Covid-19

Cansaço e desinformação fazem aumentar protestos contra medidas restritivas

Cansaço e desinformação fazem aumentar protestos contra medidas restritivas

Desconfiança nas instituições, ciência e Comunicação Social é "trilogia para o desastre". Discurso político "infantiliza" portugueses e arrisca aumentar desesperança no futuro.

Os portugueses, cansados da pandemia e das restrições impostas para a controlar, são campo fértil para teorias da conspiração e negacionistas. A desconfiança face às instituições políticas, ao conhecimento científico e aos jornalistas cria uma trilogia para o desastre que pode desembocar numa revolta popular, como as que se repetem pela Europa - sobretudo se o Estado não sair em defesa de quem se vê sem emprego e sem esperança.

Viriato Soromenho Marques, da Faculdade de Letras de Lisboa, e Tiago Correia, do ISCTE, não encontram sinais de que protestos como os do fim de semana se possam tornar violentos. Mas não o excluem.

"Depende da evolução da pandemia. Se as medidas de restrição endurecerem, admito uma subida da contestação", diz Tiago Correia. Sobretudo se o desemprego e a falta de perspetiva para o futuro forem a regra. "Se o Governo não apoiar as pessoas, pode haver uma explosão social", adverte Viriato Soromenho Marques.

Instruídos e iliterados

A existir, uma revolta violenta seria o culminar dos sintomas que já sinalizam o cansaço com que os portugueses encaram a pandemia e o consequente desrespeito por medidas de controlo.

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Carvalho da Silva, da Universidade de Coimbra, salienta o impacto que os limites ao contacto social estão a ter sobre os adolescentes e jovens e sobre os idosos: "Estão num sofrimento enorme". Mas o impacto do confinamento na saúde mental dos portugueses, de todas as idades, não está a ser estudado nem tratado. "Há uma escuridão sobre a realidade objetiva em que vivemos", aponta.

Ansiedade, depressão, angústia são sinais de fadiga pandémica, de cansaço com tudo o que está ligado à covid-19. As pessoas afastam-se das notícias dos jornais, rádios e televisões - mas não das redes sociais. E aí proliferam teorias da conspiração e negacionistas.

Tratar como crianças

Tiago Correia nota o paradoxo: "Antes, éramos iliterados porque tínhamos baixa escolaridade. Hoje, somos instruídos, mas a iliteracia continua!". O descrédito nas instituições já tinha incentivado o populismo. Agora, soma-se a desconfiança da ciência e dos média. "É uma trilogia para o desastre", diz Tiago Correia.

A descrença combate-se com informação e verdade, mas Governo e presidente da República infantilizam os portugueses. Acenar com o Natal para que as pessoas cumpram as regras é "tratá-las como crianças", atira Soromenho Marques. "É muito imprudente", soma Tiago Correia.

Ambos recomendam uma nova política de comunicação. "Quando os governos falam verdade, as pessoas superam-se", assevera Soromenho Marques. Em causa está "uma maratona e não os 100 metros", diz Tiago Correia, que recomenda a António Costa que escolha um novo rosto, sem ligações políticas marcadas, para falar aos portugueses - como o do presidente do Conselho Nacional de Saúde, Henrique Barros.

Desconstruir esperança em demasia na vacina

O discurso público deposita muitas esperanças nas vacinas, mas esta pode ser uma falsa esperança, alertam Soromenho Marques e Tiago Correia. A vacina não é uma solução milagrosa: será necessário muito tempo para imunizar o número suficiente de pessoas e poderá ter efeitos secundários não previstos. Tiago Correia tem a inquietude, mas não a solução: como preparar os portugueses para as dificuldades que continuarão a existir mesmo com a vacina, sem lhes tirar esperança no futuro?

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