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"Arriscam-se a ser as eleições mais europeias de sempre", diz doutoranda

"Arriscam-se a ser as eleições mais europeias de sempre", diz doutoranda

"Se há algo de positivo na ascensão dos movimentos eurocéticos é o facto de eles contribuírem para a politização da União Europeia (UE) e dos temas da integração europeia. E esse é, porventura, o maior impacto deles nas próximas eleições europeias. Eu diria, até, que estas arriscam-se a ser as eleições mais europeias de sempre. Os partidos mais extremistas obrigam a que se fale da UE. O que acarreta outro tipo de impactos a nível político e institucional".

O desassombro analítico sobre o escrutínio para o Parlamento Europeu - que decorre de 23 a 26 de maio - é de Catarina Silva, doutoranda em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade do Minho e colaboradora do Centro de Investigação em Ciência Política da universidade.

Isto porque "a ascensão dos partidos mais extremistas criou a primeira abertura real para transformar a campanha eleitoral num debate verdadeiramente transnacional sobre o futuro da Europa. Além disso, estes partidos forçam o debate sobre as prioridades da União Europeia. Enquanto a direita radical se foca quase exclusivamente na migração, porque é assim que consegue mobilizar melhor os seus eleitores, os adversários pró-europeus precisam de combater a "política do medo" através de plataformas eleitorais baseadas nos princípios liberais e assentes noutros temas além da migração".

Direita versus esquerda

Entre as forças partidárias de extrema-direita mais capazes de discutir lugares no Parlamento Europeu, Catarina Silva destaca, sobretudo, a Liga, de Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e ministro do interior italiano, e a francesa União Nacional, de Marine Le Pen, que talvez "consigam eleger mais de 20 membros. Além disso, é provável que a Alternativa para a Alemanha fique acima dos dez eleitos". Os austríacos do FPO, o PVV, na Holanda, ou o SD, na Suécia, e, porventura, o VOX, em Espanha [elegeu 24 deputados no domingo], "poderão, eventualmente, ficar bem colocados".

Com a preponderância da contestação ao projeto europeu nas mãos da extrema- direita, qual o peso e o papel da esquerda radical? "Está a tornar-se no principal desafio para os partidos sociais-democratas. Em grande parte, porque apresenta-se como defensora dos valores e políticas que os sociais-democratas supostamente abandonaram. Os partidos de extrema-esquerda mais bem-sucedidos são-no especialmente no sul da Europa, no contexto da crise da Zona Euro, e, sobretudo, pelo facto de se revelarem partidos pragmáticos, identitários, geralmente com líderes carismáticos - por exemplo, o Podemos, em Espanha, com Pablo Iglésias, ou a França Insubmissa, com Jean-Luc Mélenchon. As estratégias deles passam pela defesa do ecosocialismo, que enfatiza as preocupações pós-materialistas e a mobilização populista antielite."

Sobre a relevância das eleições do próximo mês, Catarina Silva não hesita: são as mais importantes desde as primeiras, em 1979. "A UE sai do pano de fundo das crises da Zona Euro e da migração, que marcaram as eleições de 2014, para a incerteza do Brexit, nestas. Desde há 40 anos que as eleições europeias são tidas como eleições de segunda. A abstenção tem aumentado de eleição para eleição. Internamente, muitas vezes, as preocupações nacionais acabam por dominar os temas da campanha europeia e o que deveria ter sido uma discussão sobre o papel/futuro da UE acaba por ser mais um mecanismo de cobrança aos governos nacionais."

Então, "são as mais importantes porque haverá um maior escrutínio sobre o funcionamento e a capacidade da UE para lidar com os desafios correntes. Por um lado, o êxito eleitoral das forças extremistas e eurocéticas ameaça a estabilidade do Parlamento Europeu. Por outro, significa uma derrota política da União Europeia, que ainda não conseguiu restaurar a sua imagem e posição junto dos europeus".