Incêndios

Hino, lágrimas e silêncio em dia de manifestações em todo o país

Hino, lágrimas e silêncio em dia de manifestações em todo o país

Milhares saíram à rua em todo o país, este sábado, em protesto contra as políticas florestais, na sequência dos trágicos incêndios de junho e outubro.

No Porto, Coimbra, Lisboa, Viseu ou Viana do Castelo foram palco para milhares de pessoas, que quiseram homenagear também as vítimas dos incêndios e o trabalho dos bombeiros.

A "Manifestação silenciosa: Portugal contra os incêndios" decorreu este sábado, na Avenida dos Aliados, no Porto, e contou com a presença de cerca de 500 pessoas que, através de mensagens escritas em cartazes, expressaram a solidariedade a favor das 44 vítimas mortais dos fogos.

Palavras como "Basta!", "Incêndios são da culpa do Governo" ou "Incêndios = Terrorismo", escritas em cartolina ou tecido, foram levantadas, à medida que a multidão se juntava em frente à Câmara Municipal do Porto.

Apesar de ser silenciosa, várias foram as pessoas que, de bandeira de Portugal na mão, se juntaram num círculo e aproveitaram a ocasião para colocarem em causa a falta de recursos para o combate aos incêndios e a necessidade de reestruturar as políticas de ordenamento do território. A cada pergunta lançada, a multidão aplaudiu os intervenientes anónimos.

Sara Sena

No início da manifestação em Lisboa, houve alguns momentos de tensão entre os participantes. Dois manifestantes exibiram um cartaz que atribuía responsabilidades pelas mortes deste ano nos fogos não só ao atual governo, como ao anterior executivo, liderado pelo PSD/CDS-PP.

Numa iniciativa assumida como apartidária, alguns manifestantes não gostaram de ver as referências aos partidos políticos e insurgiram-se, com agressividade física e verbal e tentativas de retirar o cartaz aos dois homens. A intervenção da PSP permitiu separar os manifestantes e acalmar os ânimos.

A manifestação, que ocupou parte do Terreiro do Paço, reuniu cerca de cinco mil pessoas, entre elas familiares de vítimas que morreram nos incêndios de Pedrógão Grande e pessoas que viveram de perto os fogos do último fim de semana. Às 17.30 horas cumpriu-se um minuto de silêncio em memória das vítimas.

Catarina Cruz

Dezenas de pessoas deram as mãos, formaram uma roda e cantaram o hino nacional, na Praça da República, em Viana do Castelo, pela floresta portuguesa.

A manifestação pacífica foi o resultado da convocação de três eventos diferentes para aquela cidade nas redes sociais, e que acabaram por se juntar num só.

Ana Peixoto Fernandes

Cerca de um milhar de pessoas aderiram ao protesto "Portugal contra os incêndios", em Braga. Mobilização iniciou na Avenida Central e terminou na Praça do Município, onde se cantou o hino nacional.

"A floresta está a arder e o povo a sofrer" e "bombeiro, amigo, o povo está contigo" foram algumas das palavras de ordem ouvidas. Os manifestantes, munidos de bandeiras de Portugal, cartazes e faixas, pediram medidas de prevenção contra os fogos.

Sandra Freitas

Cerca de 300 pessoas concentraram-se na Praça 8 de Maio, junto à Câmara Municipal de Coimbra, em memória pelas vítimas dos incêndios.

Para além do hino nacional e de algumas intervenções, circulou uma petição, organizada por um grupo de cidadãos, a pedir mais apoio aos bombeiros, a integração de todos os sistemas de comunicação de emergência na esfera estatal, o combate à monocultura do eucalipto e o fim dos contratos privados de combate aos incêndios, criando meios para que a Força Aérea e outras forças militares estejam ao serviço do combate e prevenção de fogos.

A ex-ministra da Educação e Ciência, Margarida Mano, o ex-presidente da Câmara Municipal de Coimbra, João Paulo Barbosa de Melo, e o músico José Rebola (vocalista dos Anaquim) foram alguns dos manifestantes presentes.

João Pedro Campos

Em Aveiro, centenas de pessoas juntaram-se em frente ao cais da Fonte Nova e rumaram depois até aos quartéis dos bombeiros velhos e novos de Aveiro.

Quiseram expressar o seu reconhecimento pelo trabalho dos bombeiros e manifestar solidariedade para com as vítimas dos fogos. Leram poemas, gritaram palavras de ordem e recolheram donativos para os bombeiros.

Zulay Costa

Cerca de uma centena de pessoas juntou-se, este sábado, na Praça do Município, em Vila Real, para fazer um cordão humano de homenagem aos bombeiros e às vítimas dos incêndios deste ano.

Além da manifestação silenciosa, muitos foram aqueles que fizeram doação de alimentos e entregaram roupas para dar às pessoas afetadas pelos incêndios desta semana. Durante a manifestação, "pacífica e apartidária", como a organização fez questão de frisar, foi ainda lido um poema de homenagem à bravura dos bombeiros, e questionaram-se os motivos de haver tantos incêndios e com consequências tão graves.

Sandra Borges

Dezenas de brigantinos juntaram-se esta tarde de sábado na Praça das Sé, em Bragança, para participar na caminhada solidária 'Mais Fogos Não!', organizada por um movimento de cidadãos.

"É impossível ficar indiferente ao que tem vindo a acontecer desde há alguns meses para cá, seja à tragédia dos incêndios ou ao facto de não chover há meses (que também é uma tragédia)", referiu Paulo Mafra, um dos organizadores da manifestação.

Os escuteiros do Agrupamento XVIII não só compareceram como distribuíram bolotas de carvalho por todos os que aderiram à caminhada para de uma forma simbólica mostrar que as zonas afetadas pelos incêndios "vão renascer das cinzas", explicou Miguel Salgado, chefe daquele agrupamento de escuteiros.
A caminhada solidária "Mais Fogos Não!" está coordenada com uma outra que foi marcada para o mesmo dia e à mesma hora de forma espontânea por várias pessoas nas redes sociais. Também uma equipa de bombeiros da corporação de Bragança marcou presença na marcha "por se tratar de uma iniciativa que contribuiu para a prevenção dos incêndios e é também um alento que a população nos dá por estar ao nosso lado", disse José Paulo, sub-chefe dos Bombeiros de Bragança.

Glória Lopes

O rossio de Viseu encheu esta tarde com centenas de pessoas, que se manifestaram contra os incêndios e as políticas florestais e fizeram também um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos fogos.

No protesto, carregado de emoção e muitas palmas, os bombeiros, que também foram homenageados com uma forte salva de palmas e rosas brancas, não conseguiram segurar as lágrimas.

Várias pessoas empunhavam cartazes, uns a lembrarem o número de vítimas, outros a chamar a atenção para a necessidade de ações preventivas contra os incêndios.

Durante o discurso, Paulo Pinheiro, que deu voz ao protesto, sublinhou que se tratou de uma iniciativa organizada nas redes sociais e por grupos de cidadãos.

"O flagelo dos incêndios, em conjunto com a corrupção, é talvez um dos maiores problemas de Portugal. É um problema social, de saúde, económico, ecológico, ambiental , de imagem e de dignidade e não é tomado como um dos principais problemas de Portugal", afirmou, exigindo medidas de prevenção.

Sandra Ferreira

Um cordão humano, constituído por milhares de pessoas unidas pelas mãos e por uma causa, estendeu-se esta tarde por vários quilómetros da Estrada Atlântica, no concelho da Marinha Grande, para exigir a reflorestação do Pinhal de Leiria, prestar homenagem aos bombeiros e mostrar um "cartão vermelho" aos governantes pela forma como têm gerido as florestas nacionais.

"Se tivesse havido manutenção e limpeza na mata hoje não estávamos aqui. Este ano, nem o musgo para os presépios podemos apanhar no Pinhal de Leiria, porque até isso ardeu", queixou-se Joaquim Santos, 67 anos, residente Monte Real, Leiria, um dos concelhos afetados também pelo grande incêndio que se iniciou no domingo passado em Alcobaça, e devastou grande parte das Matas Nacionais, ao longo da costa.

Empunhando cartazes a lembrar os mais de 100 mortos provocados pelos fogos florestais deste verão, os manifestantes concentraram-se à entrada da praia de Vieira de Leiria, e foram-se espalhando, de mão dada, por uma das bermas da estrada que liga de um lado a S. Pedro de Moel e do outro a praia do Pedrógão. Como pano de fundo, uma floresta vestida de negro.

Francisco Pedro

Dezenas de pessoas reuniram-se esta tarde na Praça do Bocage, em Setúbal, para cumprir um minuto de silêncio de pesar pelas mortes nos incêndios florestais este ano.

A manifestação foi convocada nas redes sociais pela organização da Corrida Noturna de Setúbal e, para além do minuto de silêncio, foram recolhidos inúmeros sacos de mantimentos e roupas com destino ao norte do país. Uma equipa dos bombeiros voluntários de Setúbal também esteve presente e foi recebida com aplausos pela população, que não quis deixar de os homenagear.

Rogério Matos

A iniciativa surgiu pela mão de duas amigas em choque com a tragédia que assolou o país. O facebook, como explica Vera Costa, "fez o resto". A palavra foi passando e foram cerca de uma centena os que se reuniram na Praça do Almada, na Póvoa de Varzim, para lembrar os que perderam a vida nos incêndios e agradecer aos bombeiros.

"Não tem qualquer componente política. Queríamos que, de uma situação tão má, saísse algo de bom: homenagear as vítimas, ajudar os nossos bombeiros e mostrar que estamos tristes com tudo isto", explica Vera Costa, que com Patrícia Silva organizou a homenagem.

Para além do lado simbólico, água, bolachas, leite, barras energéticas, enlatados, soro, pensos e gases, ligaduras e pomada para as queimaduras foram alguns dos bens angariados. E a todos ficou o apelo: "Se querem ajudar, façam-se sócios dos bombeiros".

Ana Trocado Marques

Largas dezenas de pessoas, a maioria estrangeiros, juntaram-se hoje no Jardim da Devesa, em Pedrógão Grande, numa concentração pacífica a pedir por uma mudança na floresta da região.

"E agora?", era a pergunta lançada num cartaz à porta do jardim, na sede do concelho devastado por um incêndio em junho.

Dentro da Devesa, largas dezenas de pessoas juntaram-se para pedir mudança - apelo lançado maioritariamente em inglês pela comunidade estrangeira que reside no norte do distrito de Leiria.

"Nada vive com os eucaliptos. Não se ouvem os pássaros a cantar, não se veem outros animais ou outras árvores. É como se fosse um relvado que se corta e que se vende, de dez em dez anos", protestou Judith Irwin, de 68 anos, que vive em Figueiró dos Vinhos.

Cerca de uma centena de pessoas juntou-se, esta tarde, no Largo do Município com palavras de ordem e de repúdio pelo que se passou naquele que foi o "pior dia" no que toca a incêndios e que vitimou, até agora, 43 pessoas.

Novos e velhos, da direita à esquerda, ninguém ficou indiferente a um dia de má memória para os portugueses.

Palavras como "já chega!" ou "mais de 100 mortos" foram só alguns dos cartazes que as pessoas envergavam enquanto pediam uma rápida intervenção dos governantes contra uma política de "destruição de vidas que já dura há décadas".

Olga Costa

Arouca recebeu, esta tarde, uma manifestação silenciosa, que foi muito para além do protesto. "Não estamos numa altura de apontar dedos, mas sim de ajudar", explicou José Maria Ribeiro, organizador da caminhada que angariou centenas de bens para as vítimas do incêndio de Castelo de Paiva. A iniciativa, divulgada pelo Facebook, começou na Praça Brandão de Vasconcelos e terminou nos Bombeiros de Arouca, onde foi entregue um simbólico ramo de flores de agradecimento. Juntou cerca de uma centena de pessoas.

"O que me enche mais o coração e a alma é que recebemos imensos bens para entregar em duas associações em Castelo de Paiva, que era o grande objetivo", disse José, que esclareceu que trabalhou dez anos neste concelho vizinho de Arouca e não conseguiu ficar indiferente às vidas que o fogo destruiu no passado fim de semana. "A ajuda foi enorme, muita gente que não podia juntar-se à manifestação fez-me chegar centenas de bens".

Roupa de cama, mobília, eletrodomésticos, louça e bens de higiene pessoal são os produtos mais necessários neste momento para aqueles que, num ápice, viram as suas casas arder e perderam uma vida inteira de trabalho. "Ainda não vi ninguém a oferecer-se para ajudar a erguer paredes ou a limpar montes. Muito mais do que juntar-se em Lisboa, as pessoas deviam ajudar por todo o país", admite.

Conseguiu recolher tantos bens que teve que recusar uma carrinha cheia, para evitar que os produtos se estraguem. O trabalho, contudo, não se esgota por aqui. O empresário arouquense vai continuar a fazer o levantamento das necessidades junto de associações e a recolher bens junto de amigos e de todos quantos queiram ajudar.

Catarina Silva

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