praxe académica

Caloira em coma foi enterrada após ter ido ao mar

Caloira em coma foi enterrada após ter ido ao mar

É um novo relato do que parece ser uma prática abusiva de praxe académica. Uma caloira de 19 anos da Universidade do Algarve acabou no hospital, em coma alcoólico, depois de ter sido enterrada na praia de Faro e deixada apenas com a cabeça de fora para ser forçada a beber.

A jovem já teve alta, mas o caso promete não ficar por aí, havendo já garantias de inquérito na instituição, como é, de resto, recomendação da tutela.

O ritual aconteceu anteontem, um dia após o encerramento da Receção ao Caloiro. "A minha filha sabe que entrou na água e estava molhada, mas não se lembra. Não estava habituada a beber", garante o pai da estudante de Biologia. "Está muito abalada", diz Ricardo Galego, que apresentou queixa às autoridades "para que os responsáveis sejam punidos". O reitor abriu um processo de averiguações e pondera responsabilizar disciplinarmente os envolvidos. Já o presidente da Associação Académica (AAUAlg) mostrou-se "disponível para apoiar a aluna e a família".

Os jovens juntaram-se ao início da noite à entrada da praia, seguiram para o areal e deram início à praxe. Levavam sacos com bebidas alcoólicas. Uma testemunha que não quis identificar-se conta que os caloiros recebiam ordens "aos berros", tais como "escava, besta!", para abrirem buracos na praia. Depois, "metiam--se lá dentro e era-lhes atirada areia para cima. Só a cabeça ficava descoberta". Com os braços imobilizados, eram os colegas mais velhos que lhes davam "a bebida à boca".

Perto das 22 horas, a universitária sentiu-se indisposta. A avó, que estava nas imediações, apercebeu-se de que a neta, que vestia apenas o biquíni, estava a ser desenterrada. A espumar pela boca e inconsciente, foi levada de ambulância para o hospital.

Outra testemunha assegura ter visto os mais velhos a ordenar "bebe" e "mergulha" e os mais novos a obedecer. Primeiro do lado da ria, depois na costa. Eram cerca de meia centena, mas "muitos foram-se embora antes da chegada da Polícia, alguns a conduzir", diz Augusta Lopes, amiga da família da vítima. Segundo o comandante da Polícia Marítima, foram identificados seis estudantes do primeiro e terceiro anos do curso de Biologia. "Nenhum revelou estar ali obrigado ou coagido e não foram encontrados, para já, indícios de crime".

O reitor, António Branco, classifica o caso de "lamentável" e mantém a "tolerância zero" a atentados à liberdade e segurança dos novos alunos. E o presidente da AAUalg assume que este ritual "talvez não possa ser considerado normal naquilo que é a praxe social e de integração" e diz ser "preciso averiguar se os alunos estiveram bem ou mal na prática da praxe daquele que é um dos cursos mais prestigiados da UAlg". Contactado pelo JN, o Ministério da Educação e Ciência remeteu para um comunicado emitido em 2014, recomendando a abertura de procedimentos disciplinares a envolvidos e insistindo que nenhuma praxe é obrigatória.

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