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Tábua

Casal morreu a tentar fugir de casa que ficou intacta

Casal morreu a tentar fugir de casa que ficou intacta

Idosos saíram de carro para a rua mas o fumo desorientou-os. Os corpos foram encontrados a 200 metros da residência

O carro de António, de 75 anos, e Hermínia Pereira, de 65, é sinal evidente do rasto de destruição deixado pelo fogo na Quinta da Barroca, em Tábua. O casal saiu de casa a seguir ao filho no domingo à noite, para fugir às chamas, mas o fumo desorientou-os. Os corpos foram encontrados por vizinhos às 5.30 horas da madrugada, a cerca de 200 metros de casa, que ficou intacta. "Ela estava toda dobrada. Ele estava uns metros atrás, deitado", conta ao JN Maria da Assunção, que mora perto. O filho, que trabalha em Seia, conseguiu escapar e protegeu-se no Pavilhão Multiusos de Tábua.

O casal está entre as 41 vítimas mortais dos incêndios de domingo. A poucos quilómetros de distância, em Cabeçadas, Oliveira do Hospital, foi encontrado ontem mais um corpo: o de uma mulher de 54 anos, que foi ao pinhal procurar o marido e o filho e de lá não conseguiu sair. Na aldeia e terras circundantes, lamentam-se os prejuízos.

"Arderam-me quintas, material de agricultura, mas a minha maior preocupação é o trabalho. A empresa onde trabalho ardeu e não sei como vou seguir com a minha vida", lamenta Luís Ribeiro. Regressou recentemente a Portugal, depois de oito anos na Suíça. Arranjou emprego numa empresa de distribuição de fruta, que agora foi destruída. "Eles não vão ter capacidade para me pagar", conta.

Três dias depois dos incêndios, são bem evidentes os sinais de destruição nos concelhos de Tábua e Oliveira do Hospital, locais onde houve um total de 12 mortos. Há carros carbonizados, culturas destruídas, edifícios e espaços de negócio em ruínas. Como é o caso da discoteca Espíritos Club, em Oliveira do Hospital, um espaço noturno icónico na Região Centro que funcionava num edifício com cerca de 200 anos. "Havia fogo dos dois lados. Não havia nada a fazer e não conseguimos recuperar material nenhum", revela Andreia Silva, da gerência da discoteca, lamentando a forma como o espaço fechou portas, 12 anos depois de ter sido inaugurado. "Vamos ver com o dono do imóvel o que é ainda possível fazer", completa Andreia.

Arganil

Adelino Almeida, presidente da União das Freguesias de Cerdeira e Moura da Serra, em Arganil, perdeu dois familiares no fogo: o irmão, Fernando Almeida, de 58 anos, e um primo, António Almeida, de 71. O primeiro morreu em Cerdeira, ao tentar salvar os animais, e o segundo em Portela da Cerdeira, quando procurava proteger o carro. "Cerca das 22 horas de domingo, foi aqui um inferno", descreveu o autarca. "Até o suporte do sino da igreja começou a arder". O fogo estava a toda a volta, as pessoas gritavam. Arderam casas, incluindo uma primeira habitação, mas o pior foram as mortes.

"O meu irmão foi para salvar as cabras que tinha na parte de baixo da povoação. A esposa safou-se, com duas cabras; ele ficou lá com outras duas", contou Adelino, adiantando que Fernando, que deixa uma filha e uma neta de dois anos, estava reformado por deficiência visual. A mulher do falecido, Fátima Almeida, ainda sofreu queimaduras num braço. "Vim embora a correr e já não o vi mais. Ficou no curral, não conseguiu sair", relatou, emocionada.

Já António Almeida, reformado que voltara à terra após anos a residir em Lisboa, tinha ido a uma quinta, na Portela da Cerdeira, defender os bens. Deixara o automóvel à beira de um estradão e tentou salvá-lo das chamas. Acabou por morrer no caminho, a 200 metros da quinta. O veículo escapou às chamas. Em Vinhó, houve ainda uma vítima indireta do fogo, segundo Adelino: um homem que estava doente e que, "com a aflição do incêndio, acabou por falecer". Fausto Lopes, irmão do deputado do PCP Francisco Lopes, tinha cerca de 60 anos. "O meu marido bateu à porta, chamou, chamou", mas "ele não falou", contou ao JN Maria José Ferreira, na localidade de Poços, São Martinho da Cortiça, referindo-se a Arlindo dos Santos Marques, outra vítima mortal do incêndio. O homem, reformado, voltara à casa dos avós depois de trabalhar em França e Luxemburgo. Segundo a vizinhança, teria 66 anos, e estaria a dormir na madrugada de segunda-feira, quando o fogo atingiu a residência, que reconstruíra e onde morava sozinho.

Tondela

A placa que anuncia a freguesia de Lageosa do Dão passou de branco a preto, a mesma cor de dezenas de postes e fios de eletricidade, tombados na estrada que liga a Tondela. Ali, a floresta passou de verde a preto e ainda fumega. O fogo chegou à freguesia no domingo, destruiu casas, alfaias agrícolas e entrou pelas traseiras da farmácia, a única da freguesia e que serve outras vizinhas, num total de 3000 utentes. "Temos um prejuízo de 120 mil euros", contabiliza o proprietário, Hugo Ângelo, que já encontrou remédio, ainda que provisório. A farmácia vai estar a funcionar, em pleno, a partir de hoje, na sede da Junta de Freguesia , que cedeu instalações gratuitamente.

"Não podíamos deixar os utentes sem medicamentos e este é o meu ganha-pão", afirma Hugo, que pensou mais depressa numa solução do que em processar a tragédia. Os populares tentaram avisá-lo às duas da manhã, mas as comunicações cortadas não deixaram. A água era pouca e os bombeiros só conseguiram ter estrada por volta das dez da manhã. Hugo ainda salvou servidores e computadores portáteis e o dinheiro que estava no cofre. O resto ficou derretido.

No concelho de Tondela, o incêndio tirou a vida a cinco pessoas e vão ser necessários vários dias para fazer contas aos prejuízos materiais, adianta José António Jesus, presidente da Câmara de Tondela. "Arderam muitas casas de habitação e de apoio agrícola, empresas, aviários", realça o autarca. Em Adiça, às portas da cidade de Tondela, arderam 58 carros do stand "Real Norma", revela o proprietário, Rui Custódio, que além de avançar com este número, nada mais quer dizer sobre o assunto. Nazaré Rodrigues, vizinha da frente do stand, presenciou quando o fogo chegou aos automóveis. "Parecia um filme", descreve. "Foi um furacão de lume, as chamas pareciam que traziam gasolina e quando atingiam os carros, estes explodiam e iam ao ar", relata.

"Não deitem as culpas a ninguém, este fogo não se vencia", afirma em jeito de apelo a moradora que perdeu um salão de cabeleireiro.