Europeias

Os vencedores e vencidos da noite eleitoral

Os vencedores e vencidos da noite eleitoral

Com uma escolha pouco afinada do cabeça de lista e uma pré-campanha que parecia acusar o desgaste do final de ciclo governativo, o primeiro-ministro é o rosto da vitória socialista. Não apenas pela forma como se empenhou pessoalmente na campanha, mas sobretudo porque a sua jogada de tudo ou nada, em reação à coligação negativa formada no Parlamento para aprovar a contabilização integral do tempo de serviço dos professores, acabou por ser decisiva na campanha. Uma jogada que tirou a Europa de cena e anulou a recuperação que o PSD vinha mostrando nas sondagens. Em valor global até pode parecer poucochinho, recuperando a sua própria expressão, mas significou a conquista de uma vitória rara, em europeias, para quem está no poder.

A popularidade da candidata bloquista era um dado adquirido desde os 479 mil votos conseguidos na corrida às presidenciais. O tom intimista da campanha voltou a deixar antever uma boa recetividade e o resultado final comprova-a. É certo que a votação expressiva é do Bloco de Esquerda e Catarina Martins pode reivindicar a subida a terceira força política nacional - lugar que terá de defender nas legislativas, com outras contas a fazer às configurações possíveis no poder. Mas não é menos certo que há neste resultado um mérito indiscutível da candidata que, tendo passado os últimos anos sozinha a defender o partido na Europa, conseguiu passar com eficácia propostas e mensagens sobre o seu trabalho. Agora acompanhada, promete devolver em trabalho a responsabilidade acrescida.

Como líder do PAN é o rosto do grande crescimento do partido. Mas o resultado não é sequer mérito da sua liderança ou do candidato, Francisco Guerreiro, que irá estrear-se nas lides europeias. Como os próprios reconheceram, é a consequência de uma identificação crescente dos portugueses com partidos alternativos e sobretudo com causas ambientais e de defesa dos animais. A confirmar-se em outubro, nas legislativas, este crescimento coloca o PAN quase a par do CDS-PP, com um peso que pode fazer diferença nas contas de governos minoritários. Num país em que tem sido tão difícil a perda de hegemonia dos partidos tradicionais e a afirmação de novas formações, a rapidez com que o PAN tem vindo a conquistar votos é um feito assinalável.

Numa votação crucial para ganhar fôlego rumo às legislativas, o PSD perde em toda a linha. E será impossível medir o impacto que a gestão desastrosa da crise em torno dos professores teve neste desfecho, com Rio a somar justificações pouco claras e desacertos com a bancada parlamentar (mais uma vez). Paulo Rangel, cabeça de lista com experiência e peso político, contribuiu com gafes escusadas, com a referência ao "voto fútil" à cabeça. Mas a responsabilidade maior é de Rio, que na sua habitual frontalidade não usou panos quentes na hora de assumir a derrota. Com o partido em ebulição desde o início, assume que será difícil enfrentar a próxima campanha neste clima. Resta saber até quando resiste.

Ao lado de Nuno Melo, assumiu-se como uma das derrotadas da noite. Em número de eurodeputados a representação é exatamente a mesma, mas nada pode esconder o quanto os votos ficam muito aquém da sua ambição. Longe de se afirmar como alternativa para liderar a Direita, vê o PAN aproximar-se perigosamente do seu nível de votação e parte fragilizada para a corrida decisiva das legislativas. A confirmar-se o fraco desempenho do partido, é a sua liderança que começa a estar em causa. Nuno Melo fez uma campanha desastrosa, com intervenções que obrigaram Assunção Cristas a vir a terreiro tentar emendar a mão. Com pouco tempo para recuperar o ritmo combativo, os centristas terão nos próximos meses uma prova de fogo.

A descida em relação às últimas europeias poderá ser pontual, até porque em 2014 o PCP conquistou terreno ao Bloco de Esquerda, voltando desta vez a inverter-se posições. Mas já nas últimas autárquicas os resultados foram penalizadores para o partido. Nesta altura do campeonato, os comunistas estarão a fazer contas à vida e aos custos de terem sustentado o Governo de António Costa. Com um eleitorado habitualmente sólido e que resiste bem à abstenção, o PCP terá de demonstrar nas eleições de outubro se os últimos resultados foram pontuais ou se está efetivamente a perder terreno à Esquerda. O confronto com o Bloco de Esquerda será um dos duelos interessantes a seguir nas legislativas que aí vêm...

Se há cinco anos surpreendeu com a conquista de dois mandatos para o MPT (partido pelo qual então concorreu), agora fica-se, sem surpresas, por um resultado modesto que põe um ponto final na sua aventura europeia. Desgastado por sucessivas polémicas, perde a capa de alegado justiceiro com que em 2014 conquistou eleitores.

A Aliança é um partido unipessoal e era grande a expectativa de perceber o quanto vale o nome e a imagem do antigo autarca e primeiro-ministro. Fica longe do objetivo de eleger um eurodeputado e dá sinais de ter pouca energia para beliscar os partidos tradicionais e pulverizar os resultados à Direita.