Sinistralidade

Atropelamentos matam oito pessoas por mês

Atropelamentos matam oito pessoas por mês

De 88 para cem: em 2018, aumentou o número de pessoas que morreram, no local do acidente ou a caminho do hospital, por atropelamento.

O saldo final será maior quando for contabilizado quem perdeu a vida nos 30 dias seguintes. Especialistas em segurança rodoviária lamentam a falta de estratégia para resolver um problema que mata meio milhar de pessoas por ano. Em 2018, o número oficial indica que morreram nas estradas 508 pessoas, abaixo das 510 do ano anterior.

Publicado há um ano, o Programa de Proteção Pedonal e de Combate aos Atropelamentos (PPPCA) prevê que, em 2020, esta seja a causa de morte de 84 pessoas (calculada nos 30 dias após o acidente), bem abaixo dos cem mortos no local do acidente reportados quarta-feira pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).

E Manuel João Ramos, da Associação dos Cidadãos Automobilizados, assegura que o número final de mortes ocorridas até um mês após o acidente será superior. Uma vez que um número elevado dos 431 feridos graves por atropelamento acabará por morrer, calcula que "as mortes reais rondem as 160".

A ANSR ainda não publicou as estatísticas das mortes a 30 dias. Para já, só se sabe o número de pessoas que perderam a vida logo no acidente ou a caminho do hospital. E esses dados indicam que, das cem vítimas mortais por atropelamento, 85 envolveram peões, em 14 casos (o dobro face a 2017) o condutor fugiu do local do acidente e uma morte decorreu do atropelamento de um animal.

Balanço, um ano depois

O programa PPPCA foi publicado em 2018. Um ano depois, o JN perguntou ao seu coordenador, João Queiroz (também da Associação Estrada Mais Segura), quantas das medidas lá preconizadas estão no terreno. "Que eu saiba, nenhuma", respondeu. Crítica semelhante é feita ao próprio Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária (PENSE 2020).

Em abril, a ANSR avançou estarem executadas 40% das medidas do PENSE, sem indicar quais. Tanto João Queiroz como Manuel João Ramos afirmam, porém, que as iniciativas têm sido avulsas. "A sinistralidade tem subido ou descido por fatores externos à segurança rodoviária, como a crise económica", assegura Queiroz.

Menos cinco mortes oficiais

O relatório de sinistralidade de 2018 dá conta de 508 pessoas mortas em acidentes - menos do que as 513 apuradas no arranque deste ano. Com esta revisão em baixa, o número de mortos no local ou a caminho do hospital fica abaixo das 510 ocorridas em 2017.

O JN perguntou à ANSR o motivo desta revisão em baixa, mas não teve resposta. Na Guarda, à Lusa, Eduardo Cabrita salientou "uma ligeira redução do número de mortos" em 2018. Classificou os resultados de "moderadamente encorajadores" e reafirmou querer "absoluta intolerância perante práticas de risco". À Lusa, Cabrita disse, também, que este ano morreram menos seis pessoas do que no período homólogo. Todavia, a ANSR mostra que, até 21 de julho, morreram 247 pessoas - exatamente tantas quantas na mesma altura do ano passado.

Em todo o caso, a descida do número de mortos face a 2017 foi desvalorizada por João Queiroz: "Uma subida ou descida de cinco mortes, num cenário em que mais de 500 perdem a vida não é significativa". Sobretudo quando Portugal tinha como meta chegar a 2020 com 399 mortes. O cenário leva Manuel João Ramos a dizer-se "frustrado". "O grau de empenhamento das entidades públicas está próximo do zero absoluto", diz.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Os instrumentos de segurança são usados?

Na larga maioria, sim. A maior parte dos condutores e dos passageiros que morreram no ano passado levava capacete, cinto de segurança ou, no caso de bebés, seguiam dentro de cadeirinhas apropriadas.

É em manobras que morre a maioria?

Não, 287 dos condutores que perderam a vida no ano passado (de um total de 339) seguiam em marcha normal. O desvio brusco ou saída da fila de trânsito matou dez condutores e a mudança de direção e ultrapassagem pela esquerda tiraram a vida a nove pessoas, cada. Cinco morreram parados ou estacionados.

Os condutores mortos estavam legais?

A esmagadora maioria tinha carta de condução apropriada ao veículo que conduzia, mas há exceções: 17 não tinham licença ou carta; cinco tinham um título, mas não apropriado ao veículo em questão; e três tinham a carta caducada ou suspensa. Foram, por outro lado, 18 as pessoas que morreram ao volante de veículos para os quais não é exigida uma carta ou uma licença.

DADOS

Uso de telemóvel será penalizado

Há uma semana, o Governo disse querer mudar o Código da Estrada até outubro para, entre outros, penalizar mais o uso do telemóvel ao volante. Hoje, é uma contraordenação grave, que retira dois pontos à carta.

Bloqueio de sinal não avançou

O Governo chegou a admitir bloquear o sinal de telemóvel nas estradas, mas a hipótese não avançou. A medida, todavia, só resolveria parte do problema, já que os carros estão cada vez mais equipados com ecrãs.

Acelerar tempo de notificação

Ainda nesta legislatura, o Governo quer encurtar o tempo entre a infração e a notificação. Hoje, o processo é tão lento que a pessoa pode cometer o mesmo erro várias vezes antes de receber a primeira multa.

Drones e hélis para controlar velocidade

Foi uma outra hipótese aventada, mas que não se concretiza: utilizar drones ou helicópteros para controlar o excesso de velocidade na estrada.

Inspeções a motos e carta para 125 c.c.

Também nunca avançaram as inspeções obrigatórias para motos e a exigência de carta de condução de moto para conduzir "duas rodas" com 125 centímetros cúbicos.

CASOS

Um casal de idosos foi atropelado, ao final da tarde de ontem, em Valongo, causando ferimentos graves à mulher. O acidente ocorreu às 18.55 horas. A Rua de Alves Saldanha esteve cortada entre Campo e Valongo, nos dois sentidos. Também uma menina de três anos foi atropelada na Costa da Caparica, Almada. Na sequência do acidente, os populares tentaram agredir a condutora.

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