Ordem dos Engenheiros Região Norte

Bento Aires: "Com salários tão baixos não há valorização profissional"

Bento Aires: "Com salários tão baixos não há valorização profissional"

Licenciado em Engenharia Civil, Bento Aires é, aos 38 anos, o mais jovem presidente de sempre de uma secção regional da Ordem dos Engenheiros. A partir do Norte, o também empresário defende uma presença mais forte das engenharias na tomada de decisões políticas. Hoje, arrancam em Bragança os Roteiros de Engenharia, para conectar a Ordem com o território.

O lema "Há engenharia em tudo o que há", usado pela OERN, traduz a tentativa de libertar a engenharia de uma ligação excessiva à construção civil?

Esse lema procura ir de encontro ao que chamo a naturalização da engenharia. Hoje, não damos valor ao facto de termos água e energia em casa, mas tudo isso foi trabalho e conquista da engenharia. Já estamos, porém, na fase 2.0 do "Há engenharia em tudo o que há".

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Que é qual?

É dizer que só há futuro onde há engenheiros. É essa mensagem que queremos passar.

Quais são os principais desafios do seu mandato?

Antes de mais, colocar em cima da mesa temas normalmente não identificados com a engenharia. A crise alimentar, por exemplo, é um campo em que a engenharia agronómica tem de ser chamada a pronunciar-se. Da mesma forma, nas soluções para os incêndios florestais há um conjunto de engenharias que têm de ser chamadas.

Não têm sido chamadas?

Têm de ser mais. Temos de conseguir destacar o papel das Ordens enquanto acreditadoras de bons profissionais. Se queremos ter decisões mais transparentes, precisamos de ter profissionais capacitados para praticar esses atos.

Isso não tem acontecido?

Hoje, uma candidatura de um projeto agrícola ao PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) pode ser subscrita por qualquer profissional. Tem de ser um engenheiro. Quando falamos de cibersegurança, não temos profissionais devidamente acreditados na área. Temos de ter mecanismos para regular e capacitar os profissionais que praticam esses atos.

Isso conduzirá à valorização da profissão...

Exatamente. A economia precisa de profissionais com capacidade produtiva para chegar ao desenvolvimento económico.

Há desafios enormes pela frente: digitalização, descarbonização... Está a engenharia portuguesa capaz de lhes responder?

Capacidade instalada temos, mas a engenharia precisa de ser tomada mais em conta nos processos de decisão. Se isso acontecer, teremos decisões políticas muito mais suportadas tecnicamente.

A remuneração de um engenheiro à entrada para o mercado de trabalho não é muito apelativa.

É verdade. O IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional) tem um programa de apoio à entrada no mercado de trabalho com estágios profissionais cujas remunerações andam entre os 750 e os 800 euros. Defendo que a engenharia não deveria ser elegível para esta medida.

Porquê?

Porque devemos deixar o mercado funcionar. Temos carência de profissionais de engenharia. Essa medida é um incentivo a uma má remuneração no início da carreira. É muito bonito falarmos de valorização profissional, mas isso não existe, se as pessoas recebem salários tão baixos.

Qual é o objetivo dos Roteiros de Engenharia?

Ligar a Ordem ao território, fomentando a descentralização. Há um conjunto de novas capacidades que a engenharia está obrigada a ter e que são ainda desconhecidas pela maioria dos profissionais. A partir dos Roteiros, queremos colmatar a falha de mercado desses profissionais, sinalizar as oportunidade e darmos a conhecer o que está a engenharia a fazer para melhorar o nosso dia a dia.

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