Análise

Agora sim, o poucochinho voltou

Agora sim, o poucochinho voltou

Foi poucochinha a participação dos portugueses nestas eleições para o Parlamento Europeu, que António Costa fez questão de nacionalizar ao pedir um voto de confiança no Governo.

Cerca de dois terços dos portugueses não responderam ao apelo. Para um democrata, 45 anos depois de Abril, nenhuma desculpa é aceitável para este nível de abstenção. A desculpabilização é a maior aliada dos populistas e dos extremistas.

O PS voltou a ganhar as eleições como em 2014, mas, considerando as médias das projeções, a margem de vitória de 2019 é inferior à obtida em 2014. Em 2014, o PS enfrentou uma coligação do PSD com o CDS, pelo que a comparação deve ser feita com a soma dos resultados individuais do PSD e do CDS nestas eleições. E a soma dá uma margem inferior ou ligeiramente superior à vantagem de 3,75% obtida em 2014. A vitória não é nem clara nem grande, é menos que poucochinho para quem colocou a fasquia das legislativas na obtenção de uma maioria absoluta. É também poucochinha, porque, em 2014, o PS evoluiu de 26,58% para 31,46%, e agora? Esta é a quarta vez em oito eleições que quem está no poder ganha umas europeias.

O Bloco de Esquerda é o grande vencedor do exercício de suporte do Governo no Parlamento e de demarcação no terreno, obtendo, pelo impulso eleitoral conseguido, um desequilíbrio na solução de governo ao projetar o PCP para um resultado em linha com as últimas eleições autárquicas. O BE sobe mais que o PS. O PCP, através da CDU, perde em toda a linha, perdendo deputados, não invertendo as tendências e sublinhando a ineficiência da ação de protesto.

O PSD e o CDS são os grandes derrotados por não conseguirem esboçar uma força de alternativa, sendo que, no caso do CDS, a ambição de Ícaro enunciada, de ultrapassar o conjunto BE e PCP, obteve resultados confrangedores. Resolvida a ameaça de alternativa à Direita, o PS tem de resolver agora a Esquerda, com o enunciar de um discreto voto útil.

O PAN elege um deputado em linha com a crescente expressão e afirmação de segmentos eleitorais, uns benignos, outros preocupantes.

Não será difícil antever que o conjunto dos votos brancos e nulos dariam para eleger eurodeputados.