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André Ventura: Admirador de Matteo Salvini, quer quebrar a III República

André Ventura: Admirador de Matteo Salvini, quer quebrar a III República

Evita a definição ideológica óbvia, que o coloca na extrema-direita. Prefere dizer-se "antissistema ou politicamente incorreto" e convoca o exemplo de Matteo Salvini, o político italiano que diz admirar "profundamente".

Porquê? "Porque não teme apontar o dedo a quem vive à conta do Estado e às minorias que dele se aproveitam, e porque teve a coragem de quebrar o sistema". Prevê de resto um destino comum - "hei de quebrar o sistema político português, acabar com a III República e iniciar uma outra, demore o tempo que demorar".

A consistência do presidente do Chega levanta dúvidas. "Acho que não acredita em 90% das coisas que diz, o que é um elogio", afirma João Miguel Tavares. Na opinião do comentador e jornalista situado à Direita, tudo em Ventura é "demasiado calculado e teatral". Uma figura "com muita ambição pessoal e teatrinho, um oportunista a pensar num nicho de mercado". Para melhores resultados "falta-lhe a imigração. Os ciganos não são em número suficiente", defende o cronista.

Ventura concorda: "Não temos os níveis de imigração, mas temos o funcionamento vergonhoso da justiça". Defende a prisão perpétua e, pegando na campanha à Câmara de Loures, declara-se "o único político depois do 25 de Abril a sair da esfera do politicamente correto". José Pinto Coelho, líder do PNR, considera-o um dos "seus". "Chamem-me o que quiserem. É-me indiferente", diz Ventura aos que o consideram racista e xenófobo.

Tempo houve em que a missão era a escrita. A estreia ficcional - "Montenegro" (2008) - conta a vida de Luís Montenegro, "nome escolhido ao acaso, garanto", um ciclista em luta contra o HIV e "a incomensurável estupidez que gera preconceitos dificilmente removíveis", lê-se no site de promoção do livro, inspirado num amigo que teve a doença. Até então, dificilmente se adivinhava o discurso extremista do dirigente. "Nesses anos, o radicalismo tinha a ver com a descoberta de Deus". Na verdade, até se apaixonar, "quis muito ser padre".

Vem do seminário e da Faculdade de Direito a amizade com Daniel Pereira. "O André é um irmão, uma pessoa muito inteligente e generosa, que sempre gostou de marcar posição e de lutar por bons resultados".

Fã de Reagan e de Passos Coelho, adorador de Lance Armstrong - "quando descobri que se dopava, chorei e essa foi a única vez que chorei em adulto" -, Ventura confessa que lida mal com o fracasso. O amigo tem fé: "Vejo-o primeiro-ministro ou presidente da República".

A segunda obra ficcional "aborda o Islão", e esteve suspensa devido "a ameaças fundamentalistas". Na Net, houve quem o comparasse a Salman Rushdie.

Adepto incondicional de desporto, especialmente de ciclismo (o pai tinha um pequeno negócio de peças para bicicletas), escreveu um livro, com a "taróloga" Maya, sobre o clube do coração - o Benfica. Vive com ele uma coelha chamada Acácia.

Presidente do Chega

36 anos

Natural de Algueirão, Sintra

Licenciatura em Direito pela Universidade Nova de Lisboa. Doutoramento pela National University of Ireland

É acrofóbico (ou "larofóbico"), ou seja, tem pânico de altura. Por isso, evita edifícios e escadarias altas, estradas e caminhos de montanha. "À medida que subo, começo a ficar com vertigens cada vez mais violentas".

Deita-se tarde e levanta-se cedo (oito da manhã) porque "bastam-me cinco horas de sono". "Acorda sempre bem disposto", diz o amigo Daniel Pereira. Apesar de raramente acordar em cima da hora, é "um atrasado crónico".

Ao longo do dia, não dispensa os espelhos. Sobretudo, "para verificar o nó da gravata - a par com os livros, são os seus presentes favoritos - e confirmar se o cabelo está bem ajeitado", diz um amigo