Saúde

Cerca de 40% das urgências no ano passado eram pulseiras verde ou azul

Cerca de 40% das urgências no ano passado eram pulseiras verde ou azul

Cerca de 40% dos atendimentos em urgência nos hospitais públicos no ano passado foram considerados pouco ou nada urgentes, sendo quase 2,2 milhões de casos.

Os números das urgências por triagem de Manchester, que determina o grau de prioridade clínica, indicam que quase 2,2 milhões dos atendimentos receberam pulseira verde ou azul, sendo considerados pouco urgentes ou não urgentes, segundo dados do portal da Transparência do SNS analisados pela agência Lusa.

A Lusa recupera estes dados que analisou em fevereiro, que reportam a 2018, num dia em que a bastonária da Ordem dos Enfermeiros denunciou na comissão parlamentar de Saúde da Assembleia da República que os enfermeiros estão a recusar-se a participar num projeto-piloto nas urgências do Hospital de Barcelos que pretende que os profissionais mandem para os centros de saúde os doentes triados com pulseira verde e azul.

A bastonária Ana Rita Cavaco entende que essa não é uma responsabilidade dos enfermeiros e que as pessoas procuram as urgências hospitalares porque têm um problema para resolver e que o sistema não aposta o suficiente nos cuidados de saúde primários.

A Ordem dos Enfermeiros considera a situação grave e diz que não compete aos enfermeiros mandarem embora da urgência os doentes.

A atribuição das cores verde e azul como prioridade clínica significa que os utentes poderiam, à partida, ser vistos noutros serviços de saúde, como os cuidados primários.

Os 40% de atendimentos em urgência hospitalar que em 2018 não foram considerados realmente urgentes aquando da triagem estão em linha com a proporção que se tem verificado nos últimos anos.

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A análise da agência Lusa aos dados do portal do SNS sobre a proporção na atribuição de prioridades teve em conta os 5,5 milhões de atendimentos com uma das cinco cores da triagem de Manchester, uma vez que há casos sem pulseira atribuída e outros com pulseira branca (recebidos por razões administrativas ou casos clínicos específicos).

As cores da triagem de Manchester são vermelho (emergente), laranja (muito urgente), amarelo (urgente), verde (pouco urgente) e azul (não urgente).

Os dados de 2018 mostram que a cor amarela foi a pulseira mais vezes atribuída nas urgências no ano passado, com 2,6 milhões de atendimentos.

A atribuição de prioridade laranja - casos muito urgentes - foi dada a menos de 600 mil atendimentos num total de 6,3 milhões, enquanto a vermelha foi atribuída em 20.500 casos.

De acordo com os números do portal do SNS, houve ainda no ano passado mais de 700 mil atendimentos sem triagem de Manchester efetuada e cerca de 160 mil casos com atribuição de pulseira branca.

Enfermeiros recusam mandar doentes triados a verde ou a azul para centros de saúde

Os enfermeiros estão a recusar-se a participar num projeto-piloto nas urgências do Hospital de Barcelos que pretende que os profissionais mandem para os centros de saúde os doentes triados com pulseira verde e azul.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE) denunciou hoje a situação na comissão parlamentar de Saúde, considerando gravíssimo que o hospital pretenda depositar nos enfermeiros essa responsabilidade.

"Não é aos enfermeiros que compete, e é um risco enorme, mandar embora um doente que objetivamente tem uma queixa. Uma pessoa triada com verde e azul [as cores de menor prioridade na triagem das urgências] não significa que a sua situação, passado umas horas ou um dia, não tenha piorado. Não podem enviar as pessoas embora do serviço de urgência sem resposta, porque não compete aos enfermeiros", indicou Ana Rita Cavaco em declarações à agência Lusa no final do encontro com os deputados.

Para a bastonária da OE, nem os médicos provavelmente quererão assumir isso por motivos de segurança.

"Entendemos que as pessoas que vão ao serviço de urgência fazem-no com um problema para resolver, porque não têm resposta em outro sítio. Portugal não tem um sistema centrado nos cuidados de saúde primários. A solução não passa por mandar as pessoas embora [da urgência hospitalar], passa por organizar melhor os centros de saúde e dar resposta nos cuidados de saúde primários", defendeu Ana Rita Cavaco.

A Ordem dos Enfermeiros tomou conhecimento da situação em dezembro, tendo enviado um ofício sobre o assunto à ministra da Saúde e indicando aos enfermeiros que não podem fazer esse envio dos doentes que recebem pulseira azul ou verde para fora do hospital.

"Os enfermeiros estão a recusar e o conselho de administração está a pressioná-los", indicou.

Segundo disse aos deputados a bastonária, esta é uma das questões a que a ministra da Saúde ainda não deu qualquer resposta à Ordem.

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