Saúde

Centenário da gripe espanhola, que de Espanha só tem o nome

Centenário da gripe espanhola, que de Espanha só tem o nome

A chamada "gripe espanhola" não começou em Espanha e apenas ficou com esse nome porque o país foi neutral na Primeira Grande Guerra e ao contrário dos beligerantes não ocultava a informação sobre os mortos com a enfermidade.

O departamento de epidemiologia do Instituto de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) está a recalcular, a partir de fontes primárias, os dados de mortalidade da "gripe espanhola", em 1918, para apurar como esta atingiu Portugal em cada distrito.

O anúncio foi feito por Helena Rebelo de Andrade, virologista e diretora do Museu da Saúde, a propósito do centenário da gripe espanhola, também conhecida por pneumónica, que terá causado entre 50 a 100 milhões de mortos em todo o mundo, das quais entre 50 mil a 70 mil em Portugal.

A pandemia teve esse nome porque apareceu quando se estava no auge dessa guerra, com os principais países em confronto, Alemanha, Áustria, França, Reino Unido e Estados Unidos, a suprimir toda a informação sobre o alcance da doença para evitar desanimar a sua população com notícias de mortos.

A Espanha era um país neutral, sem necessidade de ocultar essa informação, o que, segundo o catedrático de Microbiologia da Universidade de Navarra Ignacio López-Góni dava "a impressão completamente errónea" de que o país foi o mais castigado ou que tenha sido aí que a doença começou.

A primeira notícia sobre a doença apareceu em 22 de maio de 1918 no jornal madrileno El Sol.

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Os países que na altura estavam em guerra censuravam as notícias para não desmoralizar as suas tropas e, enquanto aí os artigos sobre o conflito dominavam os títulos de primeira página, em Espanha também se noticiava a epidemia de gripe que estava a matar muitas pessoas.

"É muito provável que a epidemia tenha chegado desde França e podia depois ter chegado a Portugal", disse Ignacio López-Góni, confessando, no entanto, que não tem "informação precisa" sobre essa questão.

Há várias teorias sobre o local onde começou a doença: na base militar de Etables, na costa norte de França; trazida por soldados indochineses (Vietname, Laos e Camboja) que lutaram em França entre 1916 e 1918; ou num acampamento militar no Kansas (Estados Unidos da América) entre militares que depois viajaram para a Europa.

A guerra pode ter afetado o desenvolvimento da doença porque a concentração de milhões de soldados criou as condições ideais para o desenvolvimento de estirpes de vírus mais agressivos e facilitou a sua propagação pelo planeta, segundo o estudioso.

"Não sabemos exatamente qual foi o impacto que teve a gripe no resultado da Primeira Grande Guerra", explica López-Góni.

Os historiadores estão convencidos que morreram entre 50 a 100 milhões de pessoas com a doença, o que representa até cerca de 5% da população mundial, tendo sido contagiadas cerca de 500 milhões de pessoas.

Calcula-se que esta gripe matou mais pessoas em 25 semanas do que a sida em 25 anos, assim como mais pessoas faleceram num ano do que num século, durante a peste ocorrida na idade média.

Houve "muito mais mortes [pela doença] do que em toda a Primeira Grande Guerra", resumiu o professor catedrático.

O vírus da gripe de 1918 foi 25 vezes mais mortal do que outros vírus idênticos e uma das suas características foi a sua alta mortalidade entre as pessoas jovens com idade entre 20 e 40 anos.

"Os seus efeitos foram devastadores, matava rapidamente, em apenas dois ou três dias, e com sintomas hemorrágicos" (coagulação anormal e hemorragia contínua), explicou Ignacio López-Góni, acrescentando que, na altura, não se sabia que pequenas alterações ou mutações eram suficientes para fazer com que um vírus de gripe se transmitisse entre mamíferos pelo ar.

Fontes diferentes e com um grau de autenticidade difícil de assegurar indicam que só na China teriam morrido cerca de 30 milhões de pessoas com esta gripe, enquanto, nos Estados Unidos da América, cerca de 28% da população foi infetada, tendo morrido entre 500 mil e 675 mil pessoas.

Na Europa teriam morrido 250 mil pessoas no Reino Unido, 200 mil a 300 mil em Espanha (1% da população), o dobro destes números em Itália e em França e entre 50 mil e 70 mil em Portugal.

Por outro lado, na Índia britânica podem ter morrido 10 milhões a 17 milhões de doentes.

"A situação atual é muito diferente da de 1918 e devido a isso a possibilidade de aparecer uma pandemia de gripe tão devastadora é improvável, apesar de não ser impossível", sublinhou Ignacio López-Góni.

O especialista em microbiologia alerta que "em ciência o risco zero não existe", mas a capacidade de investigação dos humanos, o conhecimento adquirido, as condições sanitárias e higiénicas da população, a existência de antibióticos, as vacinas e os antigripais fazem com que a situação atual seja "muito diferente" da de 1918.

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito armado à escala global centrado na Europa, que começou em 28 de julho de 1914 e durou até 11 de novembro de 1918.

O conflito envolveu as grandes potências de todo o mundo: de um lado estavam os aliados (liderados pelo Reino Unido, França e Império Russo) e do outro os Impérios Centrais (Alemanha e Áustria-Hungria).

Portugal fazia parte dos aliados e enviou tropas que combateram em França.

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