Desfiliação

As reações à saída de Sócrates do PS

As reações à saída de Sócrates do PS

O antigo secretário-geral do PS e primeiro-ministro José Sócrates anunciou esta sexta-feira que pediu a desfiliação do partido para acabar com um "embaraço mutuo", após críticas da direção que, na sua opinião, ultrapassam os limites do aceitável.

António Costa "surpreendido" com motivos invocados

O atual primeiro-ministro afirmou que "respeita" a decisão "pessoal" de José Sócrates de abandonar o PS, adiantando, no entanto, que ficou "surpreendido" com os motivos invocados. "É uma decisão pessoal de José Sócrates que tenho obviamente de respeitar", mas "fico surpreendido, porque não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: Separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política", afirmou aos jornalistas, em Toronto, antes de iniciar o terceiro de quatro dias de visita oficial ao Canadá.

Carlos César lembra "marca positiva" de Sócrates

O presidente do PS, Carlos César, manifestou o orgulho do partido no contributo de José Sócrates para o progresso do país e frisou que os socialistas mantêm o princípio de separar as questões judiciais das questões políticas.

"O PS orgulha-se do seu contributo ao longo de toda a história democrática para o progresso do nosso país e em especial nas circunstâncias em que o PS assumiu responsabilidades governativas. O engenheiro José Sócrates deixou uma marca muito positiva como primeiro-ministro", afirmou Carlos César, que fez questão de salientar que, da parte do PS, "não há nenhuma mudança na avaliação de uma questão fundamental: a separação entre o que é da justiça e o que é da política".

"O que nós dissemos e continuamos a dizer é que, em circunstâncias que envolvam suspeitas e acusações de atos graves, da parte do PS haverá desde logo e sempre uma preocupação: se se confirmarem essas suspeitas e acusações, aquilo que hoje os portugueses sentem é justamente um entristecimento e um sentimento de revolta. É isso que temos dito e continuamos a dizer", afirmou.

Renato Sampaio lembra "amigo" e "camarada"

O deputado do PS e presidente da concelhia do Porto Renato Sampaio considerou que este "é um dia muito triste" para o Partido Socialista. "Ao contrário de outros, nunca reneguei as minhas amizades, nunca as renegarei em qualquer circunstância, a amizade é um valor que me ensinaram a preservar, José Sócrates é meu amigo e meu camarada", escreveu o deputado no Facebook.

Ascenso Simões: "Aos amigos nunca viro as costas"

Também o deputado socialista Ascenso Simões, que foi secretário de Estado no primeiro governo de Sócrates, comentou o caso do ex-primeiro-ministro para sublinhar que não vira as costas a um amigo. "Desde 2009 que a minha relação com José Sócrates não passa pela coisa política. Mas sempre fui seu amigo e aos amigos nunca viro as costas, mesmo que sinta que uma profunda injustiça me foi dirigida, direta ou indiretamente, em certos momentos dessa amizade", escreve Ascenso Simões na mesma rede social.

"Como amigo e em todas as circunstâncias da vida pessoal, presentes e futuras, ele conta comigo. Não tenho atributos para fazer julgamentos e conceder absolvições. Mas tenho como obsessão ter uma vida tão digna quanto me for possível nas relações centrais com o meu semelhante", concluiu Ascenso Simões.

Isabel Santos pede serenidade ao PS

Também através do Facebook, a deputada socialista Isabel Santos - apoiante do antigo primeiro-ministro - pedi igualmente ao PS serenidade para o Congresso do partido, que se realiza entre os dias 25 e 27 de maio, na Batalha (Leiria). "Não se apagam incêndios com gasolina! O PS necessita de serenidade para enfrentar o congresso que se avizinha. Por isso, até lá, não reagirei. Apenas continuarei a afirmar que Sócrates é meu amigo e camarada e que sempre recusarei linchamentos em praça pública", escreveu.

Daniel Adrião ataca "bullying" de direção socialista

O candidato a secretário-geral do PS Daniel Adrião defendeu que a direção socialista fez uma condenação antecipada de José Sócrates, um ato de "bullying" ao qual o antigo primeiro-ministro "reagiu com grande dignidade" ao desfiliar-se do partido.

"Acho que a direção do PS violou um princípio que vigorava há mais de três anos e que o próprio António Costa tinha instituído: à política o que é da política, à justiça o que é da justiça. Estas declarações recentes romperam com esse princípio e constituem, na minha perspetiva, uma tentativa de condenação política antecipando o desfecho judicial do processo", defendeu Daniel Adrião à Lusa.

O candidato à liderança socialista argumentou que, "a tradição do PS não está no bullying político e José Sócrates foi claramente alvo de um processo de bullying", acrescentando que José Sócrates "reagiu com grande dignidade, porque as acusações que lhe estavam a ser feitas por parte da direção do seu próprio partido não lhe deixaram outra alternativa se não desvincular-se".

João Galamba diz que caso de corrupção "envergonha" socialistas

"Acho que é o sentimento de qualquer socialista, quando vê ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e secretário-geral do PS acusado de corrupção e branqueamento de capitais. Obviamente, envergonha qualquer socialista, sobretudo se as matérias de que é acusado vierem a confirmar-se", afirmou o porta-voz do PS, João Galamba.

Vieira da Silva salienta separação de poderes

O ministro do Trabalho, Vieira da Silva, afirmou que a saída de José Sócratesdo PS é "uma opção individual" e considerou que tanto o partido como o ex-primeiro-ministro distinguiram o PS do processo judicial em curso. Em declarações aos jornalistas à margem da apresentação de um relatório sobre educação de adultos, Vieira da Silva salientou que "o PS é um partido de pessoas livres que emitem as suas opiniões" e que "seria hipocrisia" não admitir que as acusações contra Sócrates "sensibilizam, tocam e preocupam" o partido.

António Campos acusa PS de "julgamentos populares"

O histórico socialista António Campos disse à Lusa compreender o pedido de desfiliação de José Sócrates e condenou a atitude do Partido Socialista, que considera ter entrado em "julgamentos populares".

"É uma atitude que eu condeno veemente porque a democracia não é suportável com julgamentos populares e o partido da liberdade não pode entrar neste tipo de PREC (Processo Revolucionário em Curso). Nós conhecemos os problemas da Primeira República, da ditadura, do PREC após Abril e a entrada do meu partido neste tipo de atitudes antidemocráticas preocupa", sublinhou, acrescentando que Sócrates foi "vítima de violações sistemáticas do estado de direito".

Ana Gomes diz que saída serve "estratégia de vitimização"

"Obviamente que essa carta de Sócrates serve a estratégia de vitimização que ele tem escolhido para fazer face às acusações graves que contra ele pendem, portanto, não é nada de estranho (o pedido de desfiliação)", disse Ana Gomes à Lusa.

Para Ana Gomes, o PS tem agora de refletir e identificar o que falhou nos seus controlos internos e externos "para se credibilizar junto do povo português". "Só espero é que esta atitude de Sócrates facilite e estimule o PS a fazer o exercício de introspeção que é imperativo e que não pode mais ser adiado face ao que se sabe já e ao que ainda não se sabe sobre a teia de corrupção que tinha em Sócrates um ponto central", destacou.