixar ir para casa de amigos que pudessem aceder a partilhar equipamentos eletrónicos, pois o contágio por Covid-19 seria ainda mais perigoso por serem "asmáticos".

"É só o meu marido a trabalhar e eu cuido de uma senhora idosa. Precisamos comprar alimentos. O dinheiro não dá para tudo", lamenta. Nem o tempo. Quando começar a telescola, fará um esforço redobrado para os acompanhar, mas por vezes terá de sair para "cuidar da idosa" e simplesmente confiar que eles fiquem com atenção às aulas televisivas. "Não sei bem como vai ser. Tenho medo que eles fiquem para trás e, quando a escola voltar ao normal, seja como se estivessem no início", repete.

Gonçalo, 13 anos, disléxico, está na educação especial e tem algumas dificuldades de aprendizagem, sobretudo a "matemática e ciências". Mas estava a conseguir fazer o 6º ano "sem negativas". Agora, em casa, longe da rotina e horários da escola, o jovem admite que tem sido difícil ter "concentração" para estudar e não ficar "na brincadeira". Umas "horitas por dia" vai lendo e fazendo as fichas de apoio que a mãe manda fotocopiar dos livros, para não os estragar, pois tem de os devolver no final do ano. Antes da escola fechar, Gonçalo recorria aos computadores da biblioteca para "fazer trabalhos e ouvir música". Agora será complicado acompanhar os colegas, sem o equipamento adequado para o apoio ao ensino.

O irmão Rafael, sete anos, não tem as mesmas dificuldades de aprendizagem e já sente falta dos colegas e professores, afirma.

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