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"Com o FMI haverá cortes e alteração às leis laborais"

"Com o FMI haverá cortes e alteração às leis laborais"

Ao contrário de 1977 e 1983, desta vez, o economista Silva Lopes vê com preocupação uma eventual intervenção do FMI em Portugal. E avisa que, se isso acontecer, as medidas serão muito mais dolorosas.

Ficou surpreendido com o desfecho das negociações entre Governo e o PSD?

Fiquei, estava à espera que chegassem a acordo.

O que acha que correu mal?

Não conheço os pormenores e por isso não estou em condições de me pronunciar. Mas estou em condições de dizer que isto custa muito ao país. Por não se ter chegado a acordo na quarta-feira, os juros da dívida já subiram. É uma grande irresponsabilidade dos partidos não se porem de acordo. Não sei de quem é a culpa, mas que há culpa há. E é uma culpa que custa caro aos portugueses.

O PSD não fechou a porta à viabilização...

É verdade que o PSD mantém a situação em aberto, mas são seis ou sete dias de perturbação nos mercados. E isto tem reflexos imediatos nos custos da dívida.

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Gostava de ter estado no lugar de Eduardo Catroga?

Não, nem no dele, nem no do ministro das Finanças. Parece haver desentendimento sobre onde e como cortar despesa. Cortar nas despesas gera impopularidade. A impressão que tenho é que o PSD quer baixar os impostos, que é uma coisa popular, mas depois deixa as castanhas no lume do PS para fazer os cortes sozinho.

Surpreendeu-o a derrapagem da execução orçamental em 2010?

Não conheço bem a situação. Mas dou um exemplo: uma das derrapagens vem pelas autarquias e regiões. Dizem-lhes para eles não gastarem e eles gastam. É preciso fazer qualquer coisa, inclusivamente pôr processos a esses senhores que não cumprem os défices orçamentais e excluí-los da elegibilidade política por uns anos. Não podemos ter o Governo a dar ordens e eles a não cumprirem.

Porque diz temer a entrada do FMI?

Em 1977 e 1983 a intervenção do FMI foi extremamente vantajosa para o país, foram dois casos de sucesso e foi o que nos valeu. Só que naquela altura o FMI podia impor-nos condições que agora não pode - desvalorizar o escudo, aumentar taxas de juro, colocar limites à concessão de creédito dos bancos. Agora só temos um instrumento: cortar na despesa. Se o FMI entrar será para cortar despesa e para alterar também algumas leis estruturais o que vai dar problemas. Admito que se metam, por exemplo, com a legislação do trabalho.

Já há quem diga que mais vale o FMI vir de uma vez por todas...

Não é o que eu desejaria. O que desejaria é que nos soubéssemos governar e não precisássemos que o FMI viesse tomar conta de nós.

Acha então que mesmo que o OE passe esse cenário não está afastado?

Não. O que estou a dizer é que gostava que nos soubéssemos governar e não estamos a saber faze-lo. Se o soubéssemos, o Governo e o PSD já teria chegado a um acordo. Sei que é duro cortar na despesa, mas vai haver uma grande crise. Temos de cortar à bruta. Vai doer a muita gente e as pessoas vão protestar. Mas se não tivermos empréstimos do estrangeiro vai ser muito pior.

Concorda com as cedências que o Governo aceitaria fazer ao PSD?

O Governo tem de ceder alguma coisa. Pessoalmente não sou a favor da manutenção das deduções ficais, mas não me parece mal que tenha cedido aí. Agora, o que é necessário é que o PSD diga onde se deve cortar e pelos visto isso não acontece.

Vem aí uma greve geral. As pessoas têm razão em estar zangadas?

As pessoas não podem pensar que se resolvem estes problemas sem lhes tocar. Porque vai tocar. Onde vejo que pode haver alguma razão é uns acharem que são tocados de uma forma injusta em relação a outros. Há pessoas que têm motivo para estar zangadas, principalmente os desempregados.

Ainda defende cortes nas pensões?

Sim e ao que parece há já umas medidas nesse sentido. Até é contra os meus próprios interesses, mas acho injusto e até imoral que se paguem pensões bastante altas e ao mesmo tempo se ande a tributar pessoas que ganham uma miséria e se aumente o IVA. Sou a favor de que as pensões deviam levar cortes iguais aos dos salários e as mais elevadas, de 20 e 30 mil euros, deveriam ser ainda mais tributadas.

Mas cortar pensões, diz-se, é ilegal.

Há uma maneira de resolver isso: se é ilegal por causa dos direitos adquiridos, então aumentam-se os impostos. Devo dizer que isso dos direitos adquiridos me faz alguma confusão, porque o maior direito adquirido que uma pessoa devia ter é o direito ao emprego. E não venham cá falar-me de direitos adquiridos e de direitos à progressão quando outros vão para o olho da rua.

O país vai mergulhar numa recessão em 2011?

Sim. Vamos ter uma recessão em 2011 e não estou a dizer isto com satisfação. Temos de dizer às pessoas que a recessão é inevitável e que se não se tomarem estas medidas, é pior ainda porque a recessão seria muito maior. Se não tomarmos medidas, ficamos sem financiamento externo e então a recessão será muito pior.

Serão necessárias mais medidas?

Eu queria que por agora passasse o Orçamento. Daqui a seis meses logo se vê. Neste momento, andamos a toque de caixa dos mercados internacionais. Também se protesta que estamos a perder soberania. Pois estamos, mas porque nos colocámos nessa situação. E a culpa não é só deste Governo, ao contrário do que se diz. Isto já vem de há muitos anos.

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