Reportagem

As especialistas no transporte de doentes covid-19

As especialistas no transporte de doentes covid-19

Duas mulheres estão, há mais de dois meses, a percorrer de ambulância cerca de 400 quilómetros por cada turno de 24 horas seguidas. A tarefa é sempre a mesma: transportar doentes infetados com covid-19 do hospital ao aconchego do lar.

E se nalguns casos Alberta Rodrigues, 35 anos, e Daniela Costa, 24, foram recebidas com palmas pelos familiares e vizinhos dos pacientes, inclusive do primeiro português a recuperar do novo coronavírus, noutras situações as socorristas da Delegação da Sobreira da Cruz Vermelha Portuguesa tiveram de enfrentar ameaças de quem não queria a sogra infetada em casa. Ou tentaram, de forma inglória, impedir que um infetado com o vírus contagioso se dirigisse para o café mais próximo, logo após abandonar a ambulância.

Alberta Rodrigues e Daniela Costa têm encontro marcado, em três ou quatro dias da semana, para as 8 horas, nas instalações que a Cruz Vermelha Portuguesa mantém na Sobreira, em Paredes. É ali que as socorristas esperam pelo telefonema a indicar que há mais um doente com covid-19 para ser transportado. "Há três tipos de pessoas que transportamos. As que estiveram internadas e vão continuar em isolamento em casa; as que foram diagnosticadas no Serviço de Urgência e farão o tratamento na habitação; e as que fizeram o teste no hospital e vão aguardar o resultado no domicílio", explica Alberta.

A delegada especial e coordenadora local de emergência da Cruz Vermelha sabe que as viagens começam sempre numa de três unidades hospitalares do Grande Porto (São João, Santo António ou Pedro Hispano), mas o destino é, a cada chamada, uma incógnita. "Já levámos doentes a Guimarães, Viana do Castelo ou Mirandela. Há dias em que saímos às 9 horas e regressamos à base por volta da meia-noite para, logo depois, voltarmos a fazer outro serviço. Já transportamos 13 doentes num só turno e, em média, cada equipa percorre cerca de 400 quilómetros por dia", contabiliza.

Ameaçadas na primeira semana

Com tanta estrada calcorreada não faltam histórias para contar. Algumas insólitas, outras definidoras de tempos amargos. Como aquela em que foram ameaçadas. "Foi logo na primeira semana. Levámos uma senhora com cerca de 90 anos, que tinha estado internada, à sua casa, em Valongo. Quando lá chegámos, o genro, que residia na mesma habitação, não a queria deixar entrar com medo de ser infetado e ameaçou-nos. Dizia que a senhora tinha de ficar no hospital", descreve Alberta Rodrigues.

Daniela Costa conta outros casos marcantes com infetados. "Num deles, chegámos a casa do doente, que estava alcoolizado, por volta das 4.30, mas a mãe, já idosa e que vivia com ele, não lhe abria a porta por mais que se chamasse. Não podíamos deixar o homem na rua e, a meio da madrugada, começámos a tocar na buzina da ambulância. Ao fim de uma hora, a vizinha veio ver o que se passava e permitiu que o doente entrasse na sua casa, saltasse o muro e fosse bater à janela do quarto da mãe. Noutro episódio, em Ermesinde, parámos à porta da residência do doente, de 60 anos, e ele, logo que saiu da ambulância, começou a fumar e dirigiu-se para o café. Ainda o avisámos que estava obrigado a ficar em casa, mas respondeu-nos que ele é que sabia o que fazia".

Primeiro doente recuperado

"As reações dos doentes são diferentes. Há quem chore de alegria por regressar a casa e há quem fique em pânico por sair do hospital ainda positivo à covid-19. Têm receio de infetar a família", resume Daniela. Foi, aliás, o que aconteceu com uma paciente que recusava abandonar a ambulância. "Dizia que não devia ter tido alta médica e foi preciso uma hora para a convencer a entrar em casa", recorda a jovem coordenadora local de emergência adjunta.

Distintas são, igualmente, as emoções de quem recebe os pacientes. "Uma vez, chegámos a uma freguesia de Lousada e os familiares e vizinhos da doente estavam nas varandas a bater palmas", descreve Alberta Rodrigues.

Foi ainda em Lousada que as duas socorristas transportaram aquele que foi o primeiro infetado a ser dado como curado. Casimiro Sousa, de 50 anos, natural de Nogueira, realizou, em 13 de março, dois testes com resultado negativo e voltou ao lar na ambulância da Cruz Vermelha. "Só quando vimos a notícia é que percebemos que se tratava do primeiro doente a recuperar", admite a delegada especial, que não esquece o momento em que tinha na ambulância uma família completa. "Pai, mãe e dois filhos menores ficaram infetados e saíram do internamento hospitalar ao mesmo tempo. Voltaram todos a casa, também em Lousada, na mesma viagem de ambulância", lembra.

Mais de 500 pessoas - 350 positivos à covid-19, 35 negativos e 124 a aguardar resultados dos testes de despistagem - levados a casa ou transferidos de hospital, em 394 viagens. Estes são os números da Delegação da Sobreira da Cruz Vermelha Portuguesa ao longo de uma pandemia, que obrigou a instituição a aumentar de duas para três as equipas dedicadas em exclusivo a este serviço.

Números que significam também muitas horas de contacto com pessoas infetadas com o novo coronavírus, mas que não impedem Alberta Rodrigues e Daniela Costa de cumprir a missão que abraçaram sem reservas.

"Medo nunca tivemos, mas o receio de sermos infetadas existe sempre. Isso até é bom, porque obriga-nos a estarmos atentas, a não baixar a guarda", frisam.

Foi o mesmo receio que levou à criação, na Delegação da Sobreira, de camaratas destinadas às equipas que realizam os transportes de doentes covid-19. "Não contactamos com os restantes socorristas para não haver contágio", justifica Alberta Rodrigues.

Os contactos de que a delegada especial destaca têm sido evitados, de igual modo, com os familiares. "Temos de ter muito cuidado com a proteção da nossa família", alegam as socorristas, que admitem que, neste período que já ultrapassou os dois meses, promoveram mudanças significativas na rotina doméstica para proteger quem lhes é mais querido.

"Em casa, há um quarto de banho que só eu é que uso e tiro logo a farda por precaução", revela Daniela que, tal como Alberta, mãe de um rapaz com seis anos, conta com o apoio imprescindível da família. "Vemos o que acontece aos outros e preocupa-nos o que nos pode acontecer. Mas a rede que nos apoia manteve-se estável", elogiam.

Cansadas, esgotadas e revoltadas

Cansadas fisicamente, esgotadas emocionalmente e revoltadas com a atitude das pessoas. É assim que as socorristas terminam muitos dos seus dias de trabalho. "Primeiro acusámos o cansaço físico e só quando parámos é que as questões emocionais se tornam mais presentes", declara Daniela Costa. Alberta Rodrigues concorda e acrescenta a desilusão que sentem ao ver tantas pessoas na rua. "No início desta pandemia, as pessoas tinham medo e cumpriam as indicações. Mas, agora, há desleixo de muita gente, que não valoriza o esforço de muitos profissionais", critica.

Mães abatidas por deixarem bebés no hospital

Não foi uma, nem duas. Foram cinco as mães de recém-nascidos que esta equipa da Cruz Vermelha levou a casa, sem a companhia dos filhos. "Estavam infetadas com a covid-19 e voltaram à habitação depois do parto, para continuarem o tratamento. Os bebés mantiveram-se internados no hospital e algumas mães nem chegaram a vê-los", lamenta Alberta Rodrigues. "Elas estavam conscientes que os filhos ficavam no hospital para o seu próprio bem, mas ficavam abatidas com a situação. Todas as mães querem estar com os filhos quando eles nascem", acrescenta Daniela Costa.