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Comissão para o estudo dos abusos na Igreja já começou a ouvir testemunhos

Comissão para o estudo dos abusos na Igreja já começou a ouvir testemunhos

O site da comissão independente para o estudo dos abusos sexuais contra as crianças na Igreja Católica portuguesa começou a receber testemunhos esta segunda-feira. Os trabalhos irão incidir no período entre 1950 e 2022 e os peritos terão "ligação direta" às autoridades.

A comissão disponibilizou cinco formas para as vítimas relatarem as suas experiências. É possível preencher um inquérito anónimo no site (darvozaosilencio.org) ou telefonar para o número 917 110 000, disponível a partir desta terça-feira. Irá funcionar em todos os dias úteis, entre as 10 e as 22 horas.

Além disso, as denúncias poderão ser feitas através da marcação de uma entrevista presencial, do recurso a um endereço de e-mail (geral@darvozaosilencio.org) ou do envio de uma carta para um apartado a anunciar no site.

"Nunca conseguiremos ver mais do que a ponta de um icebergue", admitiu a socióloga Ana Nunes de Almeida, que integra a comissão. Assim, mais do que chegar a um número final de abusos praticados, os peritos querem saber se existem "perfis-tipo" a nível de vítimas, abusadores ou "contextos favorecedores" destas práticas, revelou.

"Não sabemos onde vamos chegar"

Laborinho Lúcio, antigo ministro da Justiça e outro dos membros do grupo, revelou que foi criada uma "relação direta" com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Judiciária, no sentido de encaminhar as queixas. Lembrou que algumas poderão ter prescrito e que o papel da comissão é fazer "um estudo" e não uma "investigação criminal".

"Não sabemos onde vamos chegar, mas podem contar connosco para não desistirmos", afirmou Pedro Strecht na conferência de imprensa, em Lisboa. Embora a comissão vá ser financiada pela Conferência Episcopal Portuguesa, o especialista garantiu que esta função será desenvolvida com total independência e também "com recato", de modo a criar uma relação de "confiança" com as vítimas.

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O sociólogo Daniel Sampaio, membro da comissão, salientou que o trabalho "não será possível" sem o auxílio da comunicação social. Sampaio apelou a que não se deixe o assunto morrer mesmo nas alturas em que, por haver menos denúncias, a comissão dará menos novidades.

Além dos testemunhos das vítimas, os peritos também irão investigar arquivos de jornais, da Igreja ou de entidades como a PGR ou a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças. Os inquéritos enviados pelo site serão analisados até 31 de julho, mas o grupo continuará a aceitar respostas até ao final do ano.

Para além de Pedro Strecht e de Laborinho Lúcio, a comissão é também composta pelos sociólogos Daniel Sampaio e Ana Nunes de Almeida, pela assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e pela cineasta Catarina Vasconcelos, que contribuirá com um olhar exterior.

Há ainda mais dois membros cujos nomes não foram revelados, um da área da psicologia clínica e outro ligado à comunicação social. Segundo Pedro Strecht, a equipa poderá continuar a ser reforçada.

Perguntas à vítima

O inquérito online coloca ao denunciante questões sobre o seu perfil. Entre as perguntas conta-se a idade da vítima, se vivia numa instituição, que tipo de abusos sofreu, qual a frequência, a duração, a forma como foi abordada, o que lhes pôs fim e as consequências.

Perfil do abusador

Entre as questões sobre o abusador, pergunta-se qual o estatuto deste na Igreja, o que dizia para abusar e depois do abuso e se alguma vez reconheceu o que fez.

Lá fora
Em França, um relatório de outubro aponta para 216 mil menores abusados por membros do clero entre 1950 e 2020. Nos EUA, só em Boston, um relatório da Universidade de Justiça Criminal John Jay concluiu que, entre 1950 e 2002, 10 667 pessoas acusaram 4 392 clérigos de abusos de menores. Na Alemanha, a investigação pedida pela Igreja revelou que 3 677 menores foram abusados por 1 670 clérigos.

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