Reportagem

Autocaravanas oferecem cama à porta do Santa Maria

Autocaravanas oferecem cama à porta do Santa Maria

Descontraída, com o filho de dois anos ao colo, Clarissa Kosdra, de 35 anos, sabe que está no sítio certo ao aproximar-se, a pé, de cinco autocaravanas estacionadas perto do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

"Tenho um carro cheio de coisas para doar. Posso estacioná-lo aqui?", pergunta. "Pode, claro", respondem, solícitos, Ricardo Paiágua, de 38 anos, e Manuel Palma, de 25. Minutos depois, é com entusiasmo que ajudam Felipe Kosdra, de 36 anos, a deixar numa carrinha da EMEL, empresa municipal que fiscaliza o estacionamento da capital, dezenas de garrafas de água.

Há menos de uma semana, Paiágua assistiu às imagens de filas de ambulâncias à porta de vários hospitais do país e decidiu lançar o "Cama Solidária". Desde então, não têm parado as doações e o contacto de pessoas a querer participar na iniciativa. O movimento visa disponibilizar, sem pedir qualquer contrapartida, comida e uma cama nas imediações das unidades de saúde aos profissionais da linha da frente que necessitem de descansar ou prefiram não ir dormir a casa.

Mais de 20 já mostraram interesse em beneficiar da ajuda, incluindo no Porto e em Aveiro - menos do que os espaços que o "Cama Solidária" tem disponíveis, segundo o mentor do projeto. São já cerca de 100 habitações e 600 autocaravanas, todas cedidas gratuitamente por terceiros. O objetivo, diz Paiágua ao JN, é que, até ao final da próxima semana, os veículos possam ser deslocados para hospitais públicos e privadas em todos os distritos. Por agora, ainda só há cinco, no Santa Maria.

faltam coordenadores

"Eu não percebo nada de autocaravanas", desabafa, entre risos, o fundador de uma agência criativa, as longas olheiras a mostrar o pouco que tem dormido nos últimos dias. Entre os proprietários que cederam os 600 veículos, prontos a deslocar para onde for necessário, está João Neves, sócio da Vanscape. Com o setor do turismo de rastos, a empresa vai fechar, mas nem por isso quis deixar de ajudar.

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"Sentimos que estamos a colaborar de alguma forma", frisa João Neves, confiante de que as viaturas regressarão em bom estado.

A segurança é, de resto, uma das preocupações de Paiágua, tal como a delegação de tarefas. "Precisamos de coordenadores", admite.

Marta Augusto, de 28 anos, e Gonçalo Pereira, 22, queriam apenas ajudar no que fosse preciso. Mas, após uma visita às autocaravanas estacionadas com a autorização da EMEL perto do Santa Maria, acabaram por ser dirigidos para uma função com maior responsabilidade: coordenar os futuros postos no Hospital Amadora-Sintra e em Cascais.

Entre as tarefas, explica a assistente de bordo desempregada, estão o contacto com as unidades de saúde, a definição da escala de voluntários e a gestão das doações. Para já, só podem ser entregues no posto do Santa Maria. Produtos de higiene e bebidas energéticas são algumas das necessidades.

Inscrições podem ser feitas online

Os interessados em ter uma cama para dormir podem inscrever-se no site Camasolidaria.pt. Basta indicarem o hospital em que trabalham e a partir de quando querem pernoitar. Serão depois contactados pelo projeto. A iniciativa destina-se a médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, polícias e seguranças.

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